Das aparições – parte II



Joaquim Peidorreiro vestia-se todos os dias de um surrado terno escuro. Tinha cara de rato, era vesgo e bicudo. Manejava o machado como ninguém. Zé Benedito contratava com ele a racha de lenha lá de casa. Peidorreiro passava o dia inteiro rachando troncos admiráveis. Impressionava-nos que um sujeito tão franzino, de tão insignificantes braços, tivesse tal habilidade com o machado. À tarde, a tulha estava abarrotada, Joaquim recebia sua paga e, sem dizer palavra, retirava-se, o machado atravessado no ombro.

A molecada, vendo-o passar, murmurava:

— Lá vai o Peidorreiro.

— Parece burro frouxo.

Dentre nós, os mais impiedosos gritávamos:

— Peidorreiro.

— Burro frouxo.

Ele, em desesperada atitude, tapava com as mãos os ouvidos, apressava os passos, muito encolhido em si.

A chusma não perdoava a aparição do Peidorreiro. A existência do pobre diabo há de ter-se tornado um martírio. E Joaquim Peidorreiro, tão sorrateiramente quanto fez sua aparição, cumpriu seu desaparecimento. Dizem que terá retornado para os cafundós, de onde — segundo consta, ele mesmo dizia — nunca devia ter saído.

Furiosa louca era a Cascuda, Maria Cascuda, que, por ter a pele escamada, era chamada também de Lagartixa. Atirava pedras contra nós, corria as pernas trêmulas em nosso encalço, muito vermelha de sua fúria espumava, prestes a estourar.

Não sabíamos de onde vinha, parecia ter uma parente no Buraco Quente ou na rua do Jaspe, direção que tomava em suas aparições que ocorriam ordinariamente à tardinha. O cabelo queimado de sol descia pelo rosto de pele extremamente grossa, toda ela uma figura rude. Vinha em silêncio, como se em outro mundo viesse.

Surgida a Cascuda, escondíamo-nos atrás do muro do ginásio. Enfurecida por nossas provocações, que choviam de todo lado, agredia qualquer pessoa indistintamente. Daí que mexer com a Cascuda era assunto seriíssimo. Uma vez provocada, transformava-se numa ameaça que a custo se continha.

Maria Cascuda sentia-se particularmente atingida quando espirrávamos. Não sabíamos por que, mas era só ouvir um espirro e a pobre figura rodopiava sobre si, atordoada, ridícula em sua dança de fúria. Vociferava nomes horríveis, enchia de escândalo os ouvidos dos pacatos moradores daquelas ruas. As conseqüências eram tais que fugíamos desabalados, evitando ser descobertos pela intervenção dos adultos que, penalizados, cometiam a temeridade de deitar remendos em tais situações.

A Maria Cascuda tinha uma lembrança forte em nós. Lembrávamo-nos de uma de suas aparições em particular, dia terrível, dia de fogo e ventos. Ninguém podia prever que nossa pilhéria alcançasse os resultados que alcançou. Nem se acreditava no desenvolvimento da diabrura organizada num repente. Tudo concluiu em decantados olhos, fingimentos e risos dissimulados pelos cantos. A maldade dos que freqüentavam a sombra do muro do Ginásio de Calçado desconhecia limites. Desejávamos espalhar o terror, sossegar nossas almas impiedosas. Todo o mal era gozo. Daí que a idéia, surgida num relâmpago e posta em execução sem a prévia consideração de suas terríveis conseqüências, nem pôde ser acariciada em antegozos.

Jonas, um de meus amigos de infância, lembrava:
— Seu Manequim estava gripado, espirrava feito um cachorro, o nariz vermelho, redondo. Daí que lá em cima, na rua, apareceu a Lagartixa (ou Cascuda). Nem tivemos dúvida.

Vinha a pobre mulher cabisbaixa, há quem diga que rangia os dentes quando a induzimos, com cariciosas admoestações, a adentrar pela porta da Venda do Manequim. O que veio a seguir teve a natureza de uma tempestade.

Não sabíamos muito bem o que aconteceu lá dentro, na segurança do muro do ginásio, mas não foi difícil imaginá-lo, a julgar pelos rumores.

— Seu Manequim, gripado como estava, espirrou mal a Lagartixa entrou na venda — lembrou Henrique, outro amigo de infância.

— E o pobre nem a viu entrando.

— Precisavam ver-lhe a cara de espanto.

Sucedeu dentro do estabelecimento uma tal gritaria que pusemo-nos em estado de alarme. Em seguida, começaram a voar penicos, baldes e bacias que Cascuda, ou Lagartixa, em sua fúria, atirava pela porta. Quando, afinal, surgiram ela e seu Manequim atracados num duelo canhestro, concluímos que tínhamos ido além do permitido e que era hora de fugir. Seu Manequim, extraordinariamente pálido e aturdido, empurrou a furiosa mulher contra a calçada, fechando a porta apressadamente. Cascuda, uma figura dantesca, segurava nas mãos um penico transformado em aríete.

— Excomungado, filho de um porco — rugia.

Terminou num choro convulso, arriada à porta fechada. Não demorou que as mulheres piedosas aparecessem: traziam água com açúcar, as mães mais exaltadas começavam a gritar pelos filhos impiedosos, nas mãos assobiavam as varas finas.

CONTATO COM O AUTOR
pedrojnunes@tertulia.art.br

Das aparições-parte I


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NOTA DO AUTOR:Este capítulo, dividido em duas partes, bem poderia ter permanecido no texto final do livro, restando apenas fazer algumas adaptações, mas optei por retirá-lo em virtude de seu teor de crônica, com a justificativa de que só faria inchar o romance. A maioria das personagens que aqui aparecem são comuns a todos os da minha geração, mesmo aquelas de cujos nomes não me lembrei. Acredito que tenha fundido as figuras conhecidas como Cascuda e Lagartixa numa só.

 



 

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