Mané
França
E
o Mané foi retirando de seu fordeco a vareta da válvula
de comando do repicador,o tucho da válvula que transmitia
o fluxo do líquido seminífero,o reparo do cabeçote
da bruaca do tubo enviezado anticorruptor,a sempre avariada
e lembrada retranca da mola da rebimboca da parafuzeta,o estirador
do fecho helicoidal da bitoca do gancho mestre--e foi espalhando
tudo na calçada em frente de sua casa.
Seu
ano de fabricação era 29,segundo entendedores
da matéria.0 fordeco até que tinha uma remotíssima
semelhança com os automóveis atuais --- afinal
tinha quatro rodas,lugar pra gente se sentar e motor. E como
era ele?Vou puxar pela minha memória.
Vamos
lá.Digo que ele era azul,tinha quatro portas e assentos
duros,se comparados com os de hoje.O câmbio era próximo
ao volante,o motor ficava na dianteira e não me recordo
se era barulhento ou não,mas sei que seu arrefecimento
era feito com água que, para ser posta no radiador, era
preciso erguer duas tampas metálicas protetoras, ranhuradas,uma
de cada lado,que faziam o papel de capô.Quando acontecia
de o motor não pegar,era necessário girar a manícula
ou manivela,que era acoplada à ponta duma peça
metálica de transmissão de força,a qual
era girada manualmente por intermédio da manícula.O
pára-brisa era de vidro maciço.Não havia
vidro nas laterais;para impedir a entrada de vento,sol e chuva,era
preciso abaixar as cortinas espessas que,quando não estavam
em uso,ficavam enroladas e presas no alto.Os faróis dianteiros
não eram encaixados no pára-lama ou no capô
e sim presos a uma barra.Eram uma continuação
do estribo e,como ele, resistentes.Tinha velocímetro
sim senhor -- e marcava pra mais de 80 quilômetros por
hora,salvo engano.
De
calça comprida azul,sem camisa,de sapatos,estava debaixo
de seu fordeco o Mané, e de quinze em quinze segundos,com
raiva,deixava escapar uma enfiada de pragas cabeludas.Suava
muito e de vez em quando me pedia que lhe passasse uma ferramenta--.
--Seu filho da p ... Você não nasceu aí,desgraçado,por
que não quer sair?Êta parafuso mais filho da p...,e
a po ... da porca também não fica atrás!Êta,merda!
E amanhã vou ter que levar o pessoal ao cinema --- êta
rrrraaio sô,corisco! ---Impacientava-se,o Mané,com
o bíblico rilhar de dentes,na perspectiva de não
poder cumprir a promessa que havia feito às filhas de
as levar ao cinema para ver um filme sobre a criação
do mundo cujo título me escapa,em Bom Jesus.E eu estava
muito interessado no conserto do carro,já que tinha sido
convidado também para aquele excelente programa.
0 cinema de Bom Jesus era muito melhor que o de Calçado,no
que dizia respeito ao prédio e equipamentos. Quanto à
qualidade dos filmes,até que não havia tanta diferença
assim.
Como
a mão do Mané me impedisse de ver em qual peça
ele estava mexendo,dei uma olhada nele: um pouco acima da média
em altura,nem gordo nem magro,mas já com tendência
ao implacável crescimento abdominal,cabeça bem
feita,pele muito branca naqueles sítios menos sujeitos
aos raios de sol,mãos feitas no capricho,não daquele
tipo de dedos finos e sim grossos,de um exímio mecânico
que tivesse que aplicar em momentos críticos uma bem
calculada força muscular; cabelos escuros e levemente
ondulados, penteados para trás,um bigode bem administrado,que
ele ajeitava com sumo esmero,com os dedos(o que se chama “cofiar
o bigode”,em literatura de maior calibre); nariz muito
comprido mas impecavelmente bem deli neado,terminado numa ponta
fina,como convinha,de resto, a um filho de português.
--Caaaarlusss,Caaarlusss---cantava
agora o Mané,alterando meu nome Carlos.Era um bom sinal.Significava
que ele tinha descoberto o problema do fordeco e o estava consertando.
Quando se levantou,seu semblante estava menos carregado e,talvez
pela décima vez naquele dia,me fez a pergunta de praxe:--Já
cagou hoje--,que era um modo de cumprimento brincalhão,marca
registrada sua,que ele dirigia a mim,a meus primos e a outros
moleques com quem tivesse intimidade,e esse costume perdurou
por décadas,só desaparecendo nos seus últimos
anos de vida--também não era mais pergunta que
se fizesse a um chefe de família.
Mané
apreciava passarinho.Tinha azulão,trinca-ferro, canário
da terra, belga, hamburguês;tinha sabiá laranjeira,coleiro
gravatinha e paulistinha, melro,araponga,cardea1, pintassilgo,
bicudo -- se deixei de fora algum nome,queira o passarinho me
perdoar.Sabia distinguir defeitos nos cantos de todos eles,como
um maestro percebe o erro de um violinista na orquestra.Tinha
amigos caminhoneiros que lhe traziam passarinhos de longe: da
Bahia,de Mato Grosso,do raio que o parta.0 que não era
dado era barganhado,com muito "choro" pelo Mané,que
tinha certo apego um tanto ou quanto imoderado pelas cédulas
de sua carteira(conta-se que um certo dia ele comprou um picolé
pro seu afilhado,o Zé Antonio,o Saragaia,mas há
divergência de opinião a esse respeito).
E
o dia chegou.Era domingo e o fordeco estava nos trinques, brilhando,pronto
para nos levar a Bom Jesus.Íamos para a sessão
vespertina,com saída marcada para depois do almoço.
Almocei
neste dia mais rápido do que de costume.Nem precisou
minha mãe implorar.Almocei e fui correndo para a casa
da Tia Edissé,que já estava agora a se aprontar.Que
me perdoem as filhas da minha saudosa Tia Edissé,mas
não me lembro quais as duas dentre elas foram ao cinema
naquele dia.Sei que o fordeco comportava cinco pessoas,incluindo
o motorista.Pode até ser que as três tivessem ido,já
que eu era muito magro e fácil de encaixar num canto
ou outro.
Agora,já
estamos todos acomodados no fordeco e o Mané vai dar
a partida.Que não pegasse de primeira,era tão
natural,que ninguém reparava.Mas não pegar na
oitava tentativa já era um tanto inquietador.
--Carlos,bunda
suja,toma,desce e toca a manícula pra mim,olho do cú
sem pestana--falou pra mim o Mané.Saí e encaixei
a manícula no devido lugar e girei.Para nossa sorte,o
fordeco pegou na primeira "maniculada".Entrei e o
Mané pôs o fordeco em movimento. Até que
o fordeco andava...
...Já estamos descendo a Volta Fria.A estrada é
de terra,mas como o tempo está bom,não foi preciso
por correntes nas rodas para elas não deslizarem.
E,nem
bem acabamos de descer a Volta Fria,o fordeco começa
a dar alguns engasgos alarmantes.E o Mané adverte o fordeco:
-- Aaaah,seu filho da puta,mais um pouco que estamos chegando,filho
duma égua! Desgraçado!
E
a Tia Edissé adverte o Mané: ---Se esse carro
der mais um defeito,nunca mais entro nele!E você passou
todo o dia de ontem debaixo dele,pra variar.Se não sabe
consertar,por que não entrega a um profissional, Manoel?Quê
coisa!E não adianta xingar e ficar nervosinho--minhas
primas e eu quietos,talvez aflitos com a idéia de perder
a sessão de cinema.
Mané
estava agora irritado com o fordeco e com a consorte.Não
havia quem consertasse aquele fordeco--só ele,Mané
França e mais ninguém.Mas o fordeco,que parece
até gostar de confusão,sem comando de seu dono,por
si próprio,pára mortinho da silva.Mané
o xinga de tantos nomes,que até eu reparo que alguns
são novos, e os memorizo.
Mané
sai e começa a mexer no fordeco.Olha uma coisa,olha outra,coça
a cabeça,vai até um arbusto,corta uma haste fininha
dele e a enfia no orifício de uma peça. Puxa,assopra,limpa
com os dedos, aperta, desaperta, manda tudo tomar naquele lugar,e
volta a mexer,até que --eureka!Novamente giro a manícula
e o fordeco se põe a andar,um pouco engasgado.Só
que nessa brincadeira perdemos um bocado de tempo.
Enfim,entramos
triunfalmente em Bom Jesus do Itabapoana,e Mané estaciona
o fordeco próximo ao cinema. Entramos,o lanterninha ilumina
uma parte das poltronas vazias e nos acomodamos.
De
novo o adjetivo “bíblico”.Mas que diabo,era
um filme de temática bíblica mesmo.E,mesmo atrasando
de modo tão desculpável e francamente digno de
todo perdão,Deus não quis saber,não quis
esperar pela gente. Resultado: Já tinha feito o mundo,já
tinha criado Adão e Eva,já tinha feito os animais
da terra,do ar e das águas,já tinha se arrependido
de ter feito o homem; e já tinha acabado com ele debaixo
de chuva; mas,felizmente,nomeou Noé o salvador da raça
humana e de todos os bichos.E quando olhamos pra
tela,Noé,barba branca de 150 anos e pico, mas todo serelepe
ainda,estava saindo da sua Arca,que certamente não era
tão sujeita a enguiços quanto o fordeco do Mané.Mas
também Noé levava uma vantagem --tinha construído
a Arca sob a supervisão direta dum Senhor mecânico,nada
mais nada menos que Deus.
P.S.:
Mané França,para quem não teve a sorte
de o conhecer, é o Manoei Augusto Ramos,esposo da Dona
Edissé,do Cartório,ambos falecidos.
Solange Medina
Pirralho na faixa dos 11 anos não quer saber de brincar
com o belo sexo.Acha humilhante brincar com quem não
pode matar bola no peito,com quem não se veste adequadamente--isto
é,short e mais nada--com quem não agüenta
palmadas nas costas de deixar marca,como é comum quando
se brinca de carniça.Se elas insistiam em brincar,dizíamos
com desprezo:--Não brinca,que você vai ficar doente
do peito!
Mas havia uma exceção--e que exceção!Não
vou dizer que brincávamos de carniça com a Solange
Medina--eis a exceção--mas que brincávamos
de bandeirinha, isso não vou negar.A Solange dava mais
vida a toda brincadeira de que participasse.Torcia para os dois
lados,e isso acontecendo com ela atuando vigorosamente para
um dos lados,batia palmas para nos incentivar--ou tapinhas nos
ombros da gente,gritava nossos nomes a plenos pulmões--enfim,era
uma capetinha,ou melhor,uma pimentinha,já que fazia arder
nossos folguedos e ficava com as maçãs do rosto
vermelhas como pimenta malagueta madura.Isso, durante o dia.À
noite,às vezes brincávamos com ela também,mas
de brincadeiras muito diferentes. Brincadeiras do turno noturno.Aí,então,o
comando passava inteiramente para ela.Eram adivinhações,baralho,brincadeiras
outras que nem sei como classificar,mas nem por isso piores,culminando
com as histórias de assombrações,vampiros,
lobisomens, mulas-sem-cabeça e tudo o mais que pudesse
manter nossos cabelos em pé—com o calafrio a percorrer
nossas espinhas.
De uma coisa estou certo: nem todas as histórias eram
dela, mas boa parte ela inventava ali na hora,estudando os nossos
medos,os nossos pontos fracos e improvisando de modo hábil
e altamente realista.Tanto que eu,que não era dos mais
medrosos,às vezes aproveitando um instante em que achava
que ninguém pudesse me ver,dava uma olhadela rápida
pra trás,a averiguar se tudo estava em seus devidos lugares,se
nenhum pedaço de corpo envolto em tecido branco e esvoaçante
se aproximara perturbadoramente da gente.Examinava também
o grande espaço cimentado--uma espécie de varanda--
Já dentro da casa da Solange,cuja parte final dava para
uma escadaria que conduzia ao quintal completamente às
escuras e também para a entrada mais interna de sua casa.Era
o quintal o ponto que eu achava mais capaz de abrigar as almas
penadas.Para complicar tudo ninguém entrava ou saía
da casa da Solange de noite.Seu pai,o dentista Dr Celso Medina,o
meu dentista, parecia que combinava com a filha de nunca passar
por ali quando nós,em frente,sentados na beira da calçada,
éramos barbaramente torturados pela sua filha-e gostávamos
dessas torturas,tanto que sempre voltávamos a nos reunir.
Nunca a Solange se utilizou de recursos baixos,tais como palavrões,
insinuações de cunho sexual,torpes explorações
de preconceitos e deformidades físicas-até por
que ela era mais velha do que a gente e parecia já ter
tudo bem formado,tanto espírito quanto físico.E
foi aí que me apaixonei por ela.Nunca o disse.Faço
essa confissão agora.
Estava saindo de um amor platônico com uma garotinha vesga
e que puxava de uma perna.Ela tinha se mudado de Calçado,com
a família.Meu coração estava livre e aí
me apaixonei pela Solange.
Como a Solange era diferente da garota vesga ... Seu corpo e
seu espírito cintilavam de luz.Era a graça em
pessoa,tinha um andar voluptuoso,um odor peculiarmente gostoso.Seus
cabelos compridos aloirados estavam sempre ondeando,sua voz
acariciava a gente e tinha sempre um sorriso nos lábios.Seu
nome, já tem um quê de exótico,sem falar
que começa por um Sol.Mas nunca ousei me aproximar dela,acho
que nunca nos abraçamos,nunca sequer trocamos um aperto
de mão--do contrário,sem dúvida,me lembraria.
V
Keath
Nesses tempos em que parece que virou moda falar mal dos americanos,gostaria
de lembrar aos calçadenses que já viveu entre
nós.(estou me pondo naquela época)um americano
que foi muito querido aqui!
por todos.E bem possível que alguém já
tenha escrito sobre ele,alguém de memória melhor
que a minha e com o dom de narrar melhor desenvolvido que o
meu.Como não posso-e acho que também não
quero-me desfazer do pouco que retive sobre ele,vou lá
tentar relembrar do Keith tal qual ele me pareceu quando eu
tinha uns nove anos.
Era para nós impossível não reparar nele.O
homem parecia ter sido feito de outro material,muito diferente
do nosso.Era muito alto e forte,com tendência a acumular
gordura,de rosto muito vermelho,de cabelos não sei se
louros ou do tipo "ferrugem" e falava com um sotaque
estranhíssimo mas agradável de ouvir.
Logo que Keith tomou um quarto na pensão da Dona Tita,ele
foi logo escancarando as janelas, a uns 50 centímetros
da calçada de passeio.E não fez segredo de nada-e
acho que havia porquê.De imediato,ele próprio,sem
nenhum ajudante,começou a lixar as paredes do quarto,emassou
onde requeria massa e aguardou não sei quanto
tempo.Em seguida,começou a pintar as paredes,teto,janelas,tudo
de azul claro.Ficávamos ali de frente para a janela vendo
a atividade do homem que suava feito um cavalo(que ele me desculpe
a comparação).E de vez em quando nos perguntava
alguma coisa naquela sua estranha língua.O que entendíamos
respondíamos com satisfação, porque o sujeito
sabia nos agradar e nós queríamos nos apresentar
como boas amostras da "raça" calçadense.
Não demorou muito para o Keith aparecer com outra novidade.Um
disco de plástico de uns 20 centímetros de diâmetro,com
as pontas viradas para baixo,que era lançado ao espaço
com um movimento do pulso,como quem atira um bumerangue.Ele
o pegava e o lançava tão bem para o alto,que o
brinquedo ia parar muito longe.Saíamos a correr para
pegá-lo.Claro que não o fazíamos por mera
gentileza.No fundo,também queríamos lançar
o objeto.E o Keith, naturalmente, nos deixou fazê-lo,depois
de nos dar algumas dicas para seu correto manejo.Depois que
dominamos a técnica,ele nos ensinou a jogar de um
para outro.Só muito tempo depois,já adulto,é
que fui saber que aquele brinquedo fizera muito sucesso entre
a garotada dos Estados Unidos e que seu nome era frisbee.
Creio que foi o Keith o responsável pela introdução
das galinhas poedeiras de raça em Calçado ou ao
menos alguém que incentivou a sua criação.Parece
que ele as buscava em Campinas ou em São José
dos Campos. Infelizmente é só o que me lembro
sobre ele.Gostaria que outra pessoa nos falasse sobre esse norte-americano
que se tornou um grande amigo de todos nós.
Gente boa nasce em todo lugar: no Brasil,no Iraque,no Afeganistão,nos
Estados Unidos,Japão,em todo lugar deste maravilhoso
planeta.
Tio Aristides
E
is aí uma figura das mais notáveis que Calçado
já possuiu.Se algum dia for escrita a história
da cidade e faltar seu nome nela,a obra resultará capenga.
Entretanto, não falarei do médico nem do político,pois
aqui.me falta conhecimento nesses dois setores da atividade
humana. Lembrarei do grande homem através de meus olhos
infantis,assim como o fez-e muito bem o fez-o Oscar Rezende,em
uma de suas crônicas--"O Menino da Porteira".Já
corrigindo,porém,o que há pouco escrevi,não
posso deixar de tentar fazer um diagnóstico brincalhão
e inócuo,mas que talvez tenha um fundo de verdade.
Para início de conversa,foi pelas mãos do Tio
Aristides que meu irmão,o Paulo Legal,e eu viemos ao
mundo,em partos levados a bom termo em entrando casa da parturiente.E
se o meu não deu tanto trabalho,o de meu irmão
no deu um trabalhão a ambos,médico e parturiente.O
diabo é que as mulheres baixinhas tem uma queda inexplicável
por homens altos.Pois bem,meu irmão teve que ser retirado
a poder de fórceps.Fico a pensar nas caretas que meu
Tio Aristides deve ter feito durante aquele parto difícil
Quando mais tarde minha mãe o comentava comigo,tinha
eu que morder a língua para não a censurar com
estas palavras que me passavam pela cabeça:"Quem
manda a senhora se casar com um homem de quase dois metros,mal
chegando a senhora a 1 metro e 60 de altura ... Uma tampinha
metida,era o que a senhora
era!".Enfim,também isso pode ser explicado pela
teoria da evolução,eminha mãe foi apenas
um instrumento cego nas mãos das leis que governam o
mundo,
Mas minha mãe tinha uma grande confiança e apreço
pelo Tio Aristides.Quando ficávamos doentes,ela mandava
logo um portador atrás dele.Acho que ele tinha igual
apreço por ela,pois nunca faltava a nenhum dos pedidos
e não demorava a aparecer.Quando ele surgia com sua grande
maleta marrom e estetoscópio pendente do pescoço,se
era eu o paciente,já sentia logo uma grande melhora,pois
ele assim que entrava em meu quarto,já vinha fazendo
tantas caretas e barulhinhos engraçados,e todos involuntários,é
claro,naquela sua voz estranhíssima mas muito agradável
e confortadora,que eu tinha que me conter às vezes para
não rir.Ia logo pondo o termômetro debaixo do meu
braço, e enquanto aguardava o minuto regulamentar,fazia
tantas caretas,dava tantos tapinhas na minha perna e outros
tantos na mão dele e nas pernas,que eu,muito enfraquecido
pela febre,ficava admirado com tamanho dispêndio de energia.Tio
Aristides era um médico tão " cuspido e escarrado
"(já que tratamos de médico,essa palavra
deixa de ser ofensiva,se alguém a achar)para sua profissão,que
eu não conseguia vê-lo menino,ou quando o conseguia,ele
vinha acompanhado de um estetoscópio que lhe chegava
nas canelas e já com os tiques,é claro. Quando
visitava a casa de meu Tio,depois de cumprimentar minha boníssima
Tia Amélia,esposa do Tio Aristides,e de prosear um pouco
com a Maria Amélia,e raramente com meu meu padrinho,o
Antonio Luiz,que já morava em Niterói.A Maria
Amélia e eu íamos para o quintal,o qual era formado
por terra tão ruim e estéril que coisa nenhuma
de valor brotava nele.Mas tinha um tesouro para mim.Jogado para
um canto havia uma estante velha e imprestável,dentro
da qual ficavam amontoadas as revistas médicas que os
expositores ambulantes de remédios,essa praga que acompanha
os médicos,empurravam para o meu Tio,juntamente com as
amostras grátis,que ele repassava para seus pacientes
mais pobres.Pois bem.Essas revistas me atraíam tanto
quanto a Playboy,pouco mais tarde,mas não tinham uma
mulher nua e sim fotografias muito bem feitas de patologias
variadas e um texto algo difícil, mas que me deixava
empolgado pela sua exatidão científica. Essas
revistas contribuíram para meu interesse pela medicina.
Agora tentarei fazer o diagnóstico do meu Tio.
Há dias,lendo o delicioso livro "Um Antropólogo
em Marte",do neurologista e escritor Oliver Sacks,encontro,na
página 93,a narrativa de um caso médico intitulado
"Uma Vida de Cirurgião",a história verídica
dum sujeito acometido pela síndrome de Tourette.Eis como
o dr Sacks descreve a síndrome:" ... A síndrome
de Tourette pode ser reconhecida numa vista de olhos uma vez
que se esteja familiarizado com ela;e casos de grunhidos,crispações,caretas,estranhos
gestos ... foram registrados por Areteu da Capadócia
há quase 2 mil anos".E mais adiante:"A síndrome
atinge talvez uma pessoa em míi,e é possível
encontrar gente com sintomas -por vezes os mais severos-em praticamente
todas as atividades.Há escritores to u rétticos,
matemáticos, músicos, atores, assistentes sociais,
mecânicos,atletas. "Está claro que o caso
estudado pelo escritor e médico é um dos mais
graves.O do Tio Aristides era dos mais brandos. I m possível,
no entanto,para uma pessoa que o conhecia na intimidade e veja
a descrição dessa síndrome,de não
fazer uma ligação imediata entre as duas coisas.
Eram tantas as caretas,gestos e expressões do Tio Aristides
que fica até difícil descrever todas.De qualquer
maneira, vou tentar descrevê-las,ao menos as mais evidentes.
Por exemplo,quando ele estava dirigindo o seu fusca,eu ficava
com um frio na barriga.Ele fazia perguntas a gente e ao mesmo
tempo mascava a própria língua,jogando-a para
um fado e outro da boca,como se estivesse com uma grande bola
de chiclete dentro dela,dava puxões violentos com os
músculos da face,ora repuxando os cantos da boca,ora
franzindo violentamente a testa,o que produzia como efeito o
esbugalhar repentino dos olhos.Mas isso não era nada.O
pior é que ele,de tantos em tantos minutos,simplesmente
tirava as duas mãos do volante e dava cuspidinhas nelas,para
em seguida bater palmas estrondosa mente,sem falar que depois
ainda usava o volante como se fosse um pandeiro, batendo nele
com os dedos polegares somente ou com todos os dez.E enquanto
executava toda essa série de contorções
e gestos,ainda emitia um som cavo com a garganta ou mesmo abria
um pouco os lábios para trautear uma canção
que só ele conhecia. Com paremos essas esquisitices do
Tio Aristides ao volante com as de um médico também,em
cuja companhia o dr Sacks viajou: "Atravessar o país
de carro com um amigo touréttico também foi uma
experiência memorável,já que jogava violentamente
o volante de um lado para o outro,pisava no freio ou no acelerador
de repente,ou tirava a chave da ignição em alta
velocidade.Mas sempre se certificava de que esses tourettismos
eram seguros e nunca sofreu um acidente em dez anos de motorista",pág.
116,anotação 11.
Mas nada disso tem importância afinal e tudo não
passou de um mero pretexto para falar sobre o Tio Aristides...
A última vez que o vi,ele estava internado na Casa de
Saúde de Cachoeiro de Itapemirim,com câncer e já
desenganado pelos colegas.Se já não tinha o rosto
alegre que costumava ter,nem por isso deixava de manter a firmeza
e bravura de espírito,que devia aconselhar a seus pacientes
nas mesmas condições,sem nenhum queixume,apenas
com um ou outro quase inaudível gemido,quando sob o acicate
da dor atroz.
Minha mãe,que possui poderes psíquicos inexplicáveis
pelos canais normais da humana compreensão, diz que ele
está muito bem onde está,pois faz aquilo de que
gosta: dar alívio e curar os enfermos.
Vevé
Meus pais moravam na praça Governador Bley,numa casa
próxima ao Correio,em Calçado.Era uma casa comum,porém
sólida,bem dividida,de um único andar,com uma
escadaria de alvenaria na parte traseira, que dava para um grande
quintal.Na frente,à direita,havia um portão metálico
através do qual se chegava também ao quintal,depois
de vencido um corredor formado pela casa vizinha e a parede
de nossa casa.A entrada principal ficava na outra extremidade,à
esquerda.
Na
escadaria de que falei,havia,no meio dela,um degrau maior e,debruçando-se
na mureta da escada,podia-se ver quem entrava no quintal,a parte
dele mais próxima da casa e um grande paiol de madeira,situado
a uns cinco metros do último degrau da escada, que fora
convertido em moradia para um casal : Josefa e seu marido Vevé.A
Josefa,uma negra robusta e trabalhadeira.Fora criada pelos meus
avós maternos e o Vevé,um negro forte,pintor dos
bons,se amigara com ela e viviam em harmonia—uma certa
harmonia,digamos...
0
trabalho da Josefa consistia em executar tarefas domésticas
para minha avó e servia ainda como uma auxiliar de minha
mãe.O Vevé trabalhava por contra própria
mas fazia com prazer qualquer tarefa extra para minha mãe,pela
qual tinha grande amizade e consideração.
Aos
domingos,o Vevé não trabalhava.Ele tirava esse
para fazer aquilo de que mais gostava :pescar.Naquele tempo
o rio Calçado merecia de fato o nome de rio,pois era
caudaloso e possuía uma razoável variedade de
peixes,mas em muito boa quantidade.As traíras,os piaus,os
bagres e os lambaris encontravam fartura de alimento e se desenvolviam
bem.
Ora,o
Vevé gozava de boa saúde.Tinha os pés e
mãos enormes,braços fortes,estatura mediana e
não era nem gordo nem magro.Seu único problema
era a epilepsia. Quando tinha os ataques,bastava alguém
deitá-lo que em pouco tempo ele voltava a recobrar a
consciência e não raro voltava imediatamente a
trabalhar.Ás vezes,o ataque era um pouco mais severo
e ele tinha que ser recolhido ao leito e dormir um bom sono
para voltar ao normal.Por isso,quando ia pescar,sempre ia com
um companheiro,mas companheiro que também gostasse de
pescaria e que não fosse só para acompanhá-lo;do
contrário,Vevé iria se sentir bastante humilhado.
Era
um domingo de céu muito azul e com poucas nuvens.Vevé
já pusera nos ombros os dois embornais: um,forrado de
plástico,para os peixes; outro,com os pães e presunto,água
e café.Levava duas varas de pescar:uma,para peixes miúdos
tipo lambari;a outra,uma vara maior para peixes maiores.Esta
última ficava enterrada na margem do rio,enquanto que,com
a menor,ele se distraía com as miudezas do rio,tipo lambaris,que
depois de fritos eu comia com arroz e feijão.Era meu
prato predileto.
A
esposa de Vevé,nesse domingo,ia ficar por conta de visitar
as amigas,para os lados da Vala.Era para ser um domingo tranqüilo,tudo
estava nos eixos.
No
último andar da escadaria do quintal havia um berreiro
de criança.Eu estava fazendo manha e minha mãe,perdendo
a paciência,me dava umas palmadas bem merecidas na bunda.Vevé,em
baixo,ia fechando a sua casa e arrumando as suas coisas.Deu
um largo sorriso e falou alto para minha mãe: "Aí,comadre,cedo
cedo e já tirando uns "bifes" no Carlos.Diz
a ele pra parar de chorar,que vou trazer uns peixinhos pra ele
comer" --- disse ele, atravessando o espaço que
separava sua casa do portão de saída,enquanto
falava.E minha mãe escutou o barulho do portão
ao ser fechado pelo Vevé.
Mas
nesse dia minha mãe acordara intranqüila e não
conseguia explicar o porquê dessa sua inquietude. Procurava
se distrair lendo um livro,para logo deixá-lo de lado,não
conseguindo manter o foco da atenção.Os trabalhos
domésticos a deixavam irritada.Então saiu e foi
conversar com umas amigas. Sentiu-se um pouco melhor,embora
tivesse que responder uma pergunta que todas lhe faziam:Você
está preocupada com o quê?"Ela nem se dera
ao trabalho de responder,tão dispersiva estava sua mente.
Resolveu
retornar para casa, pois,embora o céu ainda estivesse
azul,um vento frio soprava,enregelando-a. Parecia que o vento
ia ganhar mais força.Já dentro de casa,foi ver
se a passadeira de roupa já terminara o serviço.Terminara,sim;e
se despediu de minha mãe,ao ser paga. Eu,brincava com
meus carrinhos e com soldadinhos de plástico e lhe dera
descanso.Quando o relógio de parede deu as onze badaladas,minha
mãe me chamou para almoçar.Minha manha já
cedo fora ocasionada por uma noite mal-dormida --- garganta
inflamada,um pouco de febre. Porém,depois de muito brincar
e de muito bem almoçar,caí num sono profundo,do
qual só fui despertar às nove da noite,para em
seguida dormir novamente até a manhã seguinte.
Minha
mãe,agora, estava sozinha em casa.Pegou um trabalho de
crochê e,finalmente,conseguiu melhorar um pouco seu estado
de espírito.Até cantarolava uns hinos religiosos.
Lá
fora o vento aumentara de intensidade,embora não houvesse
qualquer indicação de que fosse chover.As galinhas
do terreiro comiam os últimos grãos de milho antes
de se recolherem ao galinheiro. Minha mãe começou
a fechar as janelas que davam para o terreiro.Foi até
à área de serviço,na parte detrás
da casa,e acendeu uma lâmpada muito fraca,o suficiente
apenas para iluminar a parte do quintal entre o paiol e a entrada
pelos fundos.Vevé tinha a sua lanterna e a Josefa entrava
pela porta principal.
Escurecera
ainda- mais,porém,havia lua.Nenhum ruído se ouvia
exceto o barulho do vento vergando os galhos das árvores.
Quando
o relógio bateu seis horas,minha mãe levou um
susto,pois, o portão do terreiro foi violentamente sacudido.Ela
teve o impulso de ir até à frente de casa,para
repreender os moleques,que eram quase sempre a causa dessa brincadeira
de mau gosto. Entretanto,algo a arrastava para as escadas do
terreiro.Ela abriu a porta dos fundos,desceu até à
parte mais larga da escadaria e esticou o pescoço,debruçada
na mureta.Neste exato momento,ela vê um vulto acabar de
sair do corredor de entrada e encaminhar-se lentamente para
o paiol.Minha mãe ia gritar pelo nome de Vevé
quando,examinando melhor o vulto,observou que seus pés
estavam sem as meias e os sapatos e que neles estavam grudados
pedaços de barro,e observou principalmente que,embora
eles fizessem os movimentos característicos de quem anda,eles
na verdade não pareciam tocar o chão.O vulto aproximou-se
mais e minha mãe sentiu-se presa onde estava,mas não
entrou em pânico.O vulto movia-se lenta mas inexoravelmente.
lá minha mãe percebia que a camisa de Vevé
estava toda em farrapos,ensopada d’água e suja,as
calças compridas desciam até à metade dos
pés,também rasgadas, molhadas e sujas em vários
pontos e o cinto todo retorcido.Ao atingir a menor distancia
que o separava de minha mãe,o vulto pareceu querer erguer
a cabeça em direção à minha mãe
mas desistiu,enfim,de o fazer.Minha mãe agora via o vulto
completo.Ao cabelo molhado aderira-se toda sorte de sujeira
de fundo de rio,o rosto estava inchado assim como todo o restante
do corpo,o que lhe conferia uma aparência grotesca;partes
dos grossos beiços arrancadas,deixando à mostra
os dentes muito alvos,perdera muito de sua cor negra,também
as bochechas estavam marcadas por dentadas de peixes e a carne
mordida abrira-se para fora mas pouco sangue se via.Pela boca
uma bolha espessa de espuma ora aumentava de tamanho,ora diminuía.Os
olhos apresentavam-se fixos e sem vida.Não tinha nenhum
dos embornais que levara mas a mão direita segurava firmemente
a vara maior,que se quebrara pela metade.As pontas dos dedos
das mãos e.dos pés estavam esbranquiçadas.Aliás,toda
a pele de Vevé parecia estar molenga e prestes a se desfazer.Quando
deu as costas para minha mãe,dirigindo-se para a parte
mais escura do quintal,o vulto de Vevé foi desaparecendo
aos poucos até não restar nada mais dele.
No
outro dia,bem cedo,os amigos de Vevé,após muitas
buscas pelos locais do rio mais freqüentados por ele,foram
achar seu corpo numa virada do rio em que uma árvore
enorme estava semi-submersa.
Seu companheiro de pescaria tinha sido chamado às pressas
para atender uma urgência em casa.Vevé,sem dúvida,
tinha sofrido um ataque epiléptico e caído no
rio,na ausência do amigo.Como não havia ninguém
mais por perto para lhe prestar socorro,afogara-se sem apresentar
resistência.
Carlos Rezende