Manhã de Primavera.



Acordo cedo. Seis horas. Estou de olhos fechados, ofuscados pelo sol radiante de primavera que entra pela janela. De uma primavera sem flores, haja vista que a chuva foi escassa e atrasou tudo. Não descerro a cortina e nem abro a janela, pois ela não tem cortina e também porque ficou aberta a noite toda. Privilégio de quem mora em casa alta e não temos bala perdida neste recanto tranqüilo que é São José do Calçado. De mais a mais que minha janela é de frente para a Igreja Matriz e São José vela por mim. Ainda permaneço na cama por mais uma hora reabastecendo o espírito para mais um dia de vida que se inicia promissor. Agradeço por tudo. Tenho pouco a pedir. Já distribui responsabilidades com os filhos, que têm por obrigação de se cuidarem e de suas famílias.

E que arquem com as conseqüências de seus atos. Sempre fiz o possível para não pecar por omissão. O que precisava ser dito, era dito. Agora que sigam o seu rumo, certos de que existe a lei do retorno, da qual não nos safamos. O sol indolente afasta preguiçoso as nuvens que lhe ofusca. Os majestosos Pontões, que vejo do meu quintal, ainda estão envoltos em cerração. Pássaros cantam saudando alegremente o novo dia. Os pardais voam baixinho à procura de migalhas de pão, sobra de arroz dormido que coloco no muro para eles.
Algumas pessoas descem apressadas pra pegar o ônibus que vai para Bom Jesus.

Já repararam, é tudo assim: São José, Bom Jesus, São Benedito, precisa mais proteção?

Vou para o quintal, molho minhas belas flores: margaridas brancas, amarelas, onze horas de vários matizes, "moças e velhas" coloridas, gerânios e outras mais, tão sem "pedigree” que para muitos nem valem a água, que está tão cara. Mas o importante é que realmente: "não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho".
E eu sigo à risca. Faço meu café. Delicio-me com o pãozinho francês e a manteiga saborosa, dos quais não necessito me privar. Deo Gracias!

Nada substitui o meu café com pão e manteiga. Quando saio do Brasil em excursão, é o que realmente me faz falta, pois não é como o nosso.

Caminho na minha varanda, outros na praça e mais outros no asfalto que liga nossa cidade a Bom Jesus do Norte.

Crianças passam para a escola, tagarelando. Os da zona rural chegam de ônibus. Tempos bons os de agora. No meu tempo de criança, caminhava a pé e sozinha em busca do saber. E muito me valeu, se meus olhos já viram outras plagas é graças ao estudo de outrora.

O comércio de nossa cidadezinha é toda na parte de baixo, onde há muito movimento de pessoas e carros.
Aqui reina o silêncio, só quebrado mesmo pelos estudantes.

Chego à varanda várias vezes ao dia, percorro os olhos e no máximo cinco pessoas, umas indo, outras voltando de algum lugar, tão calmo quanto.

O jardim sofrido, pedindo socorro em silêncio, talvez por isso não seja ouvido.

Não tenho como mudar, o que para mim é um pouco difícil, dado meu modo irrequieto de ser.

O dia vai passando. Sinto saudades de uma casa cheia de filhos, de seus colegas... A mesa com todas os lugares ocupados e que aos poucos foram se esvaziando.

Veio a aposentadoria. Vieram outros embates da vida. E minha garra quase se extinguiu. Mas a que ainda me resta eu a multiplico de outras formas.

Vai passando, semanas, meses, anos, tempos sem fim em que a saudade é uma constante.
Mas não me queixo.

Tenho mais é motivo para sorrir e você também, é só se dispor.

Na verdade "quem vive de passado é museu".
Viva o presente.
Vale a pena.


27/10/2006.

Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com



O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados