Como brincávamos em Calçado

I
Pelada

Seguindo já nossos padrões ancestrais de primatas,tínhamos mais ou menos delimitado nossa extensão territorial e não víamos com bons olhos quando moleques que moravam distantes de nós como,por exemplo,na longínqua ladeira onde se situava a padaria da dona Dulce,a residência do Dr.Aristides,uma banda do bar do Crissaf,invadiam nosso território.O que dizer então dos moleques que,morando lá para o final da rua Quinze,tinham o topete de vir brincar em nossa área?Deveríamos ter exigido passaporte,carteirinha de morador da cidade e impressões digitais,colhidas por técnicos nas imediações das fronteiras imaginárias entre a Praça Governador Bley e o resto da cidade,salvo-conduto da sempre operosa polícia de Calçado e outros documentos para livre trânsito de indivíduos não gozando de imunidades diplomáticas.
Quero deixar claro para as novas gerações que demarcávamos nosso território em nossas mentes(achávamos que todos sabiam os limites da aludida Praça),esperando que os outros moleques concordassem tacitamente conosco,assim como concordávamos tacitamente com eles. Enfim,quero dizer que não saíamos urinando nos postes,nos muros,nos becos,nas calçadas—enfim,não procedíamos como os cães.Éramos já regularmente civilizados.
Claro que em certas circunstâncias essa precaução contra a invasão perdia todo o sentido. Refiro-me a um evento importante,como quando um circo chegava à cidade e era armado no antigo terreno do cemitério,hoje transformado em continuação do Grupo Escolar.Ou quando,no mesmo local,se disputava um campeonato de pelada.
Fora as exceções acima,o intruso não era bem recebido.Muita briga teve por causa essas invasões.Quem acha que não,bote a mão na consciência e reflita um pouco.Acabará por reconhecer que estou certo.
Mas passemos ao que interessa.
De todas as brincadeiras,o futebol,ou melhor,a pelada,era,de longe,a mais apreciada.Jogávamos a qualquer hora do dia,em qualquer lugar e com qualquer objeto que lembrasse a forma de uma esfera:uma mamucha de laranja baía,meia comprida de mulher recheada com papel jornal,caroço de manga e até mamão verde.Mas sempre dávamos um jeito de conseguir uma bola de verdade—de couro,de preferência,já que a de plástico ou borracha provocava uma ardência no pé desagradável.
Como acontece com tudo que é bom,havia sempre algo ou alguém para atrapalhar nossas peladas.Quando não era nossa mãe chamando pela milionésima vez para o banho ou almoço ou jantar,por intermédio da empregada que se esgoelava da calçada como doida no cumprimento de sua difícil missão,era o Sr Jaconias,a quem chamávamos de Jararaconias,de tão bravo que era,sempre ameaçando seqüestrar nossa bola ou rasgá-la com uma faca.Nem raio nem chuva,de pedra ou canivete,tinham o poder de interromper nossa pelada, mas aquele senhor e aquela senhora nossa mãe acreditavam possuir mais poder sobre nós que os próprios fenômenos naturais.E o problema é-- que tinham!!,para nossa desgraça.
Diz lá a Enciclopédia Barsa que por volta do "ano 206 a.C.,na China,publicou-se o regulamento de um jogo de bola com os pés, de aplicação no treinamento militar, praticado desde o tempo do imperador Shih Huang-ti, por volta de 2.500 a.C.".Também na Grécia há indícios de um jogo chamado de episcuros,no qual se empregava uma bexiga de animal,cheia de ar ou areia,que era disputada por dois grupos de atletas,os quais procuravam levá-la até uma meta.Quando as legiões romanas ocuparam a Grécia,esse esporte migrou para Roma com o nome de harpastum.E dali para outras regiões ocupadas pelos romanos.
A conclusão a que se chega é que todos os povos manifestaram sempre um fascínio pela forma esférica, que pode ser rolada para aqui e para lá.Há muitos outros jogos que são disputados com bola,como,por exemplo,o bilhar.
Vou mais longe e digo que,se algum dia descobrirmos uma civilização extraterrestre,veremos indivíduos dela correndo como uns loucos atrás de uma bola,com ânimo tão ardoroso quanto o nosso.O próprio formato da bola é um símbolo universal--em seu sentido mais abrangente possível.Os planetas são esferóides,as estrelas têm a mesma forma e milhares de outros objetos assumem a forma redonda.Até de uma boa cerveja dizemos que desce redondinha,quando desce bem.
Antes que prossiga,uma reclamação—bastante extemporânea,é verdade.
Judiaram da gente!Isto não se faz!O que fizeram?Pegaram uns pirralhos de nove anos,eu incluído,vestiram com camiseta colorida,nos deram um par de conga e nos jogaram no campo do Americano ou do Motorista, não me lembro.Fôra tudo feito com pleno conhecimento da Diretora do Grupo Escolar Manoel Franco.Acredito até que ela tenha tido as melhores intenções.
Ganhamos de uma hora para outra um campo que dava uns dez do nosso. Resultado: ficamos todos perdidos naquele latifúndio gramado,tão inibidos quanto um pobre que é retirado de seu casebre de um cômodo e jogado numa mansão de Holywood.Havia uma tendência natural de corrermos todos para onde a bola estava.Era assim em nosso campo.Mas o treinador não queria isso.Já tinha todo mundo se embolado quando ele gritou que cada um devia ficar em seu lugar,conforme o combinado.Voltei para minha posição de centroavante descaindo pela meia-direita,cabisbaixo,pois tinha chegado perto da bola mas não pudera chutá-la.
Assim que retornei,um outro moleque veio me marcar,não sei porquê nem para quê.A bola ainda não tinha passado uma vez sequer por aquela região,que parecia ter sido seccionada e isolada do resto.Ali, naquela solidão,sem nada para fazer,senti-me aposentado prematuramente da carreira futebolística.Só tinha uma coisa a fazer: bater papo com meu marcador.Eu não o conhecia e nem ele a mim.Perguntei a ele se já tinha encostado o pé na bola.Ele demorou a responder,talvez achando que eu já o fizera e que seria para ele uma vergonha se respondesse que não.Então,ele disse que já tinha,que a bola era dura como pedra.Para não ficar para trás,confirmei que a bola era mesmo dura e que não dava para chutar de bico.Na verdade era uma bruta duma mentira.Todos os ataques se davam pela meia-esquerda.Como o guri tinha mudado de posição,ele não deveria saber se eu estava dizendo uma mentira ou não pelo motivo de a gente não enxergar de tão longe um tamanho pingo de gente.O que me lembro é que chegou um momento em que nós dois achamos que o jogo estava sendo disputado só na outra banda do campo.Assim,nos sentamos no gramado ao mesmo tempo e ficamos a conversar sobre coleirinhos e circo,enquanto mastigávamos um talinho de uma plantinha azeda que crescia entre a
grama.
E só ficamos sabendo que o jogo tinha terminado há muito tempo porque mandaram alguém nos avisar.Uma vergonha!!
De todos os jogadores mirins de pelada,em Calçado,o que mais me impressionava era o Bendeca.O sujeito tinha uma ginga de corpo que fazia lembrar o Garrincha(acredito que era seu modelo de jogador).E,o mais importante,a bola ia com ele,parecia estar colada em seu pé.Deixava seu oponente com tonteira;"orava" o infeliz--era a palavra que usávamos.Eu morria de vontade de chutar a canela do Bendeca,de raiva.Embora jogando mal,eu tinha alguma fibra--e era só o que eu tinha,também.O Bendeca sambava em minha frente mas raramente conseguia passar por mim.Era obrigado a passar a bola para outro,coisa que ele detestava.


II
Pegar Passarinho

Eis um excelente divertimento—embora os passarinhos não pensassem da mesma forma,acredito-- a que poucos se mantinham indiferentes.Pegar passarinhos agora é crime-- proibido pela Portaria 57 do IBAMA,se não me engano,que só permite a posse e comercialização daqueles criados em cativeiro.Mais uma alegria que as crianças de hoje perdem.Neste caso o prejuízo não foi total: os passarinhos que por sorte se mantiveram livres saíram ganhando.
Em meu tempo o mais perseguido pelos moleques era o coleiro e a armadilha mais usada para pegá-lo era o alçapão.. A armadilha de rede era mais utilizada pelos adultos,que preferiam caçar passarinhos mais raros na região,como o canário-da-terra.Nela não se usava comida.Tirava-se partido do instinto belicoso da ave e neste caso punha-se um macho da mesma espécie na gaiola e uma fêmea.Era o que se denominava na linguagem de passarinheiro "usar chama".
Meu lugar preferido de pegar coleiro era para os lados de quem,estando no centro da cidade,segue para a ponte do atual terminal rodoviário e pega a estrada à esquerda,depois de atravessada a ponte.Não me lembro mais do nome daquela estrada(acho que ia para a fazenda do pai da Drª Abigail),por isso todo esse rodeio.
0 coleiro era tão abundante que a gente não precisava nem de "chama".Mesmo assim eu a usava para a “caçada” ficar mais excitante.Bastava por um punhadinho de farelinho de milho no alçapão e procurar um esconderijo de onde se pudesse ver, sem ser visto, o que estava acontecendo na armadilha e arredores,minuto por minuto de ansiosa espera.Se o moleque tinha o costume de roer as unhas,nestas ocasiões ele as roeria até o sabugo,até sair sangue.Não me espantaria se algum comesse a metade do dedo e depois se dirigisse à farmácia do Paulo Medina,para os curativos.Afirmo,sem medo de errar,que muitos moleques passaram por momentos mais angustiosos pegando passarinho do que aguardando,mais tarde,sua esposa dar à luz. Relembrando, tenho que admitir também que éramos masoquistas de carteirinha,pois não levávamos com a gente nem revistinha de sacanagem,nem um pedaço de rapadura,nem um baralho,nem nada! Acho que esse tempo devia ser contado pela Previdência Social para efeito de aposentadoria.Tenho até nome para ele: Contagem de Tempo Geral no Aguardo de Captura de Passarinho por Alçapão.Fica aí a dica para nossos legisladores.A atividade exercida pelos moleques poderia ser corroborada pelo testemunho de seus companheiros de ofício,todos agora necessariamente adultos e, portanto, perfeitamente aptos a prestar testemunho sob juramento.E mais: a atividade não era proibida na época.Se a gente ficava escondido era por dever de ofício,a natureza da ocupação o exigia.Mas às vezes um coleirinho teimava em ficar próximo a uma estradinha de terra por onde passava gente.Se era um velhinho que apontava,desses que parecem andar medindo os passinhos com uma régua imaginária,vinha logo o desejo de nos aproximarmos dele,pegá-lo pelo ombro e o girarmos,fazendo-o retornar de onde tinha vindo,para que não nos atrapalhasse. Muitos nem perceberiam estar pisando sobre suas passadas ainda frescas no chão poeirento... Mas a tortura das torturas,troço que levava um guri a praguejar como um endemoninhado era quando,depois de toda aquela agonia,ele via a tampa cair e um vulto de penas a chocar-se entre os paus do alçapão.Corria cheio de esperança,já com a quase certeza de possuir o melhor coleiro gravatinha da cidade--e quando chegava perto, via um maldito tiziu todo nervosinho,querendo sua liberdade de volta,como se fossemos o culpado pela sua estupidez.Aquilo era o fim da picada!!Tiziu só fazia uma coisa na vida,aliás,três :cantava um horrível ti-ti-tiiiziu e dava uma cambalhota no ar,como se artista circense fosse,e se intrometia no alçapão no lugar do coleiro.A primeira idéia que nos vinha à cabeça,numa circunstância dessa,que bulia com nossos nervos à flor da pele,era pegar o infeliz,torcer o seu pescoço e jogar o cadáver no chão,com toda a força,e em seguida pisoteá-lo.Mas nós, passarinheiros mirins,tínhamos um código de honra: nunca matar passarinho--só tirar a sua liberdade pelo resto de sua penosa existência.Assim, pegava eu o corisco do tiziu do alçapão e arremessava-o ao espaço como quem atira uma pedra com raiva--vai dar cambalhota pra puta que o pariu,tição, bicho preto desgraçado!
Havia outro passarinho que tinha o mesmo hábito de desmancha-prazeres do tiziu,embora com muito menos freqüência--o catatau.Porém,a este eu respeitava,pelo seu comportamento sério,despido de exibicionismos,de fricotes e tremeliques circenses; admirava sua entroncada pessoinha,seu possante bico e seu canto curto e grosso de furador de tímpano--ká-ká-katatau.Agarrava-o com cuidado do alçapão,abria a mão e deixava que ele voasse,sem xingar a senhora sua mãe.
Uns preferiam o coleiro gravatinha e outros o paulistinha.Era uma questão de tão alta relevância que os mais exaltados até partiam pra briga.De minha parte,tinha um fraco pelo paulistinha,talvez porque fosse mais raro e o colorido do bico mais realçado. Permaneci fiei à captura do coleiro--coisa que não deixaria a ave em questão nem um pouco lisonjeada.
Minhas gaiolas em casa só tinham coleiro dentro. Exatamente ao contrário do que se passava na casa de um dos maiores passarinheiros que Calçado já teve,o Mané França: coleiro é que não entrava ali.Ele achava que era coisa de moleque e ainda por cima pobre.Ele só tinha passarinhos da elite:bicudo,azulão,cardeal,sabiá,etc.Só muito mais tarde ele feriu os ditames da mencionada elite e admitiu que coleiros entrassem em seu santuário de cantadores e ficassem próximos a Sir Azulão&Cia. Como ocorria com todo passarinheiro adulto de nomeada,a esposa do Mané França,minha tia Edissé,que tinha um cartório na Governador Bley, votava um ódio insuperável por toda aquela passarada que o esposo teimava em possuir;e não tanto pela cantoria das aves e sim pela sujeira que elas faziam.Mas isto já é outra história...

 

III
Soltar Pipa

Minhas pipas vinham de duas fontes:umas poucas,eu fazia;as demais,ou eu as caçava,quando caiam e tinha a sorte de chegar até ela antes de outros, ou elas vinham até mim embaraçando-se nas bananeiras e goiabeiras do grande quintal da casa de meus pais na Governador Bley-isso não era tão raro assim. Para que o seu dono não viesse a tomar satisfações comigo,eu trocava o papel e a rabiola e não mexia nas varetas e nem na linha amarrada à pipa,a linha mestra(o cabresto),aquela à qual amarrávamos um carretel de linha ou uma carretilha. Certamente as inspecionava: via se o nó não estava correndo e se ele encostava nos vértices das varetas laterais. Isso era importante para o equilíbrio da pipa no alto,entre outros fatores.Era vexatório empinar uma pipa que "dava de lado";acabaria rodopiando no alto,fugindo totalmente ao nosso controle e despencando de bico no chão,tal como um pássaro abatido a tiros,e ainda fazendo seu dono levar uma sonora vaia.
Raramente usávamos cerol. Para quem não sabe,o cerol consiste de vidro quebrado bem fino ao qual juntamos o grude,a cola que usávamos, e depois passávamos numa parte da linha.Essa parte que tinha o cerol, podia ser posta na altura que quiséssemos. Mais alto,era só dar linha; mais baixo,era só enrolar o carretel.Com aquela parte mortal da linha,nós a aproximávamos da linha inimiga e a esfregávamos nela, cortando-a. Nunca soube de alguém que tivesse sofrido cortes profundos ocasionados por cerol.Quando leio nos jornais que motoqueiros foram degolados por cerol,me pergunto se esses moleques modernos soltam pipa fumando maconha ou cheirando cola de sapateiro,isto é,muito doidões. Nós, moleques da antiga Calçado, felizmente nunca brincávamos de maneira tão selvagem e tínhamos uma razoável quota de respeito pelos nossos semelhantes. Empinávamos pipa de qualquer lugar; preferíamos,contudo,a calçada do Sr.Gastão,o terreno baldio atrás do Grupo Escolar ou a frente dele,a parte mais alta do jardim.
Houve um tempo em que passei a me considerar um pária social por não possuir uma carretilha. Penei para construir uma sozinho.Dava gosto observar uma carretilha bem feita, sólida,que podia ser deixada na calçada sobre sua base,travada, enquanto o seu feliz proprietário se afastava.Mas só os mestres construíam carretilhas assim. No mundo das pipas há pessoas muito imaginativas.Vejam só:Fiquei sabendo que um americano solta pipas com varas de pescar e a sua carretilha é o próprio molinete.Aproveito para refrescar a memória de alguns: solta-se pipa no mundo inteiro e foi através dela que Benjamin Franklin fez a sua célebre experiência sobre a natureza elétrica do raio.
E aqui vou mandar um "telegrama" de adeus às pipas. Passar telegrama, aliás, consiste em enrolar um pedaço de papel na linha e fazê-lo chegar até à pipa,com movimentos vigorosos das mãos.Raramente ele chegava a seu destino-mas este que agora mando irá chegar...


IV
Represas

As represas eram construídas quase sempre durante os aguaceiros de verão.Estou falando de uma época em que alguns trechos da Governador Bley nem eram calçados.As enxurradas corriam na beira do passeio de pedestre. Quando cessava a chuva,vários moleques saiam de casa, como caranguejos de suas tocas, e começavam a construir as represas.Às vezes as construíamos debaixo de chuva mesmo.Eu estava sempre pronto para entrar em ação,isto é,de short,sem camisa e descalço.
As represas podiam ser obras individuais ou coletivas.Às vezes nos reuníamos e construíamos uma realmente grandiosa,coisa bonita de se ver. Primeiramente, procurávamos pedras e depois fazíamos com elas uma meia-lua,maior ou menor,dependendo da abundância relativa da chuva que achávamos que ia desabar. Certamente também improvisávamos represas lá para o final da chuva,mas aquelas longamente idealizadas nos davam muito mais prazer.Por cima e entre as pedras púnhamos barro grudento e nele batíamos para que entrasse por todas as fendas formadas e as fechasse por completo.Após isso,fazíamos o arremate, passando as mãos sobre o barro,alisando e conferindo a solidez de toda a estrutura,seção por seção. Depois que enjoávamos dela,nós a sangrávamos com um pedaço de pau ou simplesmente as destruíamos com pontapés.Às vezes fazíamos de pura malvadeza,para destruir as represas de outros moleques mais novos que davam os primeiras passos nessa arte e eram inocentes ao ponto de construir uma represa em um local mais baixo que o nosso.É verdade que também não tinham muita escolha.Ríamos a valer vendo o desespero dos guris,que não esperavam tanta água de uma só vez.
Quando a represa estava cheia,fazíamos barquinhos de papel e os púnhamos a navegar naquelas águas barrentas; pegávamos formigas cabeçudas e as deixávamos em sérios apuros sobre um pedacinho de folha de árvore ou papel dentro d'água.E para testar seu instinto belicoso, materializado em duas possantes presas que se fechavam como tesouras, pegávamos duas daquelas bem graúdas e encostávamos uma na outra, de preferência presa contra presa.Elas se atracavam selvagemente, rolavam para um lado e outro da folha e na maioria das vezes uma decepava a cabeça da outra,cortando o fino pescoço.E o engraçado era que aquela que havia perdido a cabeça ficava ainda a andar de um lado para o outro,às tontas,até que caia dentro d'água e ali ficava a boiar.À vencedora,como prêmio de consolação,concedíamos o privilégio de novamente poder seguir com sua vidinha em terra firme.



V
Bola de gude,Bandeirinha &etc

Finalizando este escrito sobre as nossas brincadeiras em Calçado,vou passar por alto sobre algumas que tinham menor importância do que as acima referidas.Não posso deixar de mencionar as bolas de gude e o melhor local que encontramos para sua prática: a grande área calçada que hoje não serve para nada,exceto a de ser um parador para ônibus que vão para Cachoeiro e Vitória.Ali também muitas barraquinhas são armadas durante os dias de festa da cídade.Os dois ou três bancos que a Prefeitura ali assentou só têm serventia nas horas em que o sol ou ainda não se ergueu ou já se pôs.Pois era ali,debaixo de densas árvores,no chão de terra, que rolávamos as bolinhas.0 jogo de gude tem inúmeras variantes mas o objetivo maior dos jogadores era o de apoderar-se das bolebas ou balebas dos adversários. Desenhava-se um círculo e os jogadores rolavam as bolinhas para dentro dele.0 jogador que acertasse a baleba adversária tinha o direito de tomar posse dela,tornar-se seu novo dono. Desgraçadamente sei que existia um buraco no chão,que esse buraco era chamado de caçapa ou buque e que era indispensável numa variante do jogo--mas não sei para que exatamente ele servia!! Só tenho uma hipótese: antes de poder carimbar ou matar qualquer baleba,o jogador tinha que fazer uma "visita" à caçapa.Daí a sua necessidade.
As balebas eram belas esferas de vidro.Nenhuma era igual a outra e tinham os mais belos desenhos em seu interior e em sua superfície.Era natural que assim fosse. Se todas fossem pretas,brancas ou incolores e desprovidas desses esquisitos desenhos,não despertariam a nossa cobiça.
Já na brincadeira chamada de bandeirinha as meninas brincavam com os meninos--coisa rara naquela arrogante idade de guri.Brincavam dois grupos com igual número de jogadores,separados por uma linha visivelmente demarcada.Cada lado tinha a sua bandeirinha fincada em seu domínio, e o objetivo do jogo era pegar a bandeirinha do lado oposto sem que alguém tocasse o atacante.Como valia tocar com qualquer parte do corpo,às vezes enfiávamos uma perna entre as do adversário, fazendo-o cair(com as meninas, não!). Caso ele fosse tocado,passava para a prisão do grupo adversário e de lá não saia.Ganhava o grupo que fizesse mais prisioneiros.É claro que o lado que possuísse menos jogadores, menor proteção poderia dar à sua bandeirinha. Então,um ataque combinado de vários jogadores ao mesmo tempo quase sempre decidia o jogo.É uma pena que as garotas,depois de crescidas, não queiram mais brincar de bandeirinha com a gente.Algumas eu iria agarrar e somente soltaria quando trovejasse.
Na carniça,os jogadores padecentes ficavam abaixados,como vacas que iam ser montadas por touro reprodutor(brincadeira mais besta,rapaz! ... ), com as mãos apoiadas nas coxas enquanto um outro, deslocando-se sempre rapidamente, pulava o dorso dos padecentes em fila; mas depois tinha que se por na mesma posição,para que os outros pulassem sobre ele. Era um ótimo jogo para quem tinha um desafeto.Quando chegava a nossa hora,descíamos a mão espalmada com toda a força sobre o lombo de nossa vítima,que chegava catar cavaco e dar um gemido a custo abafado E a caixa do peito emitia um ressonante eco de nossa pancada. Se alguém ficou tuberculoso,já sabe o por quê.Esta brincadeira, coadjuvada com o hábito da masturbação, praticada com um dos pés em assoalho frio,eram duas combinações fatais,dizia-se.
Recuso-me terminantemente a chamar a porrinha de jogo do palito.Aliás, purrinha.Não vou nem explicar como era jogada.Era neste jogo que a gente percebia uma grandiosa idiotia nascente.Nem precisava de o sujeito babar nas mãos fechadas estendidas; bastava fazer a pedida e todos abrirem as mãos.Com três jogando,inclusive o pedinte da vez, e o sujeito pedia "9!" e apresentava 2 palitos na mão.
O que seria a travessia de barcas Niterói-Rio, caso não existisse a purrinha?Muitos se lançariam ao piscoso mar, matando-se por afogamento,antes que o tédio lhes desse pior morte!
Dei preferência aos brinquedos coletivos jogados ao ar livre.Jogos como totó,futebol de botão, baralho,tênis de mesa,etc, eram praticados quase sempre dentro de nossas casas ou em outro local fechado.
Devo botar um ponto final neste escrito que já vai longe.Antes,quero deixar um agradecimento fraternal aos camaradas com os quais passei tantas horas agradáveis.Qualquer coisa nos divertia,pois a alegre chama da vida brilhava com toda a sua pujança dentro de nós, sem que dela nos envergonhássemos, e nenhum sentimento de ridículo víamos em ocupações tão inocentes(algumas, nem tanto ... ): pular da beira do quintal do Sr.Gastão num monte de terra na ladeira,chapinhar na lama do cemitério depois de uma grande chuva,implicar com a Cascuda e ver quem escapava das pedras que ela jogava,cortar abóboras imitando olhos,nariz e boca de gente,botar dentro uma vela acesa e depois deixar em cima do muro do Grupo Escolar,para assustar quem passasse por ali numa noite fechada;amarrar uma grande tira de papel no traseiro de um sujeito,de preferência adulto e de porte majestoso, e vê-lo exibir um rabão pela cidade.Jogar bola dentro do pátio do Grupo Escolar com água nas canelas.Como tudo isto era bom...

Era bom espetar a bunda da tanajura num pauzinho de ponta fina e vê-la bater asas mas não poder levantar vôo.
Era bom ver filme no Cine São José e voltar para casa discutindo as melhores cenas,enquanto atravessávamos o caminho escuro e eivado de raízes protuberantes das antigas árvores infestadas de lacerdinhas—a metade do caminho entre o Grupo Escolar e a Igreja.Quando o filme era de terror,os troncos retorcidos das árvores pareciam garras e membros de vampiros,lobisomens,criaturas aterradoras.
Era bom construir uma barragem de terra na beirada da calçada pra tentar conter o aguaceiro das pesadas chuvas de verão...
Era bom subir nas goiabeiras e comer tantas de ficar entupido e ter que levar bomba de lavagem pelo rabo...
Era bom,próximo às festas de Calçado,quando a cidade era fria,estar debaixo do cobertor a pensar no que havíamos feito e no que planejávamos fazer.
Era bom assistir aos seriados de tv: Bat Masterson,Bonanza,0 Homem de Virgínia,Perdidos no Espaço,O Fugitivo,Flipper...
Era bom ter uma carretilha com muitos metros de linha e soltar uma pipa que depois mal enxergássemos, de tão longe que estava, embora pelo peso da linha soubéssemos que ela estava firme no alto.
Era bom pegar pequenos tomates, passar sal neles e comê-los ali no pé.
Era bom pescar muitos lambaris e depois comê-los com arroz e feijão.
Era bom jogar uma pelada debaixo de chuva--aliás, era sempre bom jogar uma pelada.
Era bom criar um bicho-de-pé e coçá-lo debaixo do cobertor.
Era bom soltar um pião com tanta perícia que o disgramado parecia que não ia voltar de seu "sono"...
Como era boa a Calçado de nossa infância,que nunca mais vai voltar...

Teresópolis,30 de novembro de 2006.


Carlos Rezende

 



 

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