Como teriam descoberto novamente o esconderijo, se agora era
apenas um sonho mau, um pesadelo?
A
mãe improvisava uma fritura desagradável e malcheirosa
num canto do sótão. A irmã mais velha contemplava,
pelos buracos de uma falsa rosácea na fachada do prédio,
a pesada solidão da rua, como uma dádiva. Lá
fora, pensou um instante — com toda a certeza ela pensou
nisso —, não havia ainda alvoroço entre
os cães famintos, não sentia ainda o frio na medula
que lhe causava o alvoroço dos cães.
Quanto
a ele, pirralho esperto, perambulava pela cidade ocupada, procurando
lenha e comida que pudesse trazer às escondidas numa
velha manta, atento aos guerreiros de farda e aos civis em farrapos,
que perseguiam as crianças para lhes roubarem o fruto
de suas expedições diuturnas.
O
gueto ardia.
De
volta a casa, reconheceu, entre os mortos espalhados pelo chão
da calçada, vizinhos e companheiros de folguedos, moleques
da sua idade. Próximo dali, reconheceu também
uma porta arrancada de seus gonzos. E fios ruivos de cabelo,
muitos fios ruivos e castanhos de cabelo nos degraus da escada
furtiva.
O
coração disparou, lágrimas quentes vieram-lhe
aos olhos.
Tarde
demais.
Não
viu quando as levaram para serem lançadas ao vento, não
viu nada.
Lançar ao vento, a imagem que restara no fundo de sua
última concessão à divindade, desde aquela
tarde até ontem, toda uma vida em exílio e cruel
retrospecto, numa dupla dimensão de orgulho ferido e
errância à volta de si mesmo. Tomando coragem,
sempre tomando coragem. Ou se deixando tomar por algo que chamou
de destino, contra os profetas.
Quando
lançou-se ao vento, por sua vez, levava consigo muitas
palavras incrustadas num único tormento, em puro desamparo.
O que sonhava agora, entre o décimo andar e o asfalto
atarantado, eram outras palavras, outros tempos, uma saudade
descabida. Em toda a sua vida, só esse instante de luz,
um fiapo de sol faiscando entre os prédios.
Luiz Gerra
lyguerr@gmail.com
Luiz Guerra, 58, cronista e poeta carioca, colaborador semanal
da Agência Carta Maior.