1. Das preliminares em Calçado
Vieira na cabeça, sempre foi dos Vieira, tinha que ser,
não votava mas torcia, o pai era deles, os irmãos
também, duas irmãs até eram casadas na
família, e foi criado por elas. De forma que cresceu
ouvindo falar de política e dos líderes políticos,
doutor Pedro Vieira, cidadão insigne, doutor Aristides,
o melhor médico, a melhor pessoa do mundo, seu Zezé,
outro de grande valor, seu Cruz, seu Nilson, assim como outros,
correligionários e amigos, muitos outros, todos gente
boa, merecedores de confiança. Por outro lado, quanto
ao pessoal das oposições, o contrário,
estes não prestavam. Não que fossem ladrões
escrachados, como se vê hoje em dia, tão comum,
não, não se tratava disso, mas eram ruins, maus.
Quando assumiam o poder eram capazes de fazer maldades, perseguir
os adversários, principalmente aqueles mais vulneráveis,
como por exemplo os funcionários públicos sem
estabilidade, sujeitos a demissões, as professorinhas,
que podiam ser removidas para escolas distantes, na roça,
etc., etc.. Junto a esses atributos negativos, ouvidos das conversas
dos adultos, é claro, havia outros, acrescentados pela
imaginação fértil de um menino de dez anos,
cuidado com eles, essa gente é ruim, não presta,
são maus, traiçoeiros. Será que também
judiam com crianças? Não se sabe, não sei,
nunca ouvi falar, mas não convém facilitar.
Em Calçado havia três grupos políticos:
o dos Vieira, donos da política local desde o fim da
ditadura do Getúlio; o dos Lobo, que ultimamente andavam
meio por baixo, se confrontados aos velhos tempos; e o do Thiebaut
que, se não há engano, surgiu de uma dissidência
dos Vieira. Cada grupo era forte em determinados redutos. Os
Vieira dominavam no distrito da sede e no de Airituba, os Lobo,
em Bom Jesus do Norte, que na época pertencia a Calçado
e o pessoal do Thiebaut predominante no distrito de São
Benedito.
Idos e benditos tempos, quando Calçado chegou a eleger
dois deputados estaduais: o doutor Pedro Vieira, do Partido
Republicano, aliado a um grande político capixaba, doutor
Atílio Vivácqua, oposição ao governo
estadual e o Filim Thiebaut, que fundou em Calçado o
PSD, Partido Social Democrata, o partido mais importante da
República, a que pertenciam também os homens de
Vitória, doutores Carlos Lindemberg e Jones dos Santos
Neves. Pelo que se recorda, durante um bom tempo, estes dois
foram os verdadeiros caciques capixabas, donos do estado, e
se alternavam como governador. Filim Thiebaut era o aliado deles
e manobrava em Calçado os cargos que dependiam do governo
estadual (delegacia de polícia, diretor do grupo escolar,
posto de saúde, outros postos que não se lembra,
etc..).
Quando deputado, o Thiebaut tinha um carrão importado,
na época só havia carro importado, mas o dele
era um carrão, um Dodge Azul, que ficava estacionado
em frente a sua casa, na Praça Teófilo Lobo. Se
o carro não estivesse lá, quase certo que o homem
tinha ido a Vitória, para reunião da Assembléia,
a fim de defender os interesses do município (será?
a gente da oposição, com má vontade, duvidava).
Ele tinha um motorista, sempre visto no volante do carro, o
Sodré, outro também, seu correligionário,
que não contava com a nossa boa vontade (sujeito antipático
o Sodré, no volante daquele carrão!). Estranhamente,
cabe lembrar que o motorista depois ficou até simpático,
quando largou o serviço do Thiebaut e foi trabalhar para
o Dr. Pedro Vieira, sendo visto ora no volante de um ônibus,
ora no Austin da dona Mercês. (Sujeito simpático
o Sodré).
Muito cismado, como pode-se imaginar, evitava passar pela calçada
do nosso deputado, principalmente quando havia alguém
na janela. Cruzava a rua e seguia pelo outro lado, no jardim.
Entretanto, não escapava de um abacaxi, uma obrigação
meio ingrata, todo mês tinha que levar uns papéis
para ele dar visto, uma escrita de professora, encomenda da
irmã. O homem era também “Delegado do Ensino”
e tinha que visar as escritas das professoras da roça,
para que elas pudessem receber seus ordenados. Por felicidade,
quase sempre, quem atendia na porta era a empregada. Deixava
com ela os papéis para pegar depois.
2. Das andanças no Rio de Janeiro
Meados da década dos anos cinqüenta. O tempo passou
e, como sina de todo calçadense que terminava os estudos
no Colégio, tinha que ir embora. No caso, destino para
o Rio de Janeiro, Tijuca, casa de parente. Conhecer a cidade,
andar sozinho naquela confusão, o primeiro desafio. Foi
o que se fez nos primeiros meses, enquanto aguardava oportunidade
para continuidade das providências. Conhecer o Rio, não
apenas o centro, mas outros bairros mais distantes, passou a
fazer parte da rotina.
A Praça Saens Peña, a dos cinemas, dos bondes
cruzando sem parar, chocalhando e soltando faíscas, de
um montão de carros, ônibus e lotações,
fumaça preta dos escapamentos, ótimo ponto de
partida. Uma idéia, que talvez seja de muita gente, usar
a praça como primeira referência. Toma-se o Bonde
da Tijuca, no sentido da cidade, para ir até ao final
e, sem saltar, retornar, parando na praça de novo. Assim,
baratinho, cinqüenta centavos, centavos de cruzeiro, ia-se
entrando na intimidade de logradouros de nomes conhecidos, e
relacionando cada um com o seu: a Praça, uma simpatia,
com seus cinemas, O Metro, o Tijuca, O Carioca e o América,
do outro lado O Olinda, enorme, um paredão de frontispício,
sem ar condicionado, mas muito freqüentado.
O Bonde vinha pela rua Conde de Bonfim, lá dos Altos
da Tijuca, seguia Haddock Lobo, Frei Caneca, Estácio
de Sá, passava nos fundos do Campo de Santana, em frente
ao Corpo de Bombeiros, Praça Tiradentes, Rua da Carioca
e Assembléia. Muita coisa para observar e guardar na
memória. No início da Assembléia avistava
o relógio do Largo da Carioca, era uma referência
importante. Se não visse o relógio e passasse
direto não tinha problema, logo na frente era a Praça
15, o bonde a contornava, parando em frente ao porto das barcas
e voltava pela Sete de Setembro.
Nas vezes que se seguiram à primeira, com mais desembaraço,
já descia em alguma parada do bonde, fazia o reconhecimento
do entorno e tomava o próximo para voltar,completando
o circuito.
Um exercício muito interessante para quem tem tempo:
observar o povão, infinidade de caras, mil formas, um
milhão de formas, vários milhões de formas.
Ele, Deus, não repete, é pródigo, todo
mundo diferente. Reparando as pessoas na rua, ainda mais naquela
multidão, cada cara uma cara, ninguém igual, nenhuma
conhecida, caras de problemas e de apreensão, ninguém
de Calçado, os calçadenses parecem que não
vêm ao Rio, ou se vêm, ficam perdidos no meio daquela
gente. Da inicial observação das caras diferentes
e preocupadas, passou-se a procurar uma conhecida. Então,
após um bom tempo, vieram as recompensas pela pertinácia,
em três ocasiões.
A primeira foi um garçom que não era de Calçado
mas passou uns tempos lá, com certeza parente de alguém,
nunca soube seu nome, mas era um indivíduo simpático.
Viram-se no Largo da Carioca, o rapaz estava no restaurante,
vestido de branco, arrumando umas mesas. Foi muita satisfação
de ambos, “olá, você por aqui, que surpresa,
quanto tempo, hem, tem ido a Calçado, etc. etc.?.”,
“Não, já faz algum tempo que voltei para
o Rio, gostei de lá, terra boa, mas não deu, sou
daqui, voltei”. “Eu também estou morando
aqui agora”. Conversaram uns dez minutos, até que
o assunto esgotou, continuou sem saber o nome dele, ficou com
vergonha de perguntar.
A segunda foi o Eliezer. Não, não o nosso prefeito
não, cujo nome era paroxítona, este ao contrário,
era oxítona, sílaba tônica no “zer”
final. O Eliezer também era de fora, mas morou em Calçado
um bom tempo, trabalhando de auxiliar de padeiro do Chico 40,
uma padaria na rua do canto. Ele foi popular em Calçado,
pois era bonzinho de bola e jogava de alfo esquerdo do Americano,
e tinha como característica, que o diferenciava dos outros,
as chuteiras marrons, enquanto as dos demais jogadores eram
normalmente pretas. Encontraram-se no Largo de São Francisco,
no ponto do bonde, em frente à Escola Nacional de Engenharia.
Este foi um encontro de amigos, já se conheciam bem e
foi uma satisfação, conversaram bastante, lembraram
dos tempos, falaram dos conhecidos, e outros assuntos.
A terceira? Bem... Foi a mais importante e motivou esta escrita.
Na entrada do cinema Carioca na Praça Saens Peña.
Como de rotina, tinha descido do bonde e parou para olhar os
reclames dos filmes em cartaz. O Carioca era um dos cinemas
mais importantes do Rio, novo na época, passava ótimos
filmes.
Quando menos se espera, olha e vê uma fisionomia conhecida,
também em frente a um dos cartazes de filmes, observando-os.
O Filim Thiebaut, baixinho, moreno, meio calvo e meio gordo,
bochechas salientes, aquele mesmo lá de Calçado,
ex-deputado estadual, dono do Dodge azul. E agora, que fazer?
Disfarçar e fingir não vê-lo, sair de fininho?
Hem? Não, não deu tempo, o homem já o vira
e se aproximava, um largo sorriso, um abraço de amigo,
e se iniciou um papo de velhos conhecidos, amigões lá
da terra querida. Um bom sujeito o Thiebaut, nenhum bicho papão.
Vila
Velha, outubro de 2007
João Hertesi
