Domingo de Páscoa no Cachambi, a família reunida
para um feijão branco no apartamento de minha irmã
mais velha, que desde os últimos quatro anos não
pára mais de ganhar netos. Este cronista, que não
é pai de ninguém, vem se tornando tio-avô
com uma freqüência assustadora. E já mandaram
avisar que minhas sobrinhas e sobrinhos estão só
começando.
Pela
manhã, para afastar o pesadelo desse baby boom familiar,
resolvo fazer uma caminhada pelo bairro e tomo a direção
da rua José Bonifácio, seguindo depois até
onde ela desemboca na avenida Dom Helder Câmara. Chamava-se
ainda há pouco avenida Suburbana, e muita gente do lugar
e fora dele não dá a menor bola à merecida
homenagem ao nosso cardeal socialista. Um dia desses apanhei
um táxi para São Cristóvão, e o
motorista perguntou na hora: "Pela Suburbana?" Outro
exemplo, este sintomático, é o da Igreja Universal
do Reino de Deus, que em suas chamadas televisivas usa apenas
o nome antigo da avenida para convocar os fiéis à
sua imensa catedral em Del Castilho. Disse-me um pastor que
não há nada contra o ilustre "padre vermelho";
é mais para facilitar o endereço ao pessoal que
vem de longe e pela primeira vez ao templo.
Chegando
ao cruzamento, olho romanticamente à esquerda, na esperança
de visualizar ao menos o fantasma do boteco em que Lima Barreto
(1881-1922), neste mesmo horário, parava todos os dias
para ler os jornais depois do seu "passeio filosófico
e higiênico" pelos arredores; isso em começos
dos anos 1920, quando, recolhido a sua casa em Todos os Santos,
organizava várias coletâneas com as crônicas
que publicara na imprensa carioca. Nessa época a própria
Suburbana era, por sua vez, o novo nome de longo trecho da Estrada
Real de Santa Cruz, por onde "passaram carruagens de reis,
de príncipes e imperadores". Perdeu muito de sua
importância com o advento da estrada de ferro, tornou-se
uma trilha lamacenta, margeada de capinzais, freqüentada
por cabras e porcos, mas não demoraria muito até
que os bondes da Light passassem a utilizá-la como uma
satisfatória via de ligação entre Cascadura
e o largo de São Francisco. Em crônica escrita
três meses antes de sua morte — "De Cascadura
ao Garnier" — pegamos carona com o romancista numa
deliciosa viagem de bonde até o centro da cidade, estranho
itinerário entre esse mundo suburbano ainda quase rural
e o miolo político e econômico da capital da República.
Caio
na real, ando mais um pouco e pego a rua Cachambi, que dá
nome a este pequeno bairro. Na terceira casa de quem sobe morava
a mãe do Moura, revisor de mão cheia e bolso vazio,
que pelo jeito já nasceu dando cambalhota para sobreviver.
Nunca ganhou o suficiente para cuidar da família como
ele sonhava. Moura era um revisor de provas tout court e atinha-se
ao original, ainda quando o considerasse pedregoso ou mal redigido
mesmo. No máximo, alertava o editor: "Isto aqui
está uma zona. Continuo?" O chefe sugeria: "Pode
meter a caneta." Ele não metia. Resmungava com os
colegas: "No cu, pardal!" Achava um absurdo ter de
melhorar o texto dos outros e receber apenas a mixaria de sempre
no fim do mês. Curiosamente, já que falamos em
Lima Barreto, o meu bom amigo também poderia confessar
como o nosso mulato: "A minha alma é de bandido
tímido." Isso diz tudo. Mas a verdade é que
eu nunca mais tive notícias dele.
Mais
adiante, a rua Honório. Tempo para um caldo de cana e
um pastel de queijo nesta famosa concentração
de lojas de móveis, com sua bonita e esperançosa
freguesia de noivos e recém-casados, pagando uma nota
preta pelo nome dos fabricantes. Lembro-me de um sujeito (deu
no jornal) que se especializara em paquerar as noivinhas da
rua Honório. De tempos em tempos, levava uns tabefes
de alguém mais exaltado, mas não se corrigia.
De tanto insistir, consta que chegou a desmanchar um noivado,
casou-se com a garota e sossegou.
Agora
dobro na Coração de Maria, próximo à
praça Avaí, onde moram minhas duas irmãs.
Fechado o círculo deambulatório, meu programa
pelo resto do domingo está devidamente traçado:
feijão branco, futebol à tarde na televisão,
e chocolate, muito chocolate.
Luiz
Gerra
lyguerr@gmail.com
Luiz Guerra, 58, cronista e poeta carioca, colaborador semanal
da Agência Carta Maior.