Na Olaria


 



I


Lico,a quem a cachaça há muito tirara o sono,nem pensou em ir em casa dormir e mudar de roupa.Assim como fora para a festa junina na Rocinha,assim ia para o serviço na olaria,numa segunda-feira fria.
Estava meio escuro.Apenas alguns raios de sol tentavam romper o denso nevoeiro que se formara.Sua cabeça doía por efeito do quentão e da cachaça pura que bebera em generosa quantidade.Mais doeu ainda quando teve que fazer um maior esforço para subir a pequena rampa de terra que dava acesso ao campo de futebol e ao caminho de terra que ia ter à olaria.Vencida a subidinha à toa,olhou primeiro,como sempre fazia,para a vendinha de pinga e cigarro,debaixo do grande jequitibá chamado pelos locais de Árvore dos Melros,e atrás dos paus do gol,a lamentar que ela não estivesse aberta,pois seu cigarro estava acabando.Mas foi uma reação automática, a sua,já que ele sabia que ela não estaria aberta àquela hora.O jeito era filar cigarro dos outros,assim como tinham filado muitos dos seus na festa.
Reparou que uma figura humana,de cabeça levantada,examinava a árvore,talvez admirando-se da longa cabeleira formada pela erva-de-passarinho, que quase se arrastava pelo chão,ou talvez quisesse reconhecer qual a família de melro que agora chocava no ápice de seu tronco.Lico então dirigiu-se para a árvore.Viu que o homem era o Alceu,quem sabe um pouco mais magro e abatido.
"Ora,ora,eu sei que operação de apêndice não é nada,mas já de volta?
Alceu virou-se,encarou Lico nos olhos e disse:
"É Líco,tudo é mais simples do que parece ... Mas há algumas complicações que a gente não espera encontrar".
"Que complicações, homem?Vamos entrar",e apontou com o dedo a olaria ,“e esperar o pessoal no quente.Tá um frio miserável.” "Sim,vamos.Tenho um comunicado muito importante a fazer". "Que comunicado?” "Você vai saber". E os dois foram andando,ombro a ombro,a conversar.

II

A área total ocupada pela olaria não era grande e a parte coberta equivalia àquela sem cobertura.Abrigados estavam o escritório do administrador,o forno para a queimação dos tijolos e telhas,a máquina de prensagem,as filas de prateleiras para armazenagem dos produtos acabados,o banheiro,uma espécie de sala de estar dos homens,com uma tora por assento.O pátio para a secagem dos produtos recentemente feitos,em prateleiras mais toscas,e o local reservado ao carregamento e descarregamento do caminhão estavam ao ar livre.Quando ameaçava chuva,uma lona preta era estendida sobre eles.
Lico enfiou a chave e abriu o portão de entrada.Tudo na bendita paz do intocado.À direita,o escritório do administrador estava fechado.Entre este e a porta que dava entrada ao barro para ser trabalhado fora construído um pequeno ateliê fechado por frágeis divisórias,dentro do qual Alceu confeccionava obras em porcelana--última cartada da olaria para continuar a sobreviver com algum lucro.Dentro de um espaço exíguo,ficavam o torno de mão para a modelagem em gesso das formas,isto é,as matrizes a partir das quais seriam criadas as peças de porcelana;as matérias-primas para a estampagem dentro de grandes potes,e a mesa para a pintura,retoque e esmaltação das peças antes de serem levadas ao forno.
Adiante,a máquina de moldagem parecia um inseto enorme com a pinça pousada na bancada de madeira a tentar perfurá-la.E brilhou com reflexos metálicos quando Lico ligou a chave de energia.A luz inundou o ambiente.
"É claro que você não veio para trabalhar, não é?",perguntou Lico.”Trabalhar?Acho que não...”
"Então vamos sentar na tora e conversar--disse Lico,com uma rísada.A dor-de-cabeça deu-lhe mais uma vez a prova de que ela não pretendia deixá-lo tão cedo.
Sentaram-se numa grossa tora cuja parte superior tinha sido desbastada até formar assentos lisos.
Líco observou que Alceu tinha uma expressão distante de alguém que parecia meditar continuamente. Quando olhava para algo parecia como quem via tudo pela primeira vez.Um olhar de surpresa pasmada.
"Êta festa junina de arromba,muita comida,muita bebida,muita brincadeira”, disse Lico."Imagino.E a sua vida,Lico,como vai?”
“Minha vida vai na mesma.Aquele tipo de vida que vocês,casados,conheceram antes do casamento e nem devem se lembrar mais.”Mas de repente Lico sentiu dentro de si uma emoção como nunca sentira.Um forte desejo de botar para fora todas as suas preocupações,como se elas tivessem sido fisgadas num anzol e o pescador puxasse a vara com suma perícia.Contra sua vontade,sentiu sua boca mexer e falar:
“Minha mãe estava enlouquecendo,Alceu,e o pior é que ela sabia que estava perdendo a razão aos poucos.O médico do hospital disse que nada podia ser feito.Tudo começou faz uns dois anos.Um dia quando me levantei para vir trabalhar,ela me parou na porta e me pediu chorando que eu não a deixasse sozinha em casa.Quase que dei uma risada porque minha mãe nunca teve medo de nada.Mas ela não estava brincando.Aquele dia chequei atrasado e levei uma senhora bronca de Seu Taveira.Todo mundo pensou que era a cachaça ... Bom,das outras vezes,até que era ... Mas daquela,não.Mas agüentei quieto.O quê que eu ia dizer?Se eu dissesse a verdade ninguém ia me acreditar. Daquele dia em diante,tudo foi só piorando para minha mãe.Ela não conseguia fazer mais nossa comida.Trocava o sal pelo açúcar,não sabia mais como fazer o arroz,deixava o feijão torrar na panela,trazia lenha verde para casa;do primeiro charco que encontrasse, pegava a água e enchia a bilha.Água para banho,nem pensar.Foi então que chamei uma filha da Rita,essa escura forte que mora aqui perto, para fazer a comida e cuidar de minha mãe.Tudo desandou em menos de uma semana.Minha mãe começou a dizer que "aquela estranha",assim ela chamava a filha da Rita,estava querendo matá-la.Tinha dias que ela ficava uma fúria e jogava tudo o que ela via contra a pretinha que,por fim,pediu para sair.Meu barraco deixou de ser moradia.Virou a prisão de minha mãe.Preguei as janelas,não deixava nada com que ela pudesse se ferir,eu mesmo fazia a nossa comida.Nunca quis mandar minha mãe para uma casa de maluco em Itaperuna ou Campos.Não tinha coragem.Agora vi que errei.Devia ter mandado.Acho que as coisas se inverteram.Ela virou neném e eu virei a mãe dela.Não tínhamos nenhum parente em Calçado.Os que moravam em outras cidades e souberam da nossa situação, é que não apareciam mesmo.Pena eu ser filho único.Se ela tivesse tido uma filha mulher,seria melhor.Você sabe,mulher tem mais jeito para as coisas que tinha de fazer para minha mãe.Tinha dias que bebia muito além da conta para esquecer nossa situação.Não era fácil .... Até que outro dia,vi que a pobrezinha aparava com a caneca a própria urina e a bebia como se límpida água fosse.Até o próprio excremento ela metia na boca. Mas as crianças novinhas não fazem o mesmo? 0 cocô,afinal de contas,não é a comida um pouquinho mais estragada?E mais,quem viu o comecinho dos intestinos,logo depois do ânus, notou se existe diferença dele para a da parte de dentro de nossa bochecha?E o papel higiênico de rico não é parecido com o guardanapo também de rico com que ele limpa a boca depois da comida? Mas isso é mais fácil de falar e pensar ... No diário é que somos testados mesmo,e foi nele que me perdi ... Um dia,peguei uma sacola plástica,passei na cabeça dela até o pescoço e a sufoquei.
E pela primeira vez na vida Lico chorou de soluçar não só na frente de outra pessoa mas desde que se conhecia por gente.E o mais estranho é que não sentiu nem um pingo de vergonha.Só de alívio.Um alívio como nunca tinha sentido antes.
Alceu ouviu toda a estória de Lico em silêncio.Assim que ele terminou,disse-lhe que qualquer um na situação dele poderia ter feito o mesmo com a mãe.Que ele se perdoasse a si próprio,que fosse à justiça e confessasse o seu crime mas que,antes,lhe fizesse um favor.
"Qualquer favor,meu amigo.Esse peso que eu carregava na consciência estava destruindo minha vida.Nunca tive coragem de confessá-lo a ninguém,nem mesmo a você. Hoje, porém, não sei o que me deu.Senti uma vontade maior do que a minha abrir minha boca e me fazer confessar a você o meu crime.Seja o que for que tenha acontecido,aconteceu em sua presença e,portanto,deve ter alguma coisa ligada à sua pessoa,Alceu,que nem tento entender.Só gostaria de lhe agradecer muito.Parece que Deus o mandou hoje em meu socorro".
Mas deu para disfarçar quando o Clênio e o Túlio chegaram juntos.Estavam numa animada conversa.Túlio,antes de nos ver,disse de modo enfático para Clênio:
"Você,seu mulato metido,depois que passou a freqüentar as aulas noturnas,está insuportável.Quer ficar mais sabichão,vai estudar no Rio de Janeiro e deixe a gente em paz com a nossa ignorância".
Quando Túlio viu Alceu e Lico sentados na tora,deu um bom dia aos dois e disse a Alceu:
"Afinal,você foi operado de apêndice ou fimose?
“Preferia ter sido operado de fimose.Assim talvez não tivesse ... Bem,mas sobre o que vocês dois estavam conversando"?
Clênio cumprimentou Alceu e explicou:
“Eu só estava dizendo para esse animal aí que soube na minha escola noturna que os antigos pensavam em erguer a cidade de Calçado aqui na Fazenda Velha.Tudo ia começar a partir daqui, mas depois resolveram ir mais adiante e plantar a cidade em terreno de cabrito,mais bonito,sim,para moradia de três ou quatro famílias,mas muito ruim para uma cidade.O que começa errado,errado fica.O Túlio não entendeu nada.Pensa que por que a gente tem só uma vendinha de pinga aqui,isso é prova que os antigos estavam certos.Esquece que quando eles foram para mais adiante,tudo aqui na Fazenda Velha caiu na mão dos desbravadores e virou propriedade particular e a partir daí ninguém mais ia poder criar comércio nem indústria. Resultado: nem fizeram onde hoje está a cidade nem puderam mais fazer aqui.Você precisa de muita ginástica de
cabeça para me acompanhar,Tulinho".
Túlio,aproveitando que Clênio tomava ar para continuar a falar e espicaçado pela deturpação de seu nome,retrucou:
"Ginástica de cabeça já faço sem precisar conversar com você.Minha cara-metade,aquela caninana,todo santo dia tem que me perguntar por que estou chegando em casa às duas da matina,caneado e com cheiro de mulher pelo corpo, e tenho que inventar uma mentira nova todo santo dia,que ela guarda todas as já velhas.Acho que já faço ginástica mental até demais.Minha capacidade de inventoria já tá no último furo. Vocês conheceram a Vicença?Pois dizem que ela pariu o Zé Venâncio enquanto roçava pasto e só foi dar acordo de si depois que o Zé bateu a cabeça no chão e abriu um berreiro que já durava um par de minuto.Daí ele ter ficado meio bambo do juízo.Eu nasci na cama".
"E não adiantou de nada e nasceu tão burro quanto o Zé”,caçoou Clênio.


III


Em Calçado,pouco mais tarde,uma jovem senhora tomou um carro de praça e mandou o motorista tocar para Itaperuna.
"Qual a sua graça,que mal lhe pergunte?”, puxou conversa o chofer.
"Eu me chamo Ana,moço.Tenho pressa,por favor".
"Daqui até Itaperuna é um pulo.Este carro não é tão novo quanto os outros mas tenha a certeza que chegaremos ainda hoje ao nosso destinou.
"Assim espero.Só entrei no seu carro porque os outros parece que sumiram".
`"A senhora vai ficar minha freguesa,pode ter certeza disso.Os outros não estão aqui porque ontem foi o domingo dos casamentos.Para desgraça minha,comi uns torresmos em casa e não me senti bem.Fiquei de molho o domingo todo,escornado num sofá.Pois é.Teve um em Alegoria,outro em São Benedito e um fazendeiro do Jacá matou três garrotes e não sei quantas leitoas para o casamento da caçula dele.Dizem que pelo pai,a filha não se casava nunca.Era o xodó dele.--Sai da frente,seu filho da mãe!--,gritou quando um moleque fazia visagens em frente do carro--"Quer morrer,corisco?!—“Moleque é um perigo na rua.Se eu fosse delegado,criança só ia poder andar na calçada.Depois que completasse os dezesseis anos,aí sim,ia poder atravessar a rua desacompanhada.A gente pega um moleque desses e depois o pai pega em nosso pé e não larga.”
Enquanto o motorista falava pelos cotovelos,Ana ía lembrando de sua vida com o seu marido desde o namoro. Alceu conhecera Ana Rosal na festa da cidade.Os pais da moça eram colonos no Jacá e os de Alceu,na Fazenda Velha.À princípio,não viam com bons olhos o namoro.Queriam um partido com melhor perspectiva social e financeira.Os pais da moça tinham o seu orgulho:duas das irmãs de Ana eram professoras primárias bem conceituadas em Calçado e Bom Jesus.Seus pais fizeram sacrifício para lhes dar educação e torná-las professoras.Não ficava bem,portanto,entregar a filha caçula e,por sinal,a mais bonita das três, a um homem sem eira nem beira.A favor de Alceu estavam a sua viva inteligência,a sua bem apessoada figura e o profundo respeito com que tratava os pais de Ana.Esta era uma mocinha baixa mas de membros bem proporcionados,cabelos castanho-claros partidos ao meio e curtos,um rosto de pele clara e muito expressivo,com um quê de tristeza que lhe ia muito bem.Olhos castanhos bem implantados nas órbitas, que tendiam a formar olheiras,mas nada de alarmante e que só duravam enquanto ela estava sob grande tensão emocional.Nariz arrebitado,queixo fino e rosto entre quadrado e ovalado.O pescoço era delicado,como também o eram os seios.Já as mãos eram grandes para seu corpo,se bem que os dedos fossem finos,e definitivamente não eram mãos de uma trabalhadora rural.Alceu encantou-se por ela logo que a viu.Era espirituosa e aproveitara muito bem o sacrifício dos pais em lhe darem instrução.Certa vez um dos muitos vates de que a cidade é pródiga, mandou-lhe uma carta com um longo poema sobre os seus evidentes encantos.Um deles começava assim:”De teu útero ambos haveremos filhos infinitos”. Respondeu -lhe ela pelo mesmo papel e portador,não se esquecendo de tirar uma cópia da rápida troca de mensagens:”Pensa que sou uma porca,imbecil?"Ao que lhe replicou o vate:”Será que as moças hodiernas repulsam tanto o cantá-las que para tal terei que entrar com processo na justiça?.Ana mostrou as cartas a Alceu e ambos deram grandes gargalhadas.
Depois de casados foram morar numa casinha no final da rua Quinze. Lembravam com deleite dos tempos de namoro quando iam ao campo do Americano,e sob a parca sombra dos altos eucaliptos,sentados em arquibancadas de madeira ou mesmo no chão,assistiam aos jogos.Ana assustava-se sempre quando aqueles homens robustos vinham disputar a bola perto de onde estavam os dois e achegava-se a Alceu,quase o abraçando de medo.”São só marmanjos,Aninha", brincava Alceu,mas para ela,nesses momentos,a bola era um objeto formidável,e os homens,com os baques surdos das chuteiras e o recontro violento de ombros,peitos e braços,assemelhavam-se a gladiadores romanos ou guerreiros da Antiguidade, que via no cinema,verdadeiras batalhas de homens poderosos como deuses,cheirando forte na abundância do suor pela posse da bola,enquanto os namorados chupavam laranjas descascadas pelo laranjeiro na máquina manual, que ia cortando circularmente a casca,do começo ao fim.Pegando delicadamente as pontas,Ana reconstituía a laranja ao seu formato primitivo para depois,segurando ainda nas pontas,formar uma tira chata como fita métrica.
Seu amor por Alceu chegava lhe doer,e o de Alceu por ela era tão intenso que estava muito além da expressão,fosse em gestos,fosse em palavras.Mas um amor assim não poderia ser equivalente à absoluta indiferença?Alceu só esperava que ela o percebesse de alguma forma,pois morreria de desespero se o seu amor por ela não encontrasse meios próprios de tocá-la sem que nenhuma dúvida,por mínima que fosse,subsistisse.
Tiveram apenas uma filha,que era tudo para Alceu.Aos 8 anos foi raptada por um homem aparentemente normal de Bom lesus,e estuprada e morta.Quando localizaram seu corpo,Alceu não derramou uma gota de lágrima mas seus longos cabelos castanhos ficaram totalmente brancos do dia para a noite.Continuou a trabalhar como se nada houvesse acontecido, porém,fechara-se num mutismo que nada nem ninguém conseguia penetrar.Certo dia lhe disseram para dar um pulinho num Centro Espírita.Foi e depois de muitas freqüências e leituras dos livros da doutrina,Ana,um dia,por acaso, viu-o sentado na sua poltrona favorita em casa e de seus olhos desciam lágrimas aos borbotões, represadas, mas sem outro indicativo de choro.Lágrimas silenciosas.Na olaria começou a modelar diversas figuras nas horas vagas,dentre as quais sobressaiam as representações de meninas que encantavam quantos as viam.
"Estamos quase chegando em Itaperuna,senhora Ana”.Ela teve um sobressalto e aí compreendeu o quanto estava embebida em suas recordações.


IV

Conforme o sol saía e se firmava, o dia ia esquentando.Às 9 horas chegou Seu Taveira,o administrador da olaria.Sempre de bom-humor,admirou-se de Alceu estar ali,junto com os outros três homens,sentados na tora e a conversar.
"Bom dia!Vejam só se não é o nosso homem!Seja bem-vindo,Alceu!Ainda não foi desta vez,hein?Mas é uma temeridade vir trabalhar tão cedo.Por quê lhe deram alta assim tão rápido?Nem uma semana no hospital.A medicina está desenvolvida,eu mesmo tenho válvulas artificiais no peito e sou um forte candidato a um transplante de coração,mas você exagerou,meu amigo ... Mas,mudando de assunto,e aproveitando a sua presença,Alceu, pergunto: alguém em Itaperuna ou Campos gostou de suas obras de cerâmica e porcelana?O futuro da olaria está em suas mãos".
"Vendi todas as peças que levei,Seu Taveira,e teria vendido mais se mais tivesse levado.Não pude manter maior contato com potenciais compradores devido ao meu probleminha de saúde,que me levou às pressas ao hospital.Quanto ao futuro de nossa olaria,se está em minhas mãos,está em mãos um tanto vaporosas", disse Alceu,sorrindo enigmaticamente".
"Vaporosas?! Vaporosas, uma ova!Em mãos firmes e hábeis,isto sim",retrucou Seu Taveira,pondo as mãos nos quadris.
"Seja como for,Seu Taveira,estou aqui hoje para fazer uma revelação desagradável,se me permite..."
"À vontade,Alceu.O menino ainda nem trouxe a junta de bois.E a quentura do forno pede uma prosa ou uma revelação,como você diz. Desagradável!?Vamos ouvi-lo,não importa”,atalhou Seu Taveira,abrindo a porta de seu escritório e puxando uma cadeira.Alceu então se levantou da tora,posicionou-se entre os três homens e seu Taveira e já ia falar quando Clênio se antecipou:
"Fala,Alceu porcelana.Vai fazer um sermão pra gente?".
"Cala a boca,Clênio!Por quê você está sempre caçoando de todo mundo?",disse Seu Taveira,de modo enérgico. "Fale,Alceu".
"Bem,se me dão licença,vou espevitar o fogo do forno e queimar uma fornada de telhas.Não estou aqui pra ouvir sermão",voltou a falar Clênio, levantando-se lentamente da tora.
"Nem eu",disse Túlio,levantando-se quase ao mesmo tempo.
"Esse sermão vocês vão ter que ouvir",disse Lico,que,a pretexto de mexer em seu embornal para ajeitar coisas,sacou de um revolver e o apontou para os dois,pondo-se de pé.
"É a primeira vez que ouço um sermão debaixo de mira de revólver.Um pregador assim levaria todas as almas da terra para Deus",caçoou Clênio.
"Meu caro Alceu,agora tenho que acreditar que o assunto é sério mesmo",disse Seu Taveira,olhando espantado para o revolver e o rosto de Alceu.
"Infelizmente,Seu Taveira",disse Alceu,quase a pedir desculpa.Encheu o peito de ar,deu um profundo suspiro e começou:
"Há muito que o principal artigo de venda desta olaria deixou de ser tijolo e telha.Estes dois itens são agora simples fachada.Nosso negócio atualmente é maconha".
Ao ouvir isto,Clênio fez menção de se levantar mas,ao olhar para a arma de Túlio, mudou de idéia.Contudo,o ódio estava estampado em suas feições.
"Como é,Alceu! ? ", perguntou Seu Taveira,arregalando os olhos.
"Isto mesmo que o sr ouviu,Seu Taveira.Maconha",confirmou Alceu."O nosso caminhão ainda sai daqui com tijolos para vários fazendeiros de Calçado.Mas quando retorna com lenha para o forno,traz também,bem escondida, maconha prensada,tijolos de maconha muito bem envolvidos em sacos plásticos,de modo que o cheiro seja eliminado,ao menos para o olfato humano.Assim como o caminhão de leite passa por várias fazendas e sítios recolhendo a produção leiteira de Calçado em grandes latões,nosso caminhão recolhe a maconha.Está claro que os produtores da erva são em número muito menor.Alguns nem mesmo sabem que suas terras são utilizadas para esta finalidade.Aqui temos um conluio de trabalhadores rurais mal-remunerados e colonos desonestos,quando não de pequenos proprietários rurais à beira da falência, endividados até o pescoço,com verdadeiros marginais do asfalto,que mal sabem dizer um nome de capim.Quando temos um pedido de tijolos e telhas para Bom Jesus ou Itaperuna, revendemos a maconha em nosso poder.Dessas duas cidades ela segue para o Rio,antes passando por olarias ao longo da BR-101,que fazem parte do grande esquema para abastecer o mercado consumidor da "cidade maravilhosa ",Alceu fez uma pausa para tomar fôlego.O silêncio era geral.Alceu prosseguiu,dando mais ênfase às suas palavras,ou antes,à sua acusação:
"Acuso Clênio e Túlio de estarem à frente desta atividade criminosa!".
Os dois acusados ficaram de pé num salto,como bonecos de mola.A surpresa estampava-se no rosto de seu Taveira.Lico já estava sabendo de tudo.
"Você tinha que operar era a cabeça,seu cretino! ",disse Clênio,com um misto de ódio e desprezo na cara."Como você pode provar o que fala,seu Alceu porcelana?"
"Fala,seu merda! ",reforçou o Túlio.
"Basta levantarmos a lona do caminhão e retirarmos a lenha,os balaios e os outros trastes e veremos "tijolos" de maconha prensada no meio de tudo",disse Alceu,com calma.
"Vocês dois,Clênio e Túlio,descubram o caminhão",ordenou Seu Taveira,com energia.Seu rosto,já vermelho por natureza,estava quase roxo de fúria.Abriu a porta lateral que dava para o pátio onde ficava o caminhão e repetiu a ordem: "Descubram o caminhão!".
Os dois foram em direção ao caminhão.Clênio foi atrás com a arma em punho.A dois passos do caminhão,entretanto,Clênio virou-se e disse:
"Antes de puxar a lona,tenho umas coisinhas pra dizer pro Alceu porcelana". "Isto não é hora para brincadeira,seu patife!”, gritou Seu Taveira.
"Calma,Seu Taveira.Deixe que ele fale",disse Alceu.E o outro falou:
"É a respeito de sua filha,Alceu.Fui eu que a raptei para o sujeito de Bom Jesus.Ela ficou com ele naquela matinha lá adiante,aquela que segue o rio e que a gente pode ver do campo.Fiz uma cabaninha maneira para o casal de pombinhos.Era eu que ia levar água e comida para os dois".
"Você quer levar uma bala na cabeça,filho duma puta!?",gritou Lico.
"Acho que é o que ele quer, Lico",disse Seu Taveira com os dentes rilhando de ódio. "Deixem que ele fale.Sei que minha filhinha está bem”,disse Alceu,de modo estranhamente confiante.
Nem Lico nem Seu Taveíra sabiam de que Alceu estava falando.Mas satisfizeram seu pedido,deixando Clênio falar:
"Pois é.0 sujeito de Bom Jesus só foi apanhado pela polícia porque não ouviu meu conselho e foi para Bom Jesus com a sua menina,Alceu porcelana.Se tivesse ficado na matinha não teria sido pego.Mas antes de ser engaiolado ele me disse que se sentia realizado;que nunca ele encontrou uma menininha mais apertadinha ... "
"Deixe que eu arrebente a cabeça desse puto,Alceu! ",gritou encolerizado Lico. "Deixa, Lico", repetiu Alceu.
..."de carne mais tenra e doce,de pescoço mais macio e sedoso.Ele disse que transou com sua filha um número incontável de vezes,até cair exausto no chão de não mais agüentar nem abrir os olhos.Babou ela toda que nem vaca de bezerro parido faz.Só deixou ela quando não havia mais o que fazer.”E continuou:"Até eu,que prefiro mulheres adultas,senti vontade de possuir sua filha,Alceu porcelana..."
"Coisa abjeta do inferno!! ",gritou Seu Taveira,encolerizado.
Mas Clênio,vendo o efeito de suas palavras, prosseguiu,com evidente deleite,agora caçoando de Lico:
"E esse bosta de preto aí,segurando a arma,todo mundo aqui da Fazenda Velha sabe que foi ele que matou a própria mãe,uma bruxa preta que ficou pinel,doida varrida.Acho até que você fez bem,Lico.No seu lugar eu teria feito o mesmo,mas antes comia a vaca...”
Neste ponto,Clênio jogou-se debaixo do caminhão,enquanto empurrava Túlio para cima de Lico,pois sabia que este ia atirar,como de fato atirou,ferindo Túlio na coxa.Clênio rolou por debaixo do caminhão e foi sair do outro lado.Levantou-se rápido e lançou-se numa correria desabalada para o campo de futebol.Lico saiu em seu encalço,mas quando chegou ao campo,Clênio já tinha atravessado a estrada Calçado-Bom Jesus,pulado a cerca da propriedade em frente e já se encaminhava para a matinha que bordejava uma das margens do rio.


V

0 rio Calçado,quando penetra em terras da Fazenda Velha,tem nela um de seus trechos mais encachoeirados.Foi devido a essa sua peculiaridade e talvez por estar próximo da estrada Calçado-Bom Jesus e da sede do município,que na década de 20,marcada por importantes melhoramentos,o cel.Francisco Teixeira Garcia,então no governo municipal, conseguiu do Governo Estadual a instalação de uma usina nesta localidade e,com ela,passou a contar nossa cidade com os benefícios inestimáveis da iluminação pública.
Ainda hoje se pode ver a construção em alvenaria,agora em ruínas,que abrigava o gerador de energia.Na margem oposta a ela,eleva-se uma alta colina coberta de capim rasteiro raramente visitada pelas reses,dada a sua declividade acentuada. Seguindo a montante do rio,o solo ribeirinho vai perdendo altura e passa a ostentar uma mata que se prolonga por várias centenas de metros mas cuja largura variável nunca excede umas poucas dezenas da mesma medida.
Observando-a,ficamos a imaginar como teria sido a mata primitiva quando os primeiros colonizadores de Calçado chegaram.Lendo os historiadores da bacia do Itabapoana e os documentos esparsos legados por viajantes ou mesmo as memórias escritas a pedido de administradores públicos zelosos,somos levados a concluir que as matas que cobriam nosso município possuíam toda a exuberância daquelas da Mata Atlântica e que aquela sobre a qual falávamos não passa de uma amostra mesquinha,uma filha enfermiça da que existiu outrora.E mais um fator concorre para seu amesquinhamento: a sua diminuta área e a impossibilidade em que ela se vê de se espalhar,de crescer para as laterais.À sua frente,a barreira líquida do rio;atrás e dos lados,a pastagem é tão minguada que uma poeira amarelada a cobre,e nenhuma semente da matinha penetra na terra maninha esgotada pela monocultura, pela extração de lenha e de madeira de lei,destino,aliás,que compartilha com todo o sul do estado,esta parte constituindo a região de mais antiga ocupação e que teve suas matas luxuriantes praticamente exterminadas ao longo dos tempos.
Com efeito,a mata que vemos da estrada é composta de árvores raquíticas,enfezadas,troncos que podemos conter com as mãos,galhos contorcidos e encalombados,como que atingidos duma lepra vegetal. Entretanto,as espécies continuam a competir umas com as outras, e como a espaço em que se trava essa luta, é inalterável,o resultado final é a pobreza para todas.Como se não bastasse isso,as árvores ainda sofrem a ação implacável das formações parasitárias comuns.Com isto,os arbustos inúmeros preponderam,os cipós estão para todos os lados,arremessando-se no vazio--parecendo saber de antemão que encontrarão pega em algum lugar,como fios de uma teia de aranha doida,que perdeu o rumo,que desconhece a simetria,que odeia a inatividade.O ar festivo e gracioso dessa mata infeliz fica por conta dos fetos de longas línguas de folhas verdes e sujas,que balançam à menor viração.
Contudo,de longe nosso olhar se alegra ao contemplar aquela extensão de verde,não só por estar nosso sentimento de vida ligado àquela cor,que cada vez se faz mais rara,ameaçada que está por uma idéia errônea de progresso a qualquer custo,como por se ver obrigado a compará-la com as pastarias ressequidas adjacentes,onde já são patentes os estragos da voçoroca incipiente--feridas vivas de terra vermelha.
Também os animais que nesta mata vivem são mesquinhos--em sua maioria,pequenos roedores e tatus.As aranhas e escorpiões,ao contrário,são abundantes. Enfim, podemos dizer que a rainha dessa mata é uma sucuri, que a percorre de ponta a ponta,e que volta e meia mergulha no rio,seu elemento preferido.
Moradores das redondezas se queixam do sumiço de galinhas, pescadores têm visto a água repentinamente ondular forte,atestando que algo de grande a agitou.


VI


Clênio é um mulato de estatura baixa, porém, robusto,de coxas e braços carnudos, grossos, musculosos,cabeçorra coberta de cabelos lanosos,cara larga de beiços cúpidos.Leva a dianteira sobre Lico,porém,este nunca o perde de vista.Lico viu quando ele se quedou indeciso diante da muralha duma represa artificial,a primeira cachoeira--sem dúvida perguntava-se se devia atravessar o rio ali ou se mais adiante;viu quando ele apressou os passos ao cruzar uma várzea;viu quando ele chegou à segunda cachoeira,decidindo-se por atravessar o rio ali.
Esse fora um inverno atípico:chovera mais do que o habitual. Portanto,o volume do rio estava aumentado,as águas batiam nas pedras com mais força,elevando-se do choque uma película de vapor.
Lico contava com este fator. Descarregaria as três balas que restavam em Clênio.
0 homem perseguido abaixou-se para firmar pés e mãos nas pedras lisas e limosas,escorregadias da cachoeira,enquanto lançava um olhar à procura de Lico;mas este se escondera por detrás dum grosso tronco de velha mangueira.
A travessia ia bem.Lá embaixo,num remanso,ficava a ruína da usina de força.Clênio pensou em deixar o corpo descer até poder nadar para mais longe,talvez esconder-se em outra ruína,em outra usina,só que de açúcar e cuja existência fora um malogro completo,pois nem chegou a ser posta em funcionamento.Só o esqueleto de tijolos ficara.Passaria a noite lá e numa hora propícia fugiria para muito longe,onde o braço da lei não o alcançasse.Mas Clênio acabou por preferir esconder-se na cabana que fizera para o maníaco de Bom Jesus.Agora,porém,Clênio teria que afundar uma das pernas,mantê-la firme numa reentrância de pedras submersas e girar o corpo para,com as mãos, agarrar-se a uma pedra emersa e,a partir dela,levantar todo o corpo e jogar-se na outra margem. Entretanto,enquanto ele tentava coordenar os membros,Lico saiu detrás da mangueira.A distancia que separava um do outro era de uns dez metros.Lico fez mira com a arma e atirou.Clênio só soube que alguém atirara porque viu uma pedra próxima emitir uma faísca e quebrar-se.Acelerou os movimentos. Lico,temendo perder os dois tiros restantes,aproximou-se mais e descarregou a arma.Um tiro se perdeu mas o outro acertou Clênio na altura da virilha.O homem deu um urro de dor,abafado pelo barulho da cachoeira, mas continuou a travessia.A água a seu redor tingira-se de vermelho.
Lico deu por encerrada a sua perseguição. Pela quantidade de sangue que saia do homem,parecia que ele não agüentaria muito tempo. Lembrou-se que Seu Taveira fizera um esgar de dor quando Clênio vomitou suas torpezas.Talvez ele tivesse sofrido um ataque cardíaco e,neste caso,sua presença podia ser de alguma utilidade.Voltou então para a olaria.Parte de seu ódio se aliviara.
Com um esforço sobre-humano Clênio conseguiu atingir terra firme.Com muita dificuldade tirou os sapatos e toda a calça comprida e amarrou-a em cima do ferimento, passando-a por entre as pernas,para ver se estancava o sangue.A hemorragia era intensa. Sentia-se fraco já,um tanto entorpecido. Deixou-se cair para o lado,pensando em pegar um pouco de água da cachoeira. Estava sedento.Tirou então a camisa e jogou-a na água,segurando-a pelas pontas.Quando a recolheu,torceu-a sobre a boca aberta.Sentiu um grande alívio.Era como se o sangue perdido para ele voltasse. Deitou-se,respirando fundo.Quando se refizesse do cansaço,tentaria chegar a cabana que construíra para o maníaco de Bom Jesus--lá tinha comida enlatada,alguns remédios contra a dor.Lembrou que não era para a dor da filha de Alceu e sim para o maníaco,que esfolara o membro de sangrar no seu furor sexual e nem assim quisera parar.Mais importante: talvez ainda encontrasse uns papelotes de cocaína,que viria a calhar numa situação dessas--ela lhe daria a vida,a força que parecia lhe começar a faltar,a coragem,o sentimento de vigor que o ajudaria a fugir.Esse pó maravilhoso, pelo qual muitos matavam e morriam,já lhe fora útil em ocasiões semelhantes,senão piores,de perigo.Veio-lhe nova secura na boca,uma sede imperiosa. Levantou-se novamente e lançou a camisa a cachoeira. Puxou-a e deixou cair a água na boca.Fechou os olhos de satisfação,sentado numa pedra,afagando os pensamentos de há pouco,quando lhe pareceu que uma chuva de cipós graúdos,frios e viscosos lhe caia de repente sobre o corpo e um cheiro nauseante de água de rio podre lhe penetrava as largas narinas.Quando abriu os olhos,porém,o que viu fez gelar todo o sangue que lhe restava.Uma cobra enorme, monstruosa enrodilhava-se em torno de seu tronco nu e começava a apertá-lo.Suas mãos ainda tinham força.Tentou segurar a cabeça do animal,que a esquivou para trás preparando um bote.Clênio tentou proteger-se com um dos braços que por sorte não estava colado ao tronco pela laçada de muitas voltas da cobra.Agitou-o,tentando proteger-se.A sucuri manteve a bocarra fechada,aguardando,sem nenhuma pressa,fazendo lingüinhas para sua vítima,fendas dos olhos horríveis,ventre branco-amarelado sujo de porcaria de fundo de rio,dorso de um pardo-esverdeado,com manchas pretas arredondadas que mudavam de forma a todo momento.Quando Clênio não mais agüentou manter o braço e o deixou descair de leve,a sucuri aproveitou-se disso para lhe dar uma picada na garganta,que veio como um raio.O sangue esguichou longe como que comprimido dentro do êmbolo duma seringa hipodérmica rapidamente pressionada.Um grito gorgolejante ecoou junto com o barulho contínuo e igual da cachoeira.Levou a mão ao pescoço num movimento automático de proteção. Então,teve um pensamento súbito.Meteria a mão entre a sua barriga e a secção do corpo da cobra que mais o estivesse apertando.Para isso,no instante certo,faria um côncavo com a barriga e deslizaria rapidamente a mão.Se conseguisse segurar firme uma parte da cobra,tinha certeza de poder afastá-la de si.
Só viu que fora uma péssima idéia quando já não adiantava mais,pois quando expirou quase todo o ar dos pulmões e a barriga quase colou às costas,a cobra,mais rápida que ele,apertou ainda mais seu torniquete mortal,encontrando nova folga.Sentiu como se várias facas se movimentassem nas suas entranhas,cada qual buscando uma direção diferente:eram as pontas dos seus ossos esmigalhados que o perfuravam por dentro.Neste ponto perdeu a consciência.
Tendo matado sua presa,a sucuri primeiro tentou engoli-Ia pela cabeça,como faz por instinto. Contudo, não conseguiu.A cabeça era grande e dura demais.Mas estava faminta e prenha.Assim,tentou a outra extremidade do corpo.A grossa coxa tinha carne em abundância,assim como a barriga da perna.Começou então a engolir o homem por um dos pés.Quando atingiu a coxa,depois de vários minutos,não podendo engoli-la nem arrancá-la,deixou que seus sucos digestivos amolecessem a carne até ela se soltar dos ossos como um picolé que se derrete pelo pauzinho.
Alguns dias depois encontraram o corpo de Clênio.O torso fervilhava de larvas brancas e uma nuvem de moscas voejavam por cima.Mais brancos do que as larvas só os ossos das duas pernas do corpo.Brilhavam ao sol,sem um tico de carne sequer e nem um fio de nervo.


VII


“Modéstia à parte,senhora, mantenho comigo um livro de registro completo sobre tudo que diz respeito a Calçado.Sou uma enciclopédia viva da cidade.Conheço a história de todas as famílias daqui e quando morre alguém,dou baixa no meu livro.Não só as ilustres como também as mais humildes. Perguntei o nome da senhora em Calçado por perguntar,pois já sabia toda a história de sua família.Conheço também todos os pássaros nativos e visitantes e tenho notado um crescimento espantoso do número de maritacas,bem-te-vis e garças.Sei o nome de todos os ribeirões,corguinhos,fazendas e sítios,juntamente com seus respectivos donos,mesmo daquelas e daqueles que tiveram os nomes trocados. Estamos chegando em Old Farm.Quer que eu deixe a senhora na porta da olaria ou no campo do Fazenda Velha?", perguntou o motorista de praça,que foi falando tanto na ida quanto na volta de Itaperuna.Ana lhe disse que podia estacionar o carro no campo.Desceu dele e entrou na olaria.
Encontrou Seu Taveira espichado numa poltrona velha do seu escritório.Assim que a viu, levantou-se.Fez uma careta de dor,que não o impediu,contudo,de mostrar uma cara prazenteira para Ana,por quem tinha muito carinho,como se fosse sua filha.
“Está à procura do fujão,não é,Aninha?”
“Quê fujão,Seu Taveira?”
“Ora,o fujão do seu marido.”
Ana não entendeu a pergunta de Seu Taveira.Desconsiderou o que ele dissera e lhe transmitiu a notícia:
“Alceu morreu ontem,seu Taveira,de choque séptico,apendicite supurada.”
Por mero reflexo,Seu Taveira falou,virando-se para o ateliê de Alceu:
"Venha ouvir essa,Alceu.Sua mulher está me saindo uma piadista de mão-cheia.Humor negro,é verdade,mas sempre humor...”Ao não obter resposta,caminhou para o ateliê e não viu ninguém ali.Foi,então,até o rapaz que atrelava a junta de bois à roda de misturar o barro e perguntou a ele:
“Ximbica,cadê o Alceu?”
“Eu vi ele faz uns quinze minutos,Seu Taveira,queimando uma peça no forno”.
Seu Taveira levou a mão à cabeça,deu-lhe umas pancadinhas como quem tentasse botar ordem nela.Nesse meio tempo,Ana entrara no ateliê do marido e viu sobre sua mesa de modelagem uma peça de porcelana e um papel debaixo dela.Tomou-o e leu o seguinte:
Minha querida Aninha,
Faz poucos dias que não nos vemos e sinto uma saudade desesperadora de seus braços.De agora em diante eu a verei sempre mas levará algum tempo para você me rever.Um dia nos veremos novamente e será muito melhor, pois nossa filhinha estará junto de nós. Como!?--talvez pergunte você na sua incredulidade,ou melhor,depois de todos os acontecimentos,você perguntará sim: quando!?Deus em sua infinita misericórdia permitiu que tudo acontecesse para tocar alguns corações,entre os quais,o seu,minha querida.
Saiba que ao fechar meus alhos para esse mundo,a primeira pessoa que vi no Outro Mundo foi a nossa Purezinha.Se você soubesse com que emoção pronunciei esse apelido que você afanou da esposa do Monteiro Lobato e tão bem o aplicou à nossa filhinha ... Choramos de felicidade e dor durante horas.Mais de felicidade do que dor,para ser preciso.Não se preocupe com ela.Ela está bem,diz que já esqueceu o que sofreu nas mãos daquele homem,que na verdade ela teria é que agradecer a ele por ter feito o que fez.Que era a prova decisiva que lhe deu direito a galgar vários degraus de uma só vez em direção ao Infinito.Ela,na verdade,é agora a minha professorinha nas coisas que realmente importam na vida.
Para você,meu amor,ter uma idéia de como é nossa filhinha aqui,fiz uma peça de porcelana da sua figurinha.Foi o máximo de perfeição que consegui atingir.No entanto,é só uma pálida idéia de como ela é.
Quando for à roça ou mesmo na cidade(mais raro),você se deparar com um joão-de-barro a saltitar no chão em busca de comida ou nos galhos,pense em mim.Lembre-se:só quando vir esse passarinho.É uma condição que te imponho.Você deve viver sua vida,tocar seu barco,espantar a tristeza.Afinal,estamos ambos inseridos na imortalidade e nossos desejos e aspirações são tão válidos e reais em seu mundo quanto no meu.
Hoje,antes de vir à olaria,fiz uma ronda pela nossa querida Calçado,nas primeiras horas que precedem o nascer do sol.Estava ela envolta no nevoeiro e a iluminação difusa vinha dos postes.Os garis da prefeitura varriam as ruas e conversavam baixinho.Achei simpática essa delicadeza deles.Tive vontade de abraçar cada um deles,e em pensamento o fiz.Ao pé da ladeira do Montanha Clube,vi um gambá subir numa árvore de tronco reto como um poste,ao ser caçado por dois vira-latas.No final da rua Quinze,vi nossa casinha,e julguei ver também o historiador e poeta da cidade em seu passeio matinal,talvez pensando como rematar um conto ou simplesmente matutando nos estranhos caminhos da vida.
Estas cenas em si tão banais,fizeram nascer dentro de mim um sentimento muito forte de responsabilidade para com o destino de nossa cidade e de todos os que nela vivem.Ah! se todos pudessem sentir o que senti...


Até breve,Aninha,um abraço e um beijo
do
Alceu.

A peça de porcelana representando Purezinha está muito além de toda descrição possível. Talvez se possa descrevê-la melhor pelos efeitos que ela causava em quantos a viam. Cientistas que a examinaram estavam indecisos quanto a um ponto: o elemento de origem desconhecida que fora encontrado nela,ao ser submetida a exames espectroscópicos,viera de outro planeta ou era o resultado de uma exposição a um calor demasiado intenso que provocara a transmutação atômica de um ou mais elementos terrestres?O certo é que quem a via ficava tomado de um grande bem-estar espiritual e físico que durava dias ou até semanas.Mas ninguém entendeu o porquê de a peça de porcelana se manter íntegra apenas por um ano;findo o qual,ela se despedaçou em milhares de fragmentos sem que ninguém a tivesse tocado.

Calçado,inverno de 2005.

Carlos Rezende

 



 

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