Sou mesmo privilegiada, cercada de gente que vale a pena por
todos os lados.
E muito mais, flores, montanhas azuladas, a Igreja Matriz, enfim,
em tudo que você possa pensar de mais belo e aconchegante.
Eu mereço!
Tenho uma secretária muito das sorridentes, de bem com
a vida. Diga-se de passagem péssima reporter, mas boa
amiga e cozinheira também. Nunca sabe o que se passa
na rua de baixo, eu aqui nessa solidão sou mais bem informada
que ela.
Outro dia ela me disse: “ Sô Pedro faz um pastel
delicioso! “ .
Enchi a boca d’água. Lembrei-me do pastel feito
em casa por minha Santa Mãe.
Era um luxo. A massa era aberta com uma garrafa. O recheio de
carne de porco moida, com cebolinha verde. Cada um de um tamanho
e forma diferente: quadrangular, retangular, triangular. Em
forma de triângulo então nem se fala, uns escalenos
outros isóceles e por aí vai, do jeito que dava
para cortar.
Famosos!
Muito bem cerquei Sô Pedro e indaguei:
O tamanho? - Bem grandinho.
O preço? - Sessenta centavos. Baratinho.
Recheio? - Carne moida, palmito, azeitona. Delícia!
Nossa, fechei negocio na hora, antes que me arrependesse.
- Quantos Dona Verconda?
Contei os participantes do lance , cinco. Então vinte
pasteis.
Pensei vou me refestelar. Quatro para cada um!
Chegou o dia, liguei confirmando. Gelei a Coca-Cola. E aguardei.
Gente, quando vi Sô Pedro todo sorridente com duas vasilhas
enormes
abarrotadas de pasteis, cheirosos como eles só, quase
desmaiei.
Eram pasteis de ITU!
Raí, meu neto de onze anos, fortão, na flor da
idade aguentou dois. Seu pai,
apesar de boa boca, não passou de um e meio. E nós
as mulheres ficamos só com o recheio.
Delícia!
E agora, que fazer com tanto pastel? Ficar para o dia seguinte
não seria a mesma coisa.
Fui para a varanda.
Rua deserta.
Eis que apareceu três homens e uma mulher.
Ensaio um sorriso (sou muito simpatica) e digo:
- Boa tarde, tudo bem?
Me olham meio desconfiados, mas eu logo digo:
- Vocês não me conhecem, sou a mãe do Jeffinho…(ponto
de referência).
Eles abrem um sorriso, assim, tipo mil e hum.
- Vocês sabem o que é um sorriso “mil e Hum”
?
É um dente, duas falhas, outro dente.
Pensei, deu certo.
Aí contei: comprei uns pateis mas como são muito
grande, sobrou e não
adianta guardar para amanhã.
- Vocês aceitam?
Olharam uns pros outros e eu disse: A senhora pode entrar e
ver, estamos todos à mesa.
Ela entrou, constatou e la foi feliz levando os pasteis para
comer no caminho, ( iam a pé para o Jacá).
Me desvencilhei.
Um dia, dois dias, no terceiro dia, Sô Pedro passa em
frente a Igreja e eu
chamo em voz alta, da minha varanda:
- Sô Pedro, passa aqui!
Chego na cozinha, Marlene (minha secretária) esta morrendo
de rir e diz:
- Isso la é maneira de chamar os outros? – Passa
aqui?
Aí dei pela mancada, pago ao Sô Pedro e peço
desculpas por não ter pedido “
por favor” .
Elogio os pasteis. Agradeço. E me penitencio.
Mas a verdade é que sou mesmo uma desastrada.
Uma semana depois estou na janela da casa da Guiomar e eis que
passa uma mulher e diz:
- A Srª. é que me deu os pasteis, não é?
Pois olha nem precisamos jantar.
Que bom!
E nem Eu!
Setembro/06
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com