Das estórias de seu Walter Mendonça: Continuação. Parte 05 - Da adolescência em Calçado, o Zepelim, e o carro de cabrito…



Entre outros, há principalmente dois casos de interesse, o do Zepelim, e o do carro de cabrito.
O do Zepelim é o mais simples. Seu Zeca não gostava de futebol e recomendava muita cautela aos garotos, tinha preocupação, um esporte violento, podiam se machucar. Num treino tudo bem, porém numa partida inteira, para valer, disputada na raça e no pontapé, chutes na canela, não convinham se arriscar. Não chegavam a ser uma ordem, mas aquelas recomendações, preocupações, temores, no fundo funcionavam mesmo como uma proibição.

Apaixonado pelo futebol e pelas peladas, ele, Walter, estava num dilema. Contrariar o velho ou contrariar a si mesmo, abrindo mão daqueles prazeres que o esporte propiciava? Terminou encontrando uma solução intermediária, acomodatícia, que no fundo nada mais era mesmo do que ludibriar o pai, deixando-o tranqüilo e despreocupado. Trocou as chuteiras, que chamavam muito atenção e eram a principal causa dos temores, por um par de sapatos reforçados, em que mandou colocar algumas travas. Problema parcialmente resolvido. O outro golpe foi convencer o pessoal de esportes do jornal A Ordem a não colocar mais seu nome verdadeiro no jornal quando jogassem os juvenis. Em vez de Walter, que colocassem Zepelim, um apelido lá do campo. Seu Zeca lendo os esportes, o que não era muito provável, nada notaria de anormal, já que nem sonhava quem seria aquele tal de Zepelim. Funcionou...

O caso dos cabritos é o mais elaborado.

Os cabritos eram uma beleza, a junta de guia, formada pelo Diamante e o Boneco, comportados, imponentes, parecendo que tinham noção de sua importância, iam na frente, como que numa espécie de desfile pelas ruas de Calçado, puxando o carro que vinha mais atrás. Quatro juntas. Todo mundo parava para ver, olhava e ficava admirando. Dava gosto.

O carro era perfeito, uma miniatura de carro de boi, tinha sido feito por um especialista, o melhor construtor de carros de bois da região, seu Waldemar Charpinel, irmão do seu Nilson. Tinha tudo que um carro de verdade devia ter, a mesa, o cabeçalho, as rodas ferradas com aros de ferro, o eixo de pau roxinho, que era o mais apropriado pela sua dureza, os fueiros, a esteira de taquara trançada, os cocões, os machões, os encaixes do eixo, que deviam ser lambuzados de azeite de mamona para que o carro rodasse mais macio e produzisse o canto mais bonito. As cangas e as correntes perfeitas, bem trabalhadas, lindas miniaturas. Tudo isso com ele de carreiro, muito magrelo, que ia acompanhando, comandando, tangendo o grupo, fingindo que ia bater nos cabritos, orgulhoso de sua propriedade. Na frente de ajudante, o candeeiro, o irmão mais novo, o Eliezer. Faziam um carreto aqui, outro ali, um saco de farinha para entregar no seu Cruz, uma lenha para o doutor Astolfo, um saco de arroz para o Chico Vieira. Tudo mais na brincadeira do que de verdade, ganhando apenas às vezes uns trocados.

O Pombinho era branco, o maior dos cabritos, foi o que mais saudades deixou, mansinho, trabalhava na junta de coice. Bastava aproximá-lo do carro para que procurasse o seu lugar, abaixando o pescoço para que lhe pusessem a canga.

O boneco, da junta de guia, era outro um primor, mas parece que tinha qualquer coisa contra o Eliezer, uma espécie de birra ou implicância. Toda vez que este se aproximava dele, descuidado, levava uma mijada nas pernas. Isso só parou quando seu Zeca resolveu castrá-lo, o cabrito é claro. Por que será?

Uma coisa que não merece perdão é não ter tirado uma fotografia desse carro de cabritos para ficar de lembrança, foi lamentável. Não dá para entender, ainda mais que o Sargento Protásio, instrutor do Tiro de Guerra, doido pelos cabritos, tinha se prontificado e insistido “Walter passa lá que eu quero tirar um retrato desse carro de cabrito”. Foi lamentável.

Além desse carro do Walter, em Calçado tinha mais dois, um do Sinhozinho Cazuza, que não sei se era cabrito ou carneiro, e o do Zuza, um pretinho filho do Grilo. Entretanto os carros deles não eram tão caprichados, funcionavam bem, mas meio grosseiros, um tanto rudimentares. Diferente do Walter, eles eram mais profissionais, trabalhavam a sério e ganhavam uns bons trocados fazendo seus carretos.

Ao contrário do que se podia imaginar, entre os três, Walter, Sinhozinho e Zuza, nunca houve qualquer disputa, nenhuma inveja, nenhuma concorrência, ao contrário eram amigos e se confabulavam como profissionais do mesmo ramo e colegas de profissão. Todos eram orgulhosos de seus carros e chegaram mesmo a fazer um pacto. Quando partissem dessa vida e fossem para o Céu, iriam levar consigo seus carros de cabritos e esperar lá em cima pelos outros. Por isso, seu Walter de vez em quando, passados mais de 75 anos, comenta “Será que o Sinhozinho mais o Zuza estão lá mesmo me esperando? O problema acho que vai ser levar os cabritos, pois cabrito não têm alma”.


João Hertesi

 



 

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