Joaquim Peidorreiro vestia-se todos os dias de um surrado terno
escuro. Tinha cara de rato, era vesgo e bicudo. Manejava o machado
como ninguém. Zé Benedito contratava com ele a
racha de lenha lá de casa. Peidorreiro passava o dia
inteiro rachando troncos admiráveis. Impressionava-nos
que um sujeito tão franzino, de tão insignificantes
braços, tivesse tal habilidade com o machado. À
tarde, a tulha estava abarrotada, Joaquim recebia sua paga e,
sem dizer palavra, retirava-se, o machado atravessado no ombro.
A
molecada, vendo-o passar, murmurava:
—
Lá vai o Peidorreiro.
—
Parece burro frouxo.
Dentre
nós, os mais impiedosos gritávamos:
—
Peidorreiro.
—
Burro frouxo.
Ele,
em desesperada atitude, tapava com as mãos os ouvidos,
apressava os passos, muito encolhido em si.
A
chusma não perdoava a aparição do Peidorreiro.
A existência do pobre diabo há de ter-se tornado
um martírio. E Joaquim Peidorreiro, tão sorrateiramente
quanto fez sua aparição, cumpriu seu desaparecimento.
Dizem que terá retornado para os cafundós, de
onde — segundo consta, ele mesmo dizia — nunca devia
ter saído.
Furiosa
louca era a Cascuda, Maria Cascuda, que, por ter a pele escamada,
era chamada também de Lagartixa. Atirava pedras contra
nós, corria as pernas trêmulas em nosso encalço,
muito vermelha de sua fúria espumava, prestes a estourar.
Não
sabíamos de onde vinha, parecia ter uma parente no Buraco
Quente ou na rua do Jaspe, direção que tomava
em suas aparições que ocorriam ordinariamente
à tardinha. O cabelo queimado de sol descia pelo rosto
de pele extremamente grossa, toda ela uma figura rude. Vinha
em silêncio, como se em outro mundo viesse.
Surgida
a Cascuda, escondíamo-nos atrás do muro do ginásio.
Enfurecida por nossas provocações, que choviam
de todo lado, agredia qualquer pessoa indistintamente. Daí
que mexer com a Cascuda era assunto seriíssimo. Uma vez
provocada, transformava-se numa ameaça que a custo se
continha.
Maria
Cascuda sentia-se particularmente atingida quando espirrávamos.
Não sabíamos por que, mas era só ouvir
um espirro e a pobre figura rodopiava sobre si, atordoada, ridícula
em sua dança de fúria. Vociferava nomes horríveis,
enchia de escândalo os ouvidos dos pacatos moradores daquelas
ruas. As conseqüências eram tais que fugíamos
desabalados, evitando ser descobertos pela intervenção
dos adultos que, penalizados, cometiam a temeridade de deitar
remendos em tais situações.
A
Maria Cascuda tinha uma lembrança forte em nós.
Lembrávamo-nos de uma de suas aparições
em particular, dia terrível, dia de fogo e ventos. Ninguém
podia prever que nossa pilhéria alcançasse os
resultados que alcançou. Nem se acreditava no desenvolvimento
da diabrura organizada num repente. Tudo concluiu em decantados
olhos, fingimentos e risos dissimulados pelos cantos. A maldade
dos que freqüentavam a sombra do muro do Ginásio
de Calçado desconhecia limites. Desejávamos espalhar
o terror, sossegar nossas almas impiedosas. Todo o mal era gozo.
Daí que a idéia, surgida num relâmpago e
posta em execução sem a prévia consideração
de suas terríveis conseqüências, nem pôde
ser acariciada em antegozos.
Jonas,
um de meus amigos de infância, lembrava:
— Seu Manequim estava gripado, espirrava feito um cachorro,
o nariz vermelho, redondo. Daí que lá em cima,
na rua, apareceu a Lagartixa (ou Cascuda). Nem tivemos dúvida.
Vinha
a pobre mulher cabisbaixa, há quem diga que rangia os
dentes quando a induzimos, com cariciosas admoestações,
a adentrar pela porta da Venda do Manequim. O que veio a seguir
teve a natureza de uma tempestade.
Não
sabíamos muito bem o que aconteceu lá dentro,
na segurança do muro do ginásio, mas não
foi difícil imaginá-lo, a julgar pelos rumores.
—
Seu Manequim, gripado como estava, espirrou mal a Lagartixa
entrou na venda — lembrou Henrique, outro amigo de infância.
—
E o pobre nem a viu entrando.
—
Precisavam ver-lhe a cara de espanto.
Sucedeu
dentro do estabelecimento uma tal gritaria que pusemo-nos em
estado de alarme. Em seguida, começaram a voar penicos,
baldes e bacias que Cascuda, ou Lagartixa, em sua fúria,
atirava pela porta. Quando, afinal, surgiram ela e seu Manequim
atracados num duelo canhestro, concluímos que tínhamos
ido além do permitido e que era hora de fugir. Seu Manequim,
extraordinariamente pálido e aturdido, empurrou a furiosa
mulher contra a calçada, fechando a porta apressadamente.
Cascuda, uma figura dantesca, segurava nas mãos um penico
transformado em aríete.
—
Excomungado, filho de um porco — rugia.
Terminou
num choro convulso, arriada à porta fechada. Não
demorou que as mulheres piedosas aparecessem: traziam água
com açúcar, as mães mais exaltadas começavam
a gritar pelos filhos impiedosos, nas mãos assobiavam
as varas finas.
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COM O AUTOR
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Das
aparições-parte I |
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NOTA
DO AUTOR:Este capítulo, dividido em duas partes, bem
poderia ter permanecido no texto final do livro, restando apenas
fazer algumas adaptações, mas optei por retirá-lo
em virtude de seu teor de crônica, com a justificativa
de que só faria inchar o romance. A maioria das personagens
que aqui aparecem são comuns a todos os da minha geração,
mesmo aquelas de cujos nomes não me lembrei. Acredito
que tenha fundido as figuras conhecidas como Cascuda e Lagartixa
numa só.