Entre outros, há principalmente dois casos de interesse,
o do Zepelim, e o do carro de cabrito.
O do Zepelim é o mais simples. Seu Zeca não gostava
de futebol e recomendava muita cautela aos garotos, tinha preocupação,
um esporte violento, podiam se machucar. Num treino tudo bem,
porém numa partida inteira, para valer, disputada na
raça e no pontapé, chutes na canela, não
convinham se arriscar. Não chegavam a ser uma ordem,
mas aquelas recomendações, preocupações,
temores, no fundo funcionavam mesmo como uma proibição.
Apaixonado pelo futebol e pelas peladas, ele, Walter, estava
num dilema. Contrariar o velho ou contrariar a si mesmo, abrindo
mão daqueles prazeres que o esporte propiciava? Terminou
encontrando uma solução intermediária,
acomodatícia, que no fundo nada mais era mesmo do que
ludibriar o pai, deixando-o tranqüilo e despreocupado.
Trocou as chuteiras, que chamavam muito atenção
e eram a principal causa dos temores, por um par de sapatos
reforçados, em que mandou colocar algumas travas. Problema
parcialmente resolvido. O outro golpe foi convencer o pessoal
de esportes do jornal A Ordem a não colocar mais seu
nome verdadeiro no jornal quando jogassem os juvenis. Em vez
de Walter, que colocassem Zepelim, um apelido lá do campo.
Seu Zeca lendo os esportes, o que não era muito provável,
nada notaria de anormal, já que nem sonhava quem seria
aquele tal de Zepelim. Funcionou...
O caso dos cabritos é o mais elaborado.
Os cabritos eram uma beleza, a junta de guia, formada pelo Diamante
e o Boneco, comportados, imponentes, parecendo que tinham noção
de sua importância, iam na frente, como que numa espécie
de desfile pelas ruas de Calçado, puxando o carro que
vinha mais atrás. Quatro juntas. Todo mundo parava para
ver, olhava e ficava admirando. Dava gosto.
O carro era perfeito, uma miniatura de carro de boi, tinha sido
feito por um especialista, o melhor construtor de carros de
bois da região, seu Waldemar Charpinel, irmão
do seu Nilson. Tinha tudo que um carro de verdade devia ter,
a mesa, o cabeçalho, as rodas ferradas com aros de ferro,
o eixo de pau roxinho, que era o mais apropriado pela sua dureza,
os fueiros, a esteira de taquara trançada, os cocões,
os machões, os encaixes do eixo, que deviam ser lambuzados
de azeite de mamona para que o carro rodasse mais macio e produzisse
o canto mais bonito. As cangas e as correntes perfeitas, bem
trabalhadas, lindas miniaturas. Tudo isso com ele de carreiro,
muito magrelo, que ia acompanhando, comandando, tangendo o grupo,
fingindo que ia bater nos cabritos, orgulhoso de sua propriedade.
Na frente de ajudante, o candeeiro, o irmão mais novo,
o Eliezer. Faziam um carreto aqui, outro ali, um saco de farinha
para entregar no seu Cruz, uma lenha para o doutor Astolfo,
um saco de arroz para o Chico Vieira. Tudo mais na brincadeira
do que de verdade, ganhando apenas às vezes uns trocados.
O Pombinho era branco, o maior dos cabritos, foi o que mais
saudades deixou, mansinho, trabalhava na junta de coice. Bastava
aproximá-lo do carro para que procurasse o seu lugar,
abaixando o pescoço para que lhe pusessem a canga.
O boneco, da junta de guia, era outro um primor, mas parece
que tinha qualquer coisa contra o Eliezer, uma espécie
de birra ou implicância. Toda vez que este se aproximava
dele, descuidado, levava uma mijada nas pernas. Isso só
parou quando seu Zeca resolveu castrá-lo, o cabrito é
claro. Por que será?
Uma coisa que não merece perdão é não
ter tirado uma fotografia desse carro de cabritos para ficar
de lembrança, foi lamentável. Não dá
para entender, ainda mais que o Sargento Protásio, instrutor
do Tiro de Guerra, doido pelos cabritos, tinha se prontificado
e insistido “Walter passa lá que eu quero tirar
um retrato desse carro de cabrito”. Foi lamentável.
Além desse carro do Walter, em Calçado tinha mais
dois, um do Sinhozinho Cazuza, que não sei se era cabrito
ou carneiro, e o do Zuza, um pretinho filho do Grilo. Entretanto
os carros deles não eram tão caprichados, funcionavam
bem, mas meio grosseiros, um tanto rudimentares. Diferente do
Walter, eles eram mais profissionais, trabalhavam a sério
e ganhavam uns bons trocados fazendo seus carretos.
Ao contrário do que se podia imaginar, entre os três,
Walter, Sinhozinho e Zuza, nunca houve qualquer disputa, nenhuma
inveja, nenhuma concorrência, ao contrário eram
amigos e se confabulavam como profissionais do mesmo ramo e
colegas de profissão. Todos eram orgulhosos de seus carros
e chegaram mesmo a fazer um pacto. Quando partissem dessa vida
e fossem para o Céu, iriam levar consigo seus carros
de cabritos e esperar lá em cima pelos outros. Por isso,
seu Walter de vez em quando, passados mais de 75 anos, comenta
“Será que o Sinhozinho mais o Zuza estão
lá mesmo me esperando? O problema acho que vai ser levar
os cabritos, pois cabrito não têm alma”.
João Hertesi
