ELES SÃO OUROS



Uma a tranqüilidade e a mansidão da mais bucólica paisagem interiorana. Outra explosiva, incontida e agitada tempestade tropical. No entanto, eles se completam, e se multiplicaram com filhos e netos e, caminham na mesma direção há anos, apesar das encruzilhadas, percalços e armadilhas mundanas, que por muitas vezes fizeram esta dupla se dividir: sofrer e chorar. Coisas da vida, uma estrada sem fim. Vida de privações e lutas pelo pão, pela dignidade e pelo crescimento da família.

Ele descansado, não no sentido da pouca afeição ao trabalho, muito pelo contrário, com o seu suor ergueu muitas moradas, dando sustentação para formação harmônica de uma família de sete filhos. Com um coração de rara bondade dividiu se em muitos e ajudou quem lhe procurava, trabalhando de sol a sol em troca da satisfação alheia, sem se importar com o retorno financeiro.

Ela guerreira, esquecia da enfermidade que a persegue desde os doze anos e partia para a luta com todas suas forças, ora nos afazeres domésticos, cuidando e dando conta de sete filhos, ora sentada em frente à máquina de costura com pernas doridas, até altas horas para completar apertado orçamento.

Este encontro não foi nada fácil. Entre idas e vindas somaram se oito anos de incertezas e provações. Quando o namoro estava normal, já com o consentimento do Pai Velho e Mãe Velha, (os pais da noiva) apesar de inúmeras ressalvas quanto ao noivo, este sumia.

Era só ela terminar que ele não saída de sua casa. Estranho são as relações humanas, estranhíssimo o comportamento dele. Para entender esta junção entre Lili Valim e Tiana Ribeiro somente o amor. Talvez os sobrenomes - Valim e Ribeiro expliquem esta união tão heterogênica. Pensando bem, é o amor. E o amor não tem explicação.

Com a benção de São José, o do Calçado, carpinteiro de oficio como o noivo, finalmen te deu-se o enlace. Numa noite fria de maio, precisamente no dia 05 de 1957, Padre Amando realizou a cerimônia, tendo como testemunhas a cidade de Calçado. Enfim, depois de oito anos de namoro, Tiana, consegue levar o Lili Valim ao altar. Segundo a lenda, não foi nada fácil.

É o começo da historia que faz agora em maio 50 anos de tortuosa e feliz união. Foram inúmeras tempestades. Foram noites e dias sem fim. Cada ano um filho, e foram sete. Com estes, muitos caminhos foram desbravados. Houve dezenas de moradas. Começou pelo Córrego da Areia, passou pela Serra do Tardem entre outras e finalmente a cidade de Calçado.

Ela com temperamento dócil porem nervosa, se amparava na fé e na presença das amigas para suportar a solidão e sobreviver do medo incontrolável de tudo: Chuva, ventos, noite, solidão, enquanto Seu Lili procurava chifres na cabeça de cavalo, como dizia Dona Sinhana.

Foram diversas vezes em que sentiu desamparada, enquanto Seu Lili, homem de pouco medo se embrenhava pelos grotões em busca de trabalho e de novas descobertas e dos tais: “chifres na cabeça de cavalo”.

Com ele tudo era permitido. Os filhos foram criados parcialmente presos pelo esforço de Tiana, pois para o Lili as crianças podem e devem fazer tudo que der vontade, sem limites.

Durante anos a fio, a canção mais ouvida em nossa casa era o gemido irritante do amolar do serrote. O atrito da lima e a lâmina do serrote provocavam um som estridente, que penetrava nos ouvidos de maneira contundente, tirando o humor de todos. Menos do Seu Lili. Aliás, Seu Lili, não estava nem ai, seguindo seu destino e já cansado da lida, sentava-se quase diariamente no fim de tarde na cozinha, colocava o serrote sobre a perna estendida e com a lima na mão direita começava a sessão tortura, que se prolongava por horas, enquanto o jantar era preparado pela Tiana.

O pedalar da maquina e o atrito da lima e o serrote, sons que tanto me irritava na infância, hoje me traz saudades e belas recordações. Por que a gente cresce? É a vida!

Parabéns Ilídio Valim de Rezende, Parabéns Sebastiana Margarida Ribeiro, o tempo passou e hoje estamos todos juntos para comemorar esta data tão significativa – 50 anos de casados – Bodas de ouro. Vocês são ouros.


Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
fernandosalglobo@terra.com.br

 



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados