MEMÓRIAS DE SUSSUCA



Sussuca era a maneira carinhosa pela qual minha mãe me tratava até mais ou menos aos seis anos de idade, época em que nasci e morei em São José do Calçado. Tudo o que me lembro de ter visto, ouvido e vivido naquelas ladeiras, praças e quintais eu conto aqui. Do jeito exato em que ficou gravado na minha memória de garoto.

“Um dia eu em Andaluzia
Ouvi um cigano cantar
Havia no canto a nostalgia
De castanholas, batidas ao luar
E era uma canção tão sincera
Que eu a julguei para mim...”



Que bom que ainda não existia televisão em Calçado quando eu era criança. Ao contrário dos jovens de hoje, as minhas lembranças são todas exclusivas. Ricas, marcantes, deliciosas e só minhas. Veja bem o que aconteceu depois, o que restou depois aos que vieram ao mundo num tempo que começou ali pelo golpe de sessenta e quatro. A infância daí em diante deixou de ser uma experiência individual. Daí pra frente a memória passou a ser coletiva. Todos se lembram muito bem dos Trapalhões, da Kombi que levava à escola, do ilariê da Xuxa, dos aniversários com cobertura fotográfica, dos pacotes de papel chamex que a escola exigia e das brincadeiras limitadas às portarias dos prédios. Todos, sem exceção, se me permito um leve exagero, passaram a ter as mesmas memórias de quando um dia foram crianças.

Em Calçado dos anos quarenta minha infância foi feita de sons, aromas, paladares e imagens muito particulares. Aquela canção da qual reproduzo um trecho acima foi a primeira música que ouvi na vida. Era a canção preferida de minha mãe e a que ela cantava todas as noites para me ninar. Morávamos, então, na parte baixa da cidade, para onde nos mudamos quando completei um ano de idade. Nesta casa vivi até aos seis anos, quando meu pai foi transferido para Minas Gerais e deixamos Calçado para trás. De forma que tudo o que sei, que vivi e de que sinto ótimas recordações da minha terra natal aconteceu nestes cinco e inesquecíveis anos.

A casa tinha um enorme quintal onde meu pai plantava de tudo. Era uma horta fantástica e vinham pessoas comprar “deztões” de couve na porta. Ao lado esquerdo ficava a casa do seu Valter e de dona Sofia. Vez por outra deixavam-me assistir tocarem. Ele ao violino e ela ao piano. Dona Erci morava defronte, ao lado de dona Maria José, mulher do Afrânio, dono da venda. Um pouco depois a casa de dona Selmen e seu Sérvulo Tatagiba e seus quatorze filhos. Depois a casa de dona Noêmia. Ela tinha geladeira e, por meses, gelou diariamente um litro de água que depois do banho era derramada no dedão do meu pé esquerdo. Era um tratamento para matar um bicho-de-pé que se alojara debaixo da unha e causava muita dor e sangramento a cada topada.

Minha mãe dividia com meu pai os prazeres de cuidar da horta. Eu ajudava na rega diária e, por duas ou três vezes, ajudei meu pai a fazer a cerca de bambu do quintal que ainda abrigava um galinheiro e um chiqueirinho. Ah, sim, havia também o Fox, um cachorro branco, felpudo e bravo, preso na corrente, e, circulando por todos os ambientes, Mimi, um gato pardo que o Ivan Laude, com o seu Oldmosbille preto, houve por bem atropelar ao descer a ladeira a mil por hora. Perdoei o Ivan cinqüenta anos depois. Foi numa noite em que jogava sinuca, em Vitória, e seu irmão caçula, sabendo-me calçadense, veio falar comigo. Disse quem era. Contei-lhe então do gato. Ele tirou um celular do bolso e ligou para o Ivan em Calçado. Eram mais de onze horas da noite. Deu-me o aparelho e eu falei com um Ivan semidormindo. Disse-lhe que era a única dor que trazia de lá. Ele não se lembrava, é claro. Lamentou muito o ocorrido e eu perdoei-lhe o crime. E acabei cometendo, eu mesmo, outro pior. Acordar um quase desconhecido no meio da noite para acusá-lo do assassinato de um felino cinqüenta anos atrás não é coisa que se faça. Pelo menos não é coisa que um calçadense faça. Matar gato, também não. De qualquer forma ficaram elas por elas.

Além de papai e mamãe, morávamos naquela casa Penha, minha irmã mais velha, Maria Célia e eu. Mário, meu outro irmão, já andava pela Aeronáutica. Isto, aliás, custou-me durante muito tempo a obrigação de acompanhar minha mãe na reza diária do terço, seguido da cerimônia (extremamente assustadora para mim) de ingestão de um copo dágua, dentro do qual havia uma medalha de Nossa Senhora das Graças e que ficava presa nos lábios dela no final da cena. Todos os dias eu temia que ela engolisse a santa. Coisa que jamais aconteceu. Mas a promessa funcionou: Mário ficou reprovado e não iria mais voar. Mamãe ficou em paz. E ele foi para a Academia Militar das Agulhas Negras. Onde uma granada lhe explodiu no rosto. Mas aí mamãe já não bebia mais a água da santa.

Uma vez por semana havia uma rodinha de pif-paf lá em casa. Jogava-se a troco de uns poucos centavos e quando os parceiros saíam me lembro de meu pai contando o lucro, ou resmungando pelo prejuízo. O que se ganhava (mamãe também jogava) ficava numa caixinha em cima da cristaleira. Era dinheiro sagrado. A ele somava-se a renda da horta e da venda de jornais velhos e dos vidrinhos que eu lavava com sabão e grãos de milho e vendia ao seu Cruz da farmácia. Era o reforço para o nosso passeio anual ao Rio de Janeiro. Eu ia ao zoológico e às Lojas Americanas, e papai carregava mamãe pra assistir a Alda Garrido no Teatro Rival.
Há nessas viagens um endereço inesquecível: Rua Uruguaiana, no centro da cidade. Era lá, num sobrado, onde ficava o cabeleireiro que tingia de preto retinto os cabelos de minha mãe. Ficava horrível. Ela adorava o resultado. Papai pagava e não emitia opinião. Não era besta. Era casado. Eu só fui aprender isto vinte anos depois.

“Foi numa leva que a cabocla Maringá
ficou sendo a retirante
que mais dava o que falar...”

A pracinha, meio triangular, ficava quase em frente à casa do seu Sérvulo e dava um lado para a farmácia do seu Cruz, outro pra Coletoria Federal (meu pai era o coletor) e outro para o Banco de Calçado. Penha, minha irmã, trabalhava lá. Em cima do banco moravam seus donos e de praticamente Calçado inteira, Pedro Vieira e dona Mercês Garcia, uma professora brilhante – falava francês fluentemente – e uma senhora muito distinta e elegante que dirigia um Austin verde a caminho do famoso Ginásio de Calçado, também de propriedade do casal. Eram compadres de meus pais. Ouvi muitas vezes minha mãe dizer, quando se arrumava para a missa do domingo: “Sou mais feliz do que a Mercês! Pra ir à missa só tenho este vestido. Ela perde horas escolhendo um!”

Foi nesta praça, onde havia um alto-falante do serviço de som do Jair Melo, que ouvi pela primeira vez a guarânia Maringá. Tanto tocava que em pouco tempo aprendi a letra. Cantei muito Maringá pela vida afora. Na praça, além do serviço de alto-falantes, outras lembranças me calam fortes: a primeira amiguinha, Marita, filha do seu Homero, dono da farmácia ao lado da coletoria. Brincamos muito perseguindo as taturanas que caíam dos pés de fícus. A bomba de gasolina era outro espetáculo à parte. Era uma armação de ferro cilíndrica de uns dois metros de altura, toda pintada de vermelho. Na altura dos braços dos adultos havia uma alavanca vertical que, movida para um lado e para o outro, enchia de gasolina a parte superior, que era de vidro e graduado em litros como se fora uma mamadeira gigante. Depois era só despejá-la, pela mangueira, no tanque dos carros. Que eram pouquíssimos. Quando um encostava juntava a garotada pra ver. Era um show. Calculo que se enchia um tanque de quatro em quatro litros. Pressa? Ela não morava em Calçado.
Melhor do que a praça era a casa do dono do cartório, o seu Sérvulo. Aquele montão de filhos garantia o alvoroço que toda criança adora. Por ser da minha idade, meu companheiro de molecagem era o Servinho. Assim como, duas ou três casas depois, era o Cláudio, filho do Afrânio. O Luiz Carlos e o Zé Augusto, filhos de dona Erci, eram meus parceiros no jogo de ferrinho. Lembro-me de brincar com eles só depois das chuvas. À casa do Dr. Lourismário, fui poucas vezes. Era uma casa de cerimônia. Seus filhos, Carlos José e Nilo, eram mais, digamos assim, formais. Talvez por serem filhos de juiz. Mas nada que impedisse o Nilo de comer torrões de terra vermelha do barranco. Horrorizado, cheguei em casa contando pra minha mãe. Ela, muito calma, perguntou: “A Menaide viu? Não? Vou falar pra ela. Não se impressione, não. Ele deve estar com vermes.” Por outro lado foi lá que vi e comi camarão pela primeira vez na vida. Camarão em lata. Tenho quase certeza que era da Armour. Adorei.

Outro amigo inesquecível era o Maroquinhas. Filho do leiteiro e que morava ali pelos lados da casa da Maria do Grilo. Depois de ajudar o pai na entrega ele vinha até minha casa pra gente brincar. Ele e seus tamanquinhos. E de tanto eu pedir, meu pai comprou um par pra mim também. Nos poucos meses em que freqüentei o Grupo Escolar, como ouvinte, lá íamos nós dois ladeira acima, batendo os tamancos contra a sola dos pés, levando na mão o Caderno nº 1, aquele azul anil, o lápis com a borracha encarrapitada na ponta e a Cartilha do Bitu. E na minha merendeira um pão de sal lambuzado com leite condensado e que eu dividia com o Marocas.

À casa de Maria do Grilo eu ia de vez em quando com minha mãe. Ela lavava a nossa roupa e todos lá em casa gostavam muito dela. Era mãe da Cornélia, que veio a se transformar numa quituteira de mancheias. Anos depois, quando voltamos de Minas para morar em Bom Jesus do Itabapoana, Cornélia foi a responsável por um verdadeiro banquete organizado para comemorar meu quinze anos.

Mas o que eu sempre queria mesmo era ir sozinho a casa de Maria do Grilo depois dos temporais. O campinho que não me seduzia nas peladas me tentava para o proibido banho na lagoa deixada pela chuva. Sonhava em farrear naquela piscina com a molecada. Mas só em sonho mesmo. Mamãe dizia que eu podia pegar tifo.

A casa do seu Sérvulo tinha um enorme quintal por onde corria um córrego cercado de pés de inhame e sobre o qual se debruçava um chiqueiro. A noite ali era um breu. Lá também rolava um carteado, alternado com o lá de casa. Sempre a mesma turminha: seu Sérvulo, Dr. Lourismário, papai. Anos mais tarde, na Praia da Areia Preta, em Guarapari, um amigo da terrinha contou o acontecido numa daquelas noites depois que nos mudamos da cidade. Com a partida também do Dr. Lourismário, veio um novo juiz pra Calçado. Correu a boca miúda que o novo magistrado não só não jogava baralho como combatia febrilmente este tipo de contravenção. As partidas foram então suspensas até se ter a certeza de que a coisa era mesmo séria. Um mês depois e a turma já estava que não se agüentava de tanta vontade. Decidiram então que jogariam na mesa da cozinha do seu Sérvulo, já que a casa que abrigava quatorze filhos era imensa e quem passasse na rua não notaria a luz acesa tarde da noite. Naquela época, depois das dez, luz acesa dentro de casa ou era pif-paf ou tinha alguém passando mal.

Felizes e falantes (Seu Sérvulo falava muito durante o jogo. Lembro-me muito bem de meu pai reclamando com ele, quando o jogo era lá em casa.), esquecidos da vida, o jogo ia animadíssimo até que alguém bateu palmas na porta. Da cozinha não dava para ouvir. Um dos meninos atendeu e foi lá dentro avisar que o juiz queria falar com o dono da casa. Como num redemoinho cada um agarrou as cartas que pôde, a caixinha de fichas, o dinheiro, e correram todos para o quintal, indo se meter dentro do córrego, debaixo das folhas do inhame. E no meio daquela escuridão o único som, o gorgolejar do regato, foi quebrado pelos porcos que iniciaram um alvoroço infernal. E tudo se acabou com a figura simpática do novo juiz, que pedia uma beiradinha na mesa. Soubera da diversão semanal e não resistira.

Voltaram todos a jogar. Meio que sem graça, com os sapatos encharcados e felizes da vida com o sucessor do Dr. Lourismário.

Subindo a ladeira, do lado esquerdo havia uma sinuca e ao lado um barzinho onde a gente comprava “maron”. Um doce de coco queimado com gosto de quero mais. Subindo um pouco mais e já do lado direito moravam dona Amélia e Dr.Aristides, compadres de meus pais. Ele era o médico da cidade e figura muito querida. Um ou outro domingo, depois da missa, fazíamos uma visitinha. Havia sempre um bolo gostoso à nossa espera. Dona Amélia, sabíamos todos, não saía de casa. Parece que era uma promessa. Lembro-me desta frase lá em casa: Fora da missa de domingo, nunca vi Amélia na rua. No topo da ladeira, virando à esquerda, ficava a casa de Neiphi Habib, farmacêutica formada no Rio de Janeiro e amiga de minhas irmãs. Seguindo a moda, segundo se contava ela acrescentou um “Terezinha” antes do primeiro nome. Tempos mais tarde, com a volta da moda dos nomes estrangeiros, dispensou o Terezinha e voltou ao a ser simplesmente Neiphi. Achei a história o máximo.

Indo para o outro lado havia a loja do Laude, na esquina. Ao lado havia um bar e depois a barbearia do seu Domingos, marido da Audi e pai do Aldo. Era lá que, sábado sim, sábado não, meu pai me levava para cortar cabelo. Doía muito. Aquela máquina manual ia subindo pela nuca e quando puxada para traz levava junto um punhado de fios. Doía e eu abria o berreiro. Seu Domingos tentava aliviar a dor oferecendo uma penca de bananas-ouro. Ele continuava cortando, meu pai fazendo cara feia, que era pra eu agüentar firme, e eu comendo as bananas, tentando engolir o choro.

Depois da barbearia, e antes da agência dos Correios (onde era radiotelegrafista o Lauro Sá, que muitos anos depois veio a se casar com Penha, minha irmã mais velha), ficava o consultório do seu Laerce. Era um dentista prático e atendia a todos na cidade. Fui lá uma única vez. Ele me obturou um dente. O equipamento de tortura, digamos assim, seria inimaginável nos dias de hoje. O “motor” que fazia girar a broca era movido a pedal. Com o pé direito ele pedalava e o par de fieiras dava à maldita broca a velocidade maior ou menor, dependendo do serviço, e, o que era pior, da atenção ou desatenção de quem operava. Um horror! Nesta mesma sessão ele me extraiu um dente de leite. Saiu muito sangue. Ao deixar o consultório, ele perguntou se eu sabia ler. Disse-lhe que não. Ele então apontou o aviso pregado na parede e leu para mim: “Não cuspa na calçada”. Não cuspi no trecho em frente ao consultório. Mas deixei um rastro de sangue até em casa. Apesar do lenço, passaporte indispensável para quem ia ao dentista.

O cinema ficava depois da praça, à direita de quem descia para a ponte do Zé Feres. Eu ia aos domingos, desde que não roesse as unhas durante a semana. Ia à noite também, mas a volta ladeira abaixo, meio acordado, meio dormindo, era sempre no colo de Penha, minha irmã e madrinha.

“Chiquita bacana
lá da Martinica
Se veste com a casca
Da banana nanica”

O carnaval no bar do seu Luizão foi, aos cinco anos, fundamental como bagagem na minha vida de folião até os dias de hoje. Foi lá que, sentado em cima de uma mesa, agarrado na cintura de minha mãe, caí na folia pela primeira vez na vida. Papai e mamãe em pé, ao lado da mesa, sacolejavam-se e me ensinavam a “pular” e a cantar as marchinhas e as marchas-ranchos que animavam a época. Chiquita Bacana aprendi logo. Levei algum tempo – a letra era grande – para cantar a Estrela Dalva. Foi ali que aprendi a usar o confete e a serpentina. Com os restos de serpentina, recolhidos depois do carnaval, faziam-se umas sanfoninhas, dobrando-se sem parar dois pedaços daquelas tiras coloridas. As sanfonas eram lisas ou bicolores. E dava para variar bem os matizes, já que elas vinham em cinco cores: verde, amarela, vermelha, azul e branca.

Havia uma alegria extra: no banho do dia seguinte encontrar, ainda perdidos, dois ou três confetes (“pedacinhos coloridos de saudade...”) debaixo dos cabelos. E também sonhar com o próximo carnaval metido numa fantasia de pirata. Não que aquele arremedo de índio (duas toalhas de rosto costuradas deixando um buraco para a cabeça passar e mais dois para os braços, dois pedaços de esparadrapo em cada bochecha e, na cabeça, presa a um elástico, a pena da galinha carijó do nosso quintal) não recebesse elogios. Mas... pirata era pirata. Tinha espada, capa e brinco na orelha. E um lenço verde na cabeça.

“Dai-nos a fé, oh! Virgem”.
O manto nosso abençoai
Queremos Deus que é o nosso rei
Queremos Deus que é o nosso pai...’

Meu segundo nome é José. Marcos José. Nasci em 16 de março no pensionato onde morávamos e que abrigava alunas, de outras cidades, que vinham estudar no Colégio de Calçado. Ele ficava ali onde hoje é o Montanha Clube e era gerenciado por minha mãe. Dizia-se que tive nos primeiros anos de vida dezesseis babás ao mesmo tempo. Era o número de pensionistas, e com elas formávamos uma enorme família. Três dias depois do meu nascimento a passagem da procissão de São José pela nossa porta emocionou minha mãe, a ponto de acrescentar ao meu o nome do santo. Era a mais concorrida procissão da cidade. Mas a minha preferida, confesso, era a, teoricamente, mais triste: a procissão do Senhor Morto, na Semana Santa. Sem cantorias, mas ao som sensacional das matracas! Aquele pedaço de tábua com uma alça de arame grosso de cada lado e que, sacudida, dava um tom grave e soturno àquela ocasião. Não me lembro do som delas em nenhuma outra cidade onde morei. Pra mim as matracas são calçadenses.

Camisa branca, calça azul-marinho curta e engomada e os sapatos pretos de verniz. Assim trajado, sentindo-me muito elegante, subi contrariadado a ladeira para ser crismado na Igreja de São José. Meu padrinho veio de Vitória, meu primo Roberto Petrochi. Uma figura muito querida e engraçada, encheu nossa casa de alegria. Mas nada disto tirava da minha cabeça os comentários que ouvira nas vésperas. Diziam que o bispo Dom Luiz Scortegagna era um tipo muito brincalhão e que, após fazer as cruzes da crisma com os óleos bentos, encerrava a cerimônia com um tapa na testa da gente. Fui pra lá assustado. E foi tiro e queda. Levei um tapa de estalo e não achei um pingo de graça na cara risonha de Sua Eminência. Tentei esconder o choro. Não ficava bem um menino chorar. Salvou-me meu padrinho, que garantiu que eu chorei de raiva. Mamãe não concordou. Não ficava bem sentir raiva naquela hora. E passou anos e anos dizendo pra mim que D. Luiz era um santo homem. Pois sim!

Agora, engraçada mesmo era a história dos leques. Não sei se minha mãe ouviu de alguém ou ela mesma inventou. Nas missas de domingo, nos meses de calor, todas as mulheres assistiam às missas se abanando com leques. E ela dizia: “Repare só nas diferenças de movimento. As senhoras viúvas se abanam com muita lerdeza e alheamento. Parecem dizer: ‘Eu tinha, mas já se foi, eu tinha, mas já se foi...’ As casadas imprimem um ritmo mais cadenciado e firme e é como se falassem: ‘Eu tenho, e é só meu, eu tenho e é só meu’ Já as solteiras produzem um abanar frenético, como se dissessem: ‘Não vejo a hora, não vejo a hora.’”

“Desanda roda, desanda roda.
Hoje eu quero, hoje eu quero me casar.
A moça que está na roda
Escolhe o moço que agradar...”

As brincadeiras de roda, de jogar belisca (Aquelas cinco pedrinhas, arredondadas nas beiradas de calçada. Jogava-se uma para cima e pegavam-se as outras com a mesma mão antes que a primeira caísse.), de peteca, de passar o anel, de jogar pião, de soltar pipa, de ferrinho e de todas as outras não me atraíam muito. Filho de pais de meia-idade, como se dizia à época, o mundo adulto tinha, para mim, mais encantos. Cuidar da horta era o meu programa diário preferido. Dormir uma noite da semana no quarto de Penha, minha irmã, para ouvir, junto com ela, o programa de tangos “Salão Grená”, da Rádio Nacional, era demais! Visitar dona Zizi e ouvir, na beira do seu fogão de pó de serra, o filho Antônio João cantando e tocando violão também me dava muito prazer.

E de todos estes prazeres de gente grande, um domingo inteiro no sítio onde moravam seu Luizinho e dona Carolina era talvez o maior deles. Seu Luizinho era escrivão federal e trabalhava com meu pai. Dona Carolina era bamba na feitura de doces. Cristalizados ou em conserva, aquelas delícias já podiam ser vistas tão logo a gente entrava na sala. Ficavam em cima de um móvel e eu não via a hora em que seriam oferecidas.
O sítio ficava ali para trás do ginásio da dona Mercês. Ia-se caminhando pela estradinha até um ponto onde ficava a porteira que dava acesso a casa, no final de uma ladeirinha que descia. A chave que abria o cadeado ficava escondida no buraco de uma grande pedra sombreada por um arbusto qualquer.

Antes do almoço eu descia, com meu pai e seu canivete, até o pomar em busca da mais doce das laranjas. Depois do almoço me punham para dormir num quarto com piso de tábuas largas. Pelas frestas do chão a fresca da tarde que subia do pomar trazia o sono e o cheiro doce das carambolas. Na volta, além do vidro de compota de figo ou de laranja-da-terra, havia sempre uma mudinha de avenca que o carinho de dona Carolina fazia questão de nos presentear. Mas o melhor de tudo era o convite para voltar outra vez.

Depois que saí, voltei muito pouco a Calçado. Muito menos do que gostaria. Mas o lençol branco sacudido pelo vento no varal de arame farpado da Maria do Grilo continua seu aceno nas minhas lembranças. Nunca foi para mim um adeus. Para quem começou a conhecer o mundo ali, habitado por gente tão boa e feliz, ele será sempre um até breve.

Vitória, outubro de 2005.
Marcos Alencar


Marcos Alencar
Nasceu em São José do Calçado em 16 de março de 1946 numa noite de tempestade. Cursou o primário em São João de Nepomuceno (MG) e o ginásio em Bom Jesus do Itabapoana (RJ). Mudou-se para Vitória, onde fez o segundo grau no Colégio Salesiano e Economia na Ufes. Mas foi como redator publicitário e diretor de criação que ele ganhou a vida profissionalmente. Cronista, começou a publicar seus textos no O Diário. Depois escreveu em A Tribuna e depois em A Gazeta, onde escreveu por muitos anos. Publicou quatro livros de crônicas: Três anos de chorinho, Adoráveis peruas, Aceita um Lexotan? e O segredo da grã-fina. É membro da Academia Calçadense de Letras e da Academia Cachoeirense de Letras. Atualmente produz crônicas para o site Rede de Notícias.com.br. É o atual diretor-presidente da Rádio e TV Educativa do Espírito Santo.

Pedro J Nunes

 



 

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