Não chega a ser o fim, mas é um péssimo
sinal.
O
nosso Joãozinho Traça, livreiro de rua que os
visitantes do meu galhodearruda.com já conhecem desde
começos de 2005, não tem mais como abrir todos
os dias o seu negócio abençoado. Agora, além
do merecido descanso domingueiro junto à família,
ele fecha também duas ou três vezes na semana para
poder desincumbir-se de pequenas tarefas em residências
de Marechal Hermes, embolsando com isso uma grana bem maior
do que a féria obtida com os seus tabuleiros de revistas
e brochuras. Afinal, o cara tem mulher, filhos, cães
e gatos, paga aluguel e autonomia, e mora longe (em Japeri,
vejam vocês). Se, como acontece com uma freqüência
desalentadora, não vende nem o que dê para comprar
uma quentinha executiva (sete ou oito merréis, por aí),
como recusar-se a cuidar do jardim da D. Ofélia, carregar
montes de tijolos para a escola pública ou fazer faxina
nos sobradões do pedaço? Dá uma tristeza
danada ver o nosso amigo azafamando-se pelo bairro, quando sabemos
que ele não tem perfil para trabalhos dessa natureza.
De certo ponto de vista, como gosta de brincar Dostoiévski,
é um homem de letras, um abnegado rapagão metido
há vinte e três anos no comércio informal
de livros.
Merecia
sorte melhor esse livreiro suburbano de rua, resistência
pura num país em que se lê tão pouco (menos
de dois livros por ano cada cidadão brasileiro; é
de amargar). Não sei como ainda não largou tudo
e torrou os seus volumes nos grandes sebos do centro da cidade,
a exemplo daqueles que sucumbiram antes dele. (Aqui e em tantos
outros pontos do subúrbio, onde ninguém se arrisca
a tocar uma livraria que se preze, ou a brigar por bibliotecas
públicas modernas, com programas criativos de incentivo
à leitura. O que temos vagamente parecido com uma biblioteca
pública amontoa-se numa saleta de fundos do Teatro Armando
Gonzaga, e dou um doce para quem me apontar um morador deste
lado do bairro que a conheça. Não vale o cronista,
claro.)
Na
boa época das vacas gordinhas (no meu caso específico,
gordas seria um despautério), bem que eu teria bancado
o valor dos seus bicos só para ele não abandonar
o posto. Disse-me um dia que consegue tirar entre dez e quinze
reais por biscate. Caí das nuvens. Se isso é melhor
do que ele arranja com a venda dos livros, então a coisa
vai muito mal por aqui, ninguém está lendo nada.
Mas
Joãozinho Traça é um sujeito e tanto, sempre
bem-humorado. Hoje mesmo, enquanto eu passava em revista duas
pilhas de livros recém-chegados, vindos auspiciosamente
da casa de uma professora de história (temos aqui um
Rocha Pombo, Antonil, Macário, Euzébio M. Coelho),
ele chegou-se a mim com um volume novinho em folha, da L&PM
POCKET.
"Este
aqui é a sua cara", disse, com um ar timidamente
zombeteiro. "Tenho certeza que o senhor vai gostar."
Voei
na mão dele. Era o Notas de um velho safado, de Charles
Bukowski, num precinho bem camarada. Mas minha cara, por quê?
Cada uma!...
Luiz
Gerra
lyguerr@gmail.com
Luiz Guerra, 58, cronista e poeta carioca, colaborador semanal
da Agência Carta Maior.