Gente de Calçado

Mané França

E o Mané foi retirando de seu fordeco a vareta da válvula de comando do repicador,o tucho da válvula que transmitia o fluxo do líquido seminífero,o reparo do cabeçote da bruaca do tubo enviezado anticorruptor,a sempre avariada e lembrada retranca da mola da rebimboca da parafuzeta,o estirador do fecho helicoidal da bitoca do gancho mestre--e foi espalhando tudo na calçada em frente de sua casa.

Seu ano de fabricação era 29,segundo entendedores da matéria.0 fordeco até que tinha uma remotíssima semelhança com os automóveis atuais --- afinal tinha quatro rodas,lugar pra gente se sentar e motor. E como era ele?Vou puxar pela minha memória.

Vamos lá.Digo que ele era azul,tinha quatro portas e assentos duros,se comparados com os de hoje.O câmbio era próximo ao volante,o motor ficava na dianteira e não me recordo se era barulhento ou não,mas sei que seu arrefecimento era feito com água que, para ser posta no radiador, era preciso erguer duas tampas metálicas protetoras, ranhuradas,uma de cada lado,que faziam o papel de capô.Quando acontecia de o motor não pegar,era necessário girar a manícula ou manivela,que era acoplada à ponta duma peça metálica de transmissão de força,a qual era girada manualmente por intermédio da manícula.O pára-brisa era de vidro maciço.Não havia vidro nas laterais;para impedir a entrada de vento,sol e chuva,era preciso abaixar as cortinas espessas que,quando não estavam em uso,ficavam enroladas e presas no alto.Os faróis dianteiros não eram encaixados no pára-lama ou no capô e sim presos a uma barra.Eram uma continuação do estribo e,como ele, resistentes.Tinha velocímetro sim senhor -- e marcava pra mais de 80 quilômetros por hora,salvo engano.

De calça comprida azul,sem camisa,de sapatos,estava debaixo de seu fordeco o Mané, e de quinze em quinze segundos,com raiva,deixava escapar uma enfiada de pragas cabeludas.Suava muito e de vez em quando me pedia que lhe passasse uma ferramenta--.
--Seu filho da p ... Você não nasceu aí,desgraçado,por que não quer sair?Êta parafuso mais filho da p...,e a po ... da porca também não fica atrás!Êta,merda! E amanhã vou ter que levar o pessoal ao cinema --- êta rrrraaio sô,corisco! ---Impacientava-se,o Mané,com o bíblico rilhar de dentes,na perspectiva de não poder cumprir a promessa que havia feito às filhas de as levar ao cinema para ver um filme sobre a criação do mundo cujo título me escapa,em Bom Jesus.E eu estava muito interessado no conserto do carro,já que tinha sido convidado também para aquele excelente programa.
0 cinema de Bom Jesus era muito melhor que o de Calçado,no que dizia respeito ao prédio e equipamentos. Quanto à qualidade dos filmes,até que não havia tanta diferença assim.

Como a mão do Mané me impedisse de ver em qual peça ele estava mexendo,dei uma olhada nele: um pouco acima da média em altura,nem gordo nem magro,mas já com tendência ao implacável crescimento abdominal,cabeça bem feita,pele muito branca naqueles sítios menos sujeitos aos raios de sol,mãos feitas no capricho,não daquele tipo de dedos finos e sim grossos,de um exímio mecânico que tivesse que aplicar em momentos críticos uma bem calculada força muscular; cabelos escuros e levemente ondulados, penteados para trás,um bigode bem administrado,que ele ajeitava com sumo esmero,com os dedos(o que se chama “cofiar o bigode”,em literatura de maior calibre); nariz muito comprido mas impecavelmente bem deli neado,terminado numa ponta fina,como convinha,de resto, a um filho de português.

--Caaaarlusss,Caaarlusss---cantava agora o Mané,alterando meu nome Carlos.Era um bom sinal.Significava que ele tinha descoberto o problema do fordeco e o estava consertando. Quando se levantou,seu semblante estava menos carregado e,talvez pela décima vez naquele dia,me fez a pergunta de praxe:--Já cagou hoje--,que era um modo de cumprimento brincalhão,marca registrada sua,que ele dirigia a mim,a meus primos e a outros moleques com quem tivesse intimidade,e esse costume perdurou por décadas,só desaparecendo nos seus últimos anos de vida--também não era mais pergunta que se fizesse a um chefe de família.

Mané apreciava passarinho.Tinha azulão,trinca-ferro, canário da terra, belga, hamburguês;tinha sabiá laranjeira,coleiro gravatinha e paulistinha, melro,araponga,cardea1, pintassilgo, bicudo -- se deixei de fora algum nome,queira o passarinho me perdoar.Sabia distinguir defeitos nos cantos de todos eles,como um maestro percebe o erro de um violinista na orquestra.Tinha amigos caminhoneiros que lhe traziam passarinhos de longe: da Bahia,de Mato Grosso,do raio que o parta.0 que não era dado era barganhado,com muito "choro" pelo Mané,que tinha certo apego um tanto ou quanto imoderado pelas cédulas de sua carteira(conta-se que um certo dia ele comprou um picolé pro seu afilhado,o Zé Antonio,o Saragaia,mas há divergência de opinião a esse respeito).

E o dia chegou.Era domingo e o fordeco estava nos trinques, brilhando,pronto para nos levar a Bom Jesus.Íamos para a sessão vespertina,com saída marcada para depois do almoço.

Almocei neste dia mais rápido do que de costume.Nem precisou minha mãe implorar.Almocei e fui correndo para a casa da Tia Edissé,que já estava agora a se aprontar.Que me perdoem as filhas da minha saudosa Tia Edissé,mas não me lembro quais as duas dentre elas foram ao cinema naquele dia.Sei que o fordeco comportava cinco pessoas,incluindo o motorista.Pode até ser que as três tivessem ido,já que eu era muito magro e fácil de encaixar num canto ou outro.

Agora,já estamos todos acomodados no fordeco e o Mané vai dar a partida.Que não pegasse de primeira,era tão natural,que ninguém reparava.Mas não pegar na oitava tentativa já era um tanto inquietador.

--Carlos,bunda suja,toma,desce e toca a manícula pra mim,olho do cú sem pestana--falou pra mim o Mané.Saí e encaixei a manícula no devido lugar e girei.Para nossa sorte,o fordeco pegou na primeira "maniculada".Entrei e o Mané pôs o fordeco em movimento. Até que o fordeco andava...
...Já estamos descendo a Volta Fria.A estrada é de terra,mas como o tempo está bom,não foi preciso por correntes nas rodas para elas não deslizarem.

E,nem bem acabamos de descer a Volta Fria,o fordeco começa a dar alguns engasgos alarmantes.E o Mané adverte o fordeco: -- Aaaah,seu filho da puta,mais um pouco que estamos chegando,filho duma égua! Desgraçado!

E a Tia Edissé adverte o Mané: ---Se esse carro der mais um defeito,nunca mais entro nele!E você passou todo o dia de ontem debaixo dele,pra variar.Se não sabe consertar,por que não entrega a um profissional, Manoel?Quê coisa!E não adianta xingar e ficar nervosinho--minhas primas e eu quietos,talvez aflitos com a idéia de perder a sessão de cinema.

Mané estava agora irritado com o fordeco e com a consorte.Não havia quem consertasse aquele fordeco--só ele,Mané França e mais ninguém.Mas o fordeco,que parece até gostar de confusão,sem comando de seu dono,por si próprio,pára mortinho da silva.Mané o xinga de tantos nomes,que até eu reparo que alguns são novos, e os memorizo.

Mané sai e começa a mexer no fordeco.Olha uma coisa,olha outra,coça a cabeça,vai até um arbusto,corta uma haste fininha dele e a enfia no orifício de uma peça. Puxa,assopra,limpa com os dedos, aperta, desaperta, manda tudo tomar naquele lugar,e volta a mexer,até que --eureka!Novamente giro a manícula e o fordeco se põe a andar,um pouco engasgado.Só que nessa brincadeira perdemos um bocado de tempo.

Enfim,entramos triunfalmente em Bom Jesus do Itabapoana,e Mané estaciona o fordeco próximo ao cinema. Entramos,o lanterninha ilumina uma parte das poltronas vazias e nos acomodamos.

De novo o adjetivo “bíblico”.Mas que diabo,era um filme de temática bíblica mesmo.E,mesmo atrasando de modo tão desculpável e francamente digno de todo perdão,Deus não quis saber,não quis esperar pela gente. Resultado: Já tinha feito o mundo,já tinha criado Adão e Eva,já tinha feito os animais da terra,do ar e das águas,já tinha se arrependido de ter feito o homem; e já tinha acabado com ele debaixo de chuva; mas,felizmente,nomeou Noé o salvador da raça humana e de todos os bichos.E quando olhamos pra
tela,Noé,barba branca de 150 anos e pico, mas todo serelepe ainda,estava saindo da sua Arca,que certamente não era tão sujeita a enguiços quanto o fordeco do Mané.Mas também Noé levava uma vantagem --tinha construído a Arca sob a supervisão direta dum Senhor mecânico,nada mais nada menos que Deus.

P.S.: Mané França,para quem não teve a sorte de o conhecer, é o Manoei Augusto Ramos,esposo da Dona Edissé,do Cartório,ambos falecidos.


Solange Medina


Pirralho na faixa dos 11 anos não quer saber de brincar com o belo sexo.Acha humilhante brincar com quem não pode matar bola no peito,com quem não se veste adequadamente--isto é,short e mais nada--com quem não agüenta palmadas nas costas de deixar marca,como é comum quando se brinca de carniça.Se elas insistiam em brincar,dizíamos com desprezo:--Não brinca,que você vai ficar doente do peito!
Mas havia uma exceção--e que exceção!Não vou dizer que brincávamos de carniça com a Solange Medina--eis a exceção--mas que brincávamos de bandeirinha, isso não vou negar.A Solange dava mais vida a toda brincadeira de que participasse.Torcia para os dois lados,e isso acontecendo com ela atuando vigorosamente para um dos lados,batia palmas para nos incentivar--ou tapinhas nos ombros da gente,gritava nossos nomes a plenos pulmões--enfim,era uma capetinha,ou melhor,uma pimentinha,já que fazia arder nossos folguedos e ficava com as maçãs do rosto vermelhas como pimenta malagueta madura.Isso, durante o dia.À noite,às vezes brincávamos com ela também,mas de brincadeiras muito diferentes. Brincadeiras do turno noturno.Aí,então,o comando passava inteiramente para ela.Eram adivinhações,baralho,brincadeiras outras que nem sei como classificar,mas nem por isso piores,culminando com as histórias de assombrações,vampiros, lobisomens, mulas-sem-cabeça e tudo o mais que pudesse manter nossos cabelos em pé—com o calafrio a percorrer nossas espinhas.
De uma coisa estou certo: nem todas as histórias eram dela, mas boa parte ela inventava ali na hora,estudando os nossos medos,os nossos pontos fracos e improvisando de modo hábil e altamente realista.Tanto que eu,que não era dos mais medrosos,às vezes aproveitando um instante em que achava que ninguém pudesse me ver,dava uma olhadela rápida pra trás,a averiguar se tudo estava em seus devidos lugares,se nenhum pedaço de corpo envolto em tecido branco e esvoaçante se aproximara perturbadoramente da gente.Examinava também o grande espaço cimentado--uma espécie de varanda-- Já dentro da casa da Solange,cuja parte final dava para uma escadaria que conduzia ao quintal completamente às escuras e também para a entrada mais interna de sua casa.Era o quintal o ponto que eu achava mais capaz de abrigar as almas penadas.Para complicar tudo ninguém entrava ou saía da casa da Solange de noite.Seu pai,o dentista Dr Celso Medina,o meu dentista, parecia que combinava com a filha de nunca passar por ali quando nós,em frente,sentados na beira da calçada, éramos barbaramente torturados pela sua filha-e gostávamos dessas torturas,tanto que sempre voltávamos a nos reunir. Nunca a Solange se utilizou de recursos baixos,tais como palavrões, insinuações de cunho sexual,torpes explorações de preconceitos e deformidades físicas-até por que ela era mais velha do que a gente e parecia já ter tudo bem formado,tanto espírito quanto físico.E foi aí que me apaixonei por ela.Nunca o disse.Faço essa confissão agora.
Estava saindo de um amor platônico com uma garotinha vesga e que puxava de uma perna.Ela tinha se mudado de Calçado,com a família.Meu coração estava livre e aí me apaixonei pela Solange.
Como a Solange era diferente da garota vesga ... Seu corpo e seu espírito cintilavam de luz.Era a graça em pessoa,tinha um andar voluptuoso,um odor peculiarmente gostoso.Seus cabelos compridos aloirados estavam sempre ondeando,sua voz acariciava a gente e tinha sempre um sorriso nos lábios.Seu nome, já tem um quê de exótico,sem falar que começa por um Sol.Mas nunca ousei me aproximar dela,acho que nunca nos abraçamos,nunca sequer trocamos um aperto de mão--do contrário,sem dúvida,me lembraria.
V


Keath

Nesses tempos em que parece que virou moda falar mal dos americanos,gostaria de lembrar aos calçadenses que já viveu entre nós.(estou me pondo naquela época)um americano que foi muito querido aqui!
por todos.E bem possível que alguém já tenha escrito sobre ele,alguém de memória melhor que a minha e com o dom de narrar melhor desenvolvido que o meu.Como não posso-e acho que também não quero-me desfazer do pouco que retive sobre ele,vou lá tentar relembrar do Keith tal qual ele me pareceu quando eu tinha uns nove anos.
Era para nós impossível não reparar nele.O homem parecia ter sido feito de outro material,muito diferente do nosso.Era muito alto e forte,com tendência a acumular gordura,de rosto muito vermelho,de cabelos não sei se louros ou do tipo "ferrugem" e falava com um sotaque estranhíssimo mas agradável de ouvir.
Logo que Keith tomou um quarto na pensão da Dona Tita,ele foi logo escancarando as janelas, a uns 50 centímetros da calçada de passeio.E não fez segredo de nada-e acho que havia porquê.De imediato,ele próprio,sem nenhum ajudante,começou a lixar as paredes do quarto,emassou onde requeria massa e aguardou não sei quanto
tempo.Em seguida,começou a pintar as paredes,teto,janelas,tudo de azul claro.Ficávamos ali de frente para a janela vendo a atividade do homem que suava feito um cavalo(que ele me desculpe a comparação).E de vez em quando nos perguntava alguma coisa naquela sua estranha língua.O que entendíamos respondíamos com satisfação, porque o sujeito sabia nos agradar e nós queríamos nos apresentar como boas amostras da "raça" calçadense.
Não demorou muito para o Keith aparecer com outra novidade.Um disco de plástico de uns 20 centímetros de diâmetro,com as pontas viradas para baixo,que era lançado ao espaço com um movimento do pulso,como quem atira um bumerangue.Ele o pegava e o lançava tão bem para o alto,que o brinquedo ia parar muito longe.Saíamos a correr para pegá-lo.Claro que não o fazíamos por mera gentileza.No fundo,também queríamos lançar o objeto.E o Keith, naturalmente, nos deixou fazê-lo,depois de nos dar algumas dicas para seu correto manejo.Depois que dominamos a técnica,ele nos ensinou a jogar de um
para outro.Só muito tempo depois,já adulto,é que fui saber que aquele brinquedo fizera muito sucesso entre a garotada dos Estados Unidos e que seu nome era frisbee.
Creio que foi o Keith o responsável pela introdução das galinhas poedeiras de raça em Calçado ou ao menos alguém que incentivou a sua criação.Parece que ele as buscava em Campinas ou em São José dos Campos. Infelizmente é só o que me lembro sobre ele.Gostaria que outra pessoa nos falasse sobre esse norte-americano que se tornou um grande amigo de todos nós.
Gente boa nasce em todo lugar: no Brasil,no Iraque,no Afeganistão,nos Estados Unidos,Japão,em todo lugar deste maravilhoso planeta.


Tio Aristides

E is aí uma figura das mais notáveis que Calçado já possuiu.Se algum dia for escrita a história da cidade e faltar seu nome nela,a obra resultará capenga. Entretanto, não falarei do médico nem do político,pois aqui.me falta conhecimento nesses dois setores da atividade humana. Lembrarei do grande homem através de meus olhos infantis,assim como o fez-e muito bem o fez-o Oscar Rezende,em uma de suas crônicas--"O Menino da Porteira".Já corrigindo,porém,o que há pouco escrevi,não posso deixar de tentar fazer um diagnóstico brincalhão e inócuo,mas que talvez tenha um fundo de verdade.
Para início de conversa,foi pelas mãos do Tio Aristides que meu irmão,o Paulo Legal,e eu viemos ao mundo,em partos levados a bom termo em entrando casa da parturiente.E se o meu não deu tanto trabalho,o de meu irmão no deu um trabalhão a ambos,médico e parturiente.O diabo é que as mulheres baixinhas tem uma queda inexplicável por homens altos.Pois bem,meu irmão teve que ser retirado a poder de fórceps.Fico a pensar nas caretas que meu Tio Aristides deve ter feito durante aquele parto difícil Quando mais tarde minha mãe o comentava comigo,tinha eu que morder a língua para não a censurar com estas palavras que me passavam pela cabeça:"Quem manda a senhora se casar com um homem de quase dois metros,mal chegando a senhora a 1 metro e 60 de altura ... Uma tampinha metida,era o que a senhora
era!".Enfim,também isso pode ser explicado pela teoria da evolução,eminha mãe foi apenas um instrumento cego nas mãos das leis que governam o mundo,
Mas minha mãe tinha uma grande confiança e apreço pelo Tio Aristides.Quando ficávamos doentes,ela mandava logo um portador atrás dele.Acho que ele tinha igual apreço por ela,pois nunca faltava a nenhum dos pedidos e não demorava a aparecer.Quando ele surgia com sua grande maleta marrom e estetoscópio pendente do pescoço,se era eu o paciente,já sentia logo uma grande melhora,pois ele assim que entrava em meu quarto,já vinha fazendo tantas caretas e barulhinhos engraçados,e todos involuntários,é claro,naquela sua voz estranhíssima mas muito agradável e confortadora,que eu tinha que me conter às vezes para não rir.Ia logo pondo o termômetro debaixo do meu braço, e enquanto aguardava o minuto regulamentar,fazia tantas caretas,dava tantos tapinhas na minha perna e outros tantos na mão dele e nas pernas,que eu,muito enfraquecido pela febre,ficava admirado com tamanho dispêndio de energia.Tio Aristides era um médico tão " cuspido e escarrado "(já que tratamos de médico,essa palavra deixa de ser ofensiva,se alguém a achar)para sua profissão,que eu não conseguia vê-lo menino,ou quando o conseguia,ele vinha acompanhado de um estetoscópio que lhe chegava nas canelas e já com os tiques,é claro. Quando visitava a casa de meu Tio,depois de cumprimentar minha boníssima Tia Amélia,esposa do Tio Aristides,e de prosear um pouco com a Maria Amélia,e raramente com meu meu padrinho,o Antonio Luiz,que já morava em Niterói.A Maria Amélia e eu íamos para o quintal,o qual era formado por terra tão ruim e estéril que coisa nenhuma de valor brotava nele.Mas tinha um tesouro para mim.Jogado para um canto havia uma estante velha e imprestável,dentro da qual ficavam amontoadas as revistas médicas que os expositores ambulantes de remédios,essa praga que acompanha os médicos,empurravam para o meu Tio,juntamente com as amostras grátis,que ele repassava para seus pacientes mais pobres.Pois bem.Essas revistas me atraíam tanto quanto a Playboy,pouco mais tarde,mas não tinham uma mulher nua e sim fotografias muito bem feitas de patologias variadas e um texto algo difícil, mas que me deixava empolgado pela sua exatidão científica. Essas revistas contribuíram para meu interesse pela medicina.
Agora tentarei fazer o diagnóstico do meu Tio.
Há dias,lendo o delicioso livro "Um Antropólogo em Marte",do neurologista e escritor Oliver Sacks,encontro,na página 93,a narrativa de um caso médico intitulado "Uma Vida de Cirurgião",a história verídica dum sujeito acometido pela síndrome de Tourette.Eis como o dr Sacks descreve a síndrome:" ... A síndrome de Tourette pode ser reconhecida numa vista de olhos uma vez que se esteja familiarizado com ela;e casos de grunhidos,crispações,caretas,estranhos gestos ... foram registrados por Areteu da Capadócia há quase 2 mil anos".E mais adiante:"A síndrome atinge talvez uma pessoa em míi,e é possível encontrar gente com sintomas -por vezes os mais severos-em praticamente todas as atividades.Há escritores to u rétticos, matemáticos, músicos, atores, assistentes sociais, mecânicos,atletas. "Está claro que o caso estudado pelo escritor e médico é um dos mais graves.O do Tio Aristides era dos mais brandos. I m possível, no entanto,para uma pessoa que o conhecia na intimidade e veja a descrição dessa síndrome,de não fazer uma ligação imediata entre as duas coisas.
Eram tantas as caretas,gestos e expressões do Tio Aristides que fica até difícil descrever todas.De qualquer maneira, vou tentar descrevê-las,ao menos as mais evidentes.
Por exemplo,quando ele estava dirigindo o seu fusca,eu ficava com um frio na barriga.Ele fazia perguntas a gente e ao mesmo tempo mascava a própria língua,jogando-a para um fado e outro da boca,como se estivesse com uma grande bola de chiclete dentro dela,dava puxões violentos com os músculos da face,ora repuxando os cantos da boca,ora franzindo violentamente a testa,o que produzia como efeito o esbugalhar repentino dos olhos.Mas isso não era nada.O pior é que ele,de tantos em tantos minutos,simplesmente tirava as duas mãos do volante e dava cuspidinhas nelas,para em seguida bater palmas estrondosa mente,sem falar que depois ainda usava o volante como se fosse um pandeiro, batendo nele com os dedos polegares somente ou com todos os dez.E enquanto executava toda essa série de contorções e gestos,ainda emitia um som cavo com a garganta ou mesmo abria um pouco os lábios para trautear uma canção que só ele conhecia. Com paremos essas esquisitices do Tio Aristides ao volante com as de um médico também,em cuja companhia o dr Sacks viajou: "Atravessar o país de carro com um amigo touréttico também foi uma experiência memorável,já que jogava violentamente o volante de um lado para o outro,pisava no freio ou no acelerador de repente,ou tirava a chave da ignição em alta velocidade.Mas sempre se certificava de que esses tourettismos eram seguros e nunca sofreu um acidente em dez anos de motorista",pág. 116,anotação 11.
Mas nada disso tem importância afinal e tudo não passou de um mero pretexto para falar sobre o Tio Aristides...
A última vez que o vi,ele estava internado na Casa de Saúde de Cachoeiro de Itapemirim,com câncer e já desenganado pelos colegas.Se já não tinha o rosto alegre que costumava ter,nem por isso deixava de manter a firmeza e bravura de espírito,que devia aconselhar a seus pacientes nas mesmas condições,sem nenhum queixume,apenas com um ou outro quase inaudível gemido,quando sob o acicate da dor atroz.
Minha mãe,que possui poderes psíquicos inexplicáveis pelos canais normais da humana compreensão, diz que ele está muito bem onde está,pois faz aquilo de que gosta: dar alívio e curar os enfermos.

Vevé


Meus pais moravam na praça Governador Bley,numa casa próxima ao Correio,em Calçado.Era uma casa comum,porém sólida,bem dividida,de um único andar,com uma escadaria de alvenaria na parte traseira, que dava para um grande quintal.Na frente,à direita,havia um portão metálico através do qual se chegava também ao quintal,depois de vencido um corredor formado pela casa vizinha e a parede de nossa casa.A entrada principal ficava na outra extremidade,à esquerda.

Na escadaria de que falei,havia,no meio dela,um degrau maior e,debruçando-se na mureta da escada,podia-se ver quem entrava no quintal,a parte dele mais próxima da casa e um grande paiol de madeira,situado a uns cinco metros do último degrau da escada, que fora convertido em moradia para um casal : Josefa e seu marido Vevé.A Josefa,uma negra robusta e trabalhadeira.Fora criada pelos meus avós maternos e o Vevé,um negro forte,pintor dos bons,se amigara com ela e viviam em harmonia—uma certa harmonia,digamos...

0 trabalho da Josefa consistia em executar tarefas domésticas para minha avó e servia ainda como uma auxiliar de minha mãe.O Vevé trabalhava por contra própria mas fazia com prazer qualquer tarefa extra para minha mãe,pela qual tinha grande amizade e consideração.

Aos domingos,o Vevé não trabalhava.Ele tirava esse para fazer aquilo de que mais gostava :pescar.Naquele tempo o rio Calçado merecia de fato o nome de rio,pois era caudaloso e possuía uma razoável variedade de peixes,mas em muito boa quantidade.As traíras,os piaus,os bagres e os lambaris encontravam fartura de alimento e se desenvolviam bem.

Ora,o Vevé gozava de boa saúde.Tinha os pés e mãos enormes,braços fortes,estatura mediana e não era nem gordo nem magro.Seu único problema era a epilepsia. Quando tinha os ataques,bastava alguém deitá-lo que em pouco tempo ele voltava a recobrar a consciência e não raro voltava imediatamente a trabalhar.Ás vezes,o ataque era um pouco mais severo e ele tinha que ser recolhido ao leito e dormir um bom sono para voltar ao normal.Por isso,quando ia pescar,sempre ia com um companheiro,mas companheiro que também gostasse de pescaria e que não fosse só para acompanhá-lo;do contrário,Vevé iria se sentir bastante humilhado.

Era um domingo de céu muito azul e com poucas nuvens.Vevé já pusera nos ombros os dois embornais: um,forrado de plástico,para os peixes; outro,com os pães e presunto,água e café.Levava duas varas de pescar:uma,para peixes miúdos tipo lambari;a outra,uma vara maior para peixes maiores.Esta última ficava enterrada na margem do rio,enquanto que,com a menor,ele se distraía com as miudezas do rio,tipo lambaris,que depois de fritos eu comia com arroz e feijão.Era meu prato predileto.

A esposa de Vevé,nesse domingo,ia ficar por conta de visitar as amigas,para os lados da Vala.Era para ser um domingo tranqüilo,tudo estava nos eixos.

No último andar da escadaria do quintal havia um berreiro de criança.Eu estava fazendo manha e minha mãe,perdendo a paciência,me dava umas palmadas bem merecidas na bunda.Vevé,em baixo,ia fechando a sua casa e arrumando as suas coisas.Deu um largo sorriso e falou alto para minha mãe: "Aí,comadre,cedo cedo e já tirando uns "bifes" no Carlos.Diz a ele pra parar de chorar,que vou trazer uns peixinhos pra ele comer" --- disse ele, atravessando o espaço que separava sua casa do portão de saída,enquanto falava.E minha mãe escutou o barulho do portão ao ser fechado pelo Vevé.

Mas nesse dia minha mãe acordara intranqüila e não conseguia explicar o porquê dessa sua inquietude. Procurava se distrair lendo um livro,para logo deixá-lo de lado,não conseguindo manter o foco da atenção.Os trabalhos domésticos a deixavam irritada.Então saiu e foi conversar com umas amigas. Sentiu-se um pouco melhor,embora tivesse que responder uma pergunta que todas lhe faziam:Você está preocupada com o quê?"Ela nem se dera ao trabalho de responder,tão dispersiva estava sua mente.

Resolveu retornar para casa, pois,embora o céu ainda estivesse azul,um vento frio soprava,enregelando-a. Parecia que o vento ia ganhar mais força.Já dentro de casa,foi ver se a passadeira de roupa já terminara o serviço.Terminara,sim;e se despediu de minha mãe,ao ser paga. Eu,brincava com meus carrinhos e com soldadinhos de plástico e lhe dera descanso.Quando o relógio de parede deu as onze badaladas,minha mãe me chamou para almoçar.Minha manha já cedo fora ocasionada por uma noite mal-dormida --- garganta inflamada,um pouco de febre. Porém,depois de muito brincar e de muito bem almoçar,caí num sono profundo,do qual só fui despertar às nove da noite,para em seguida dormir novamente até a manhã seguinte.

Minha mãe,agora, estava sozinha em casa.Pegou um trabalho de crochê e,finalmente,conseguiu melhorar um pouco seu estado de espírito.Até cantarolava uns hinos religiosos.

Lá fora o vento aumentara de intensidade,embora não houvesse qualquer indicação de que fosse chover.As galinhas do terreiro comiam os últimos grãos de milho antes de se recolherem ao galinheiro. Minha mãe começou a fechar as janelas que davam para o terreiro.Foi até à área de serviço,na parte detrás da casa,e acendeu uma lâmpada muito fraca,o suficiente apenas para iluminar a parte do quintal entre o paiol e a entrada pelos fundos.Vevé tinha a sua lanterna e a Josefa entrava pela porta principal.

Escurecera ainda- mais,porém,havia lua.Nenhum ruído se ouvia exceto o barulho do vento vergando os galhos das árvores.

Quando o relógio bateu seis horas,minha mãe levou um susto,pois, o portão do terreiro foi violentamente sacudido.Ela teve o impulso de ir até à frente de casa,para repreender os moleques,que eram quase sempre a causa dessa brincadeira de mau gosto. Entretanto,algo a arrastava para as escadas do terreiro.Ela abriu a porta dos fundos,desceu até à parte mais larga da escadaria e esticou o pescoço,debruçada na mureta.Neste exato momento,ela vê um vulto acabar de sair do corredor de entrada e encaminhar-se lentamente para o paiol.Minha mãe ia gritar pelo nome de Vevé quando,examinando melhor o vulto,observou que seus pés estavam sem as meias e os sapatos e que neles estavam grudados pedaços de barro,e observou principalmente que,embora eles fizessem os movimentos característicos de quem anda,eles na verdade não pareciam tocar o chão.O vulto aproximou-se mais e minha mãe sentiu-se presa onde estava,mas não entrou em pânico.O vulto movia-se lenta mas inexoravelmente. lá minha mãe percebia que a camisa de Vevé estava toda em farrapos,ensopada d’água e suja,as calças compridas desciam até à metade dos pés,também rasgadas, molhadas e sujas em vários pontos e o cinto todo retorcido.Ao atingir a menor distancia que o separava de minha mãe,o vulto pareceu querer erguer a cabeça em direção à minha mãe mas desistiu,enfim,de o fazer.Minha mãe agora via o vulto completo.Ao cabelo molhado aderira-se toda sorte de sujeira de fundo de rio,o rosto estava inchado assim como todo o restante do corpo,o que lhe conferia uma aparência grotesca;partes dos grossos beiços arrancadas,deixando à mostra os dentes muito alvos,perdera muito de sua cor negra,também as bochechas estavam marcadas por dentadas de peixes e a carne mordida abrira-se para fora mas pouco sangue se via.Pela boca uma bolha espessa de espuma ora aumentava de tamanho,ora diminuía.Os olhos apresentavam-se fixos e sem vida.Não tinha nenhum dos embornais que levara mas a mão direita segurava firmemente a vara maior,que se quebrara pela metade.As pontas dos dedos das mãos e.dos pés estavam esbranquiçadas.Aliás,toda a pele de Vevé parecia estar molenga e prestes a se desfazer.Quando deu as costas para minha mãe,dirigindo-se para a parte mais escura do quintal,o vulto de Vevé foi desaparecendo aos poucos até não restar nada mais dele.

No outro dia,bem cedo,os amigos de Vevé,após muitas buscas pelos locais do rio mais freqüentados por ele,foram achar seu corpo numa virada do rio em que uma árvore enorme estava semi-submersa.
Seu companheiro de pescaria tinha sido chamado às pressas para atender uma urgência em casa.Vevé,sem dúvida, tinha sofrido um ataque epiléptico e caído no rio,na ausência do amigo.Como não havia ninguém mais por perto para lhe prestar socorro,afogara-se sem apresentar resistência.



Carlos Rezende

 



 

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