Em 1930, quando o Banco de Calçado foi fundado, ele tinha
17 anos e foi contratado como contínuo. Eram três
os funcionários: o Gerente que era o Pedro Vieira; o
Contador que era o seu Moacir Garcia; e ele Walter, como contínuo
e encarregado de todos os outros serviços.
Entre suas principais atribuições, no princípio,
abrir e fechar o Banco, controlar o recebimento e expedição
das correspondências, serviço de garoto de recados
e auxiliar geral, fora varrer as salas, espanar os móveis,
e higienizar as escarradeiras.
Sobre estas últimas acho que vale a pena algum comentário,
já que hoje em dia não as temos mais, ficaram
obsoletas e caíram em desuso, e para conhecê-las
só visitando um museu. No Banco havia duas, uma na gerência,
outra na sala de espera dos clientes. Utensílios de grande
utilidade, destinados a recolher as cusparadas dos homens daquele
tempo, fumadores de cigarros de palha e fumo de rolo, senhores
importantes, circunspetos, de ternos de gabardini de brim cáqui,
gravata preta, chapéu de feltro e botinas reiúnas,
daquelas de elástico, donos do dinheiro e das propriedades.
Sentavam-se em confortáveis poltronas para os papos de
amizade ou de negócios, e de vez em quando um raspar
de garganta e uma cusparada na escarradeira. Convém lembrar
que no principio não havia água encanada nas casas
e muito menos pias e banheiros. Feitas de metal, cobre ou bronze,
as escarradeiras tinham deles a cor e eram bem pesadas. A parte
de baixo, na forma de um cilindro, mais ou menos cinco centímetros
de altura, funcionava como depósito para receber os cuspos
densos e gosmentos, de cor amarelada e grudentos, que vinham
de cima. A parte superior, uma espécie de prato ou funil
chato, com pescoço, um orifício no meio, apoiado
sobre a outra, onde as pessoas cuspiam. Lavá-las era
um trabalho assaz desagradável, acrescido do fato de
que normalmente era necessário uma limpeza caprichada
no assoalho em volta, pois não raro os clientes erravam
a pontaria nas cusparadas e emporcalhavam o chão.
Não demorou muito e ele, Walter, por sua dedicação
e interesse no serviço, foi aprendendo outros trabalhos
e dominando praticamente quase todos os serviços no Banco.
Com isso, em pouco tempo, deixou as vassouras, espanadores e
as escarradeiras para outro elemento novo, recém contratado
e passou para o serviço de caixa, responsável
pelo cofre e lidando com todo o dinheiro que circulava pelo
Banco.
Há alguns episódios que ficaram marcados.
Por exemplo, o caso do seu Custódio Moreira, por sinal
um homem que tinha várias filhas, todas moças
bonitas. Seu Custódio costumava vir de sua fazenda já
quase de noitinha, depois que o Banco estava fechado e ia lá
na casa do Walter pedir um favor, queria que ele voltasse ao
Banco, estava precisando de um dinheiro. A desculpa sempre a
mesma, muito serviço na fazenda, tinha que pagar os empregados,
etc. e tal. Uma rotina o seu Custódio, toda semana, quinta
ou sexta, cinco e pouco da tarde, seis horas, ouvia palmas na
porta, ia ver e era ele, ainda montado na sua mula rosada. Não
podia negar, além de bom cliente no Banco, era um senhor
educado, de respeito, gozava de muito conceito na cidade. Paciência.
Tem também o caso do Zé Gregório.
O Zé Gregório, um sujeito meio metido a valentão,
costumava carregar um revolver grande, cano longo, grosso calibre,
trabalhava como encanador na Prefeitura e era o responsável
pela manutenção da rede de água. Casado,
morava na parte dos fundos do prédio onde na frente era
o Banco. Um prédio que ficava na esquina da praça
Governador Bley com a Rua 15 de Novembro, onde depois foi a
venda do Simim. Apesar de não ser um indivíduo
simpático, Dr. Pedro Vieira o contratou para vigia noturno
do Banco, já que morava tão próximo e tinha
fama de corajoso. Havia um buraco na sua sala que dava para
ver dentro do Banco, assim por ali ele vigiava..O Walter nunca
confiou muito nele, achava-o meio estranho e arrogante.
Um dia de madrugada o Rafaelzinho, o jardineiro da prefeitura,
bateu na casa da dona Chiquinha, onde Walter andava dormindo
para fazer companhia à avó. “Walter, oh
Walter!”! Levantou e foi atender. “O que foi Rafael?”
“Foi o Zé Gregório, pediu para você
ir lá no Banco, parece que tem um ladrão, ele
ouviu um barulho”. Essa não, pensou, de noite ir
ao Banco e ficar lá sozinho com o Zé Gregório,
de jeito nenhum. “Rafael, fala pro Zé que não
vou poder ir lá agora não, a vovó não
pode ficar sozinha, tio Zinho não gosta, de manhã
cedo vou lá ver”. Pouco depois bate o Rafael de
novo “Walter o homem está impaciente, disse para
você ir lá, ouviu de novo um barulho e tem uma
luz acessa”. “Não Rafael, diz pra ele que
só amanhã cedo, a luz fui eu quem deixei”.
De manhãzinha, foi até lá junto com mais
algumas pessoas. Achou o homem esperando, inquieto, com cara
meio estranha, olho arregalado. “Oh Walter! Poxa rapaiz,
você me deixou aqui acordado a noite toda, mas acho que
o ladrão tá lá dentro, tá seguro,
fiquei aqui na porta o tempo todo e não arredei pé”.
Abriram a porta e o Zé Gregório, como xerife nos
faroestes, brabo entrou na frente para pegar o ladrão,
revolver em punho, cara de mau, corajoso, coitado do assaltante.
Mas cadê ladrão, revistou os cômodos, olhou
no banheiro, atrás das porta, debaixo das mesas, dentro
dos armários, vasculhou tudo. “É, deve ter
sido algum gato atrás de rato que entrou e saiu pelo
buraco da janela”.
Nunca saiu da cabeça do Walter que o Zé Gregório
estava mal intencionado. Queria era pegá-lo sozinho no
Banco, meter-lhe o revolver na cara e exigir que abrisse o cofre.
Inclusive, para corroborar essa desconfiança, logo depois
ele fez um papelão em Calçado e teve que fugir
da cidade, para nunca mais voltar.
João Hertesi
