I
Lico,a quem a cachaça há muito tirara o sono,nem
pensou em ir em casa dormir e mudar de roupa.Assim como fora
para a festa junina na Rocinha,assim ia para o serviço
na olaria,numa segunda-feira fria.
Estava meio escuro.Apenas alguns raios de sol tentavam romper
o denso nevoeiro que se formara.Sua cabeça doía
por efeito do quentão e da cachaça pura que bebera
em generosa quantidade.Mais doeu ainda quando teve que fazer
um maior esforço para subir a pequena rampa de terra
que dava acesso ao campo de futebol e ao caminho de terra que
ia ter à olaria.Vencida a subidinha à toa,olhou
primeiro,como sempre fazia,para a vendinha de pinga e cigarro,debaixo
do grande jequitibá chamado pelos locais de Árvore
dos Melros,e atrás dos paus do gol,a lamentar que ela
não estivesse aberta,pois seu cigarro estava acabando.Mas
foi uma reação automática, a sua,já
que ele sabia que ela não estaria aberta àquela
hora.O jeito era filar cigarro dos outros,assim como tinham
filado muitos dos seus na festa.
Reparou que uma figura humana,de cabeça levantada,examinava
a árvore,talvez admirando-se da longa cabeleira formada
pela erva-de-passarinho, que quase se arrastava pelo chão,ou
talvez quisesse reconhecer qual a família de melro que
agora chocava no ápice de seu tronco.Lico então
dirigiu-se para a árvore.Viu que o homem era o Alceu,quem
sabe um pouco mais magro e abatido.
"Ora,ora,eu sei que operação de apêndice
não é nada,mas já de volta?
Alceu virou-se,encarou Lico nos olhos e disse:
"É Líco,tudo é mais simples do que
parece ... Mas há algumas complicações
que a gente não espera encontrar".
"Que complicações, homem?Vamos entrar",e
apontou com o dedo a olaria ,“e esperar o pessoal no quente.Tá
um frio miserável.” "Sim,vamos.Tenho um comunicado
muito importante a fazer". "Que comunicado?”
"Você vai saber". E os dois foram andando,ombro
a ombro,a conversar.
II
A
área total ocupada pela olaria não era grande
e a parte coberta equivalia àquela sem cobertura.Abrigados
estavam o escritório do administrador,o forno para a
queimação dos tijolos e telhas,a máquina
de prensagem,as filas de prateleiras para armazenagem dos produtos
acabados,o banheiro,uma espécie de sala de estar dos
homens,com uma tora por assento.O pátio para a secagem
dos produtos recentemente feitos,em prateleiras mais toscas,e
o local reservado ao carregamento e descarregamento do caminhão
estavam ao ar livre.Quando ameaçava chuva,uma lona preta
era estendida sobre eles.
Lico enfiou a chave e abriu o portão de entrada.Tudo
na bendita paz do intocado.À direita,o escritório
do administrador estava fechado.Entre este e a porta que dava
entrada ao barro para ser trabalhado fora construído
um pequeno ateliê fechado por frágeis divisórias,dentro
do qual Alceu confeccionava obras em porcelana--última
cartada da olaria para continuar a sobreviver com algum lucro.Dentro
de um espaço exíguo,ficavam o torno de mão
para a modelagem em gesso das formas,isto é,as matrizes
a partir das quais seriam criadas as peças de porcelana;as
matérias-primas para a estampagem dentro de grandes potes,e
a mesa para a pintura,retoque e esmaltação das
peças antes de serem levadas ao forno.
Adiante,a máquina de moldagem parecia um inseto enorme
com a pinça pousada na bancada de madeira a tentar perfurá-la.E
brilhou com reflexos metálicos quando Lico ligou a chave
de energia.A luz inundou o ambiente.
"É claro que você não veio para trabalhar,
não é?",perguntou Lico.”Trabalhar?Acho
que não...”
"Então vamos sentar na tora e conversar--disse Lico,com
uma rísada.A dor-de-cabeça deu-lhe mais uma vez
a prova de que ela não pretendia deixá-lo tão
cedo.
Sentaram-se numa grossa tora cuja parte superior tinha sido
desbastada até formar assentos lisos.
Líco observou que Alceu tinha uma expressão distante
de alguém que parecia meditar continuamente. Quando olhava
para algo parecia como quem via tudo pela primeira vez.Um olhar
de surpresa pasmada.
"Êta festa junina de arromba,muita comida,muita bebida,muita
brincadeira”, disse Lico."Imagino.E a sua vida,Lico,como
vai?”
“Minha vida vai na mesma.Aquele tipo de vida que vocês,casados,conheceram
antes do casamento e nem devem se lembrar mais.”Mas de
repente Lico sentiu dentro de si uma emoção como
nunca sentira.Um forte desejo de botar para fora todas as suas
preocupações,como se elas tivessem sido fisgadas
num anzol e o pescador puxasse a vara com suma perícia.Contra
sua vontade,sentiu sua boca mexer e falar:
“Minha mãe estava enlouquecendo,Alceu,e o pior
é que ela sabia que estava perdendo a razão aos
poucos.O médico do hospital disse que nada podia ser
feito.Tudo começou faz uns dois anos.Um dia quando me
levantei para vir trabalhar,ela me parou na porta e me pediu
chorando que eu não a deixasse sozinha em casa.Quase
que dei uma risada porque minha mãe nunca teve medo de
nada.Mas ela não estava brincando.Aquele dia chequei
atrasado e levei uma senhora bronca de Seu Taveira.Todo mundo
pensou que era a cachaça ... Bom,das outras vezes,até
que era ... Mas daquela,não.Mas agüentei quieto.O
quê que eu ia dizer?Se eu dissesse a verdade ninguém
ia me acreditar. Daquele dia em diante,tudo foi só piorando
para minha mãe.Ela não conseguia fazer mais nossa
comida.Trocava o sal pelo açúcar,não sabia
mais como fazer o arroz,deixava o feijão torrar na panela,trazia
lenha verde para casa;do primeiro charco que encontrasse, pegava
a água e enchia a bilha.Água para banho,nem pensar.Foi
então que chamei uma filha da Rita,essa escura forte
que mora aqui perto, para fazer a comida e cuidar de minha mãe.Tudo
desandou em menos de uma semana.Minha mãe começou
a dizer que "aquela estranha",assim ela chamava a
filha da Rita,estava querendo matá-la.Tinha dias que
ela ficava uma fúria e jogava tudo o que ela via contra
a pretinha que,por fim,pediu para sair.Meu barraco deixou de
ser moradia.Virou a prisão de minha mãe.Preguei
as janelas,não deixava nada com que ela pudesse se ferir,eu
mesmo fazia a nossa comida.Nunca quis mandar minha mãe
para uma casa de maluco em Itaperuna ou Campos.Não tinha
coragem.Agora vi que errei.Devia ter mandado.Acho que as coisas
se inverteram.Ela virou neném e eu virei a mãe
dela.Não tínhamos nenhum parente em Calçado.Os
que moravam em outras cidades e souberam da nossa situação,
é que não apareciam mesmo.Pena eu ser filho único.Se
ela tivesse tido uma filha mulher,seria melhor.Você sabe,mulher
tem mais jeito para as coisas que tinha de fazer para minha
mãe.Tinha dias que bebia muito além da conta para
esquecer nossa situação.Não era fácil
.... Até que outro dia,vi que a pobrezinha aparava com
a caneca a própria urina e a bebia como se límpida
água fosse.Até o próprio excremento ela
metia na boca. Mas as crianças novinhas não fazem
o mesmo? 0 cocô,afinal de contas,não é a
comida um pouquinho mais estragada?E mais,quem viu o comecinho
dos intestinos,logo depois do ânus, notou se existe diferença
dele para a da parte de dentro de nossa bochecha?E o papel higiênico
de rico não é parecido com o guardanapo também
de rico com que ele limpa a boca depois da comida? Mas isso
é mais fácil de falar e pensar ... No diário
é que somos testados mesmo,e foi nele que me perdi ...
Um dia,peguei uma sacola plástica,passei na cabeça
dela até o pescoço e a sufoquei.
E pela primeira vez na vida Lico chorou de soluçar não
só na frente de outra pessoa mas desde que se conhecia
por gente.E o mais estranho é que não sentiu nem
um pingo de vergonha.Só de alívio.Um alívio
como nunca tinha sentido antes.
Alceu ouviu toda a estória de Lico em silêncio.Assim
que ele terminou,disse-lhe que qualquer um na situação
dele poderia ter feito o mesmo com a mãe.Que ele se perdoasse
a si próprio,que fosse à justiça e confessasse
o seu crime mas que,antes,lhe fizesse um favor.
"Qualquer favor,meu amigo.Esse peso que eu carregava na
consciência estava destruindo minha vida.Nunca tive coragem
de confessá-lo a ninguém,nem mesmo a você.
Hoje, porém, não sei o que me deu.Senti uma vontade
maior do que a minha abrir minha boca e me fazer confessar a
você o meu crime.Seja o que for que tenha acontecido,aconteceu
em sua presença e,portanto,deve ter alguma coisa ligada
à sua pessoa,Alceu,que nem tento entender.Só gostaria
de lhe agradecer muito.Parece que Deus o mandou hoje em meu
socorro".
Mas deu para disfarçar quando o Clênio e o Túlio
chegaram juntos.Estavam numa animada conversa.Túlio,antes
de nos ver,disse de modo enfático para Clênio:
"Você,seu mulato metido,depois que passou a freqüentar
as aulas noturnas,está insuportável.Quer ficar
mais sabichão,vai estudar no Rio de Janeiro e deixe a
gente em paz com a nossa ignorância".
Quando Túlio viu Alceu e Lico sentados na tora,deu um
bom dia aos dois e disse a Alceu:
"Afinal,você foi operado de apêndice ou fimose?
“Preferia ter sido operado de fimose.Assim talvez não
tivesse ... Bem,mas sobre o que vocês dois estavam conversando"?
Clênio cumprimentou Alceu e explicou:
“Eu só estava dizendo para esse animal aí
que soube na minha escola noturna que os antigos pensavam em
erguer a cidade de Calçado aqui na Fazenda Velha.Tudo
ia começar a partir daqui, mas depois resolveram ir mais
adiante e plantar a cidade em terreno de cabrito,mais bonito,sim,para
moradia de três ou quatro famílias,mas muito ruim
para uma cidade.O que começa errado,errado fica.O Túlio
não entendeu nada.Pensa que por que a gente tem só
uma vendinha de pinga aqui,isso é prova que os antigos
estavam certos.Esquece que quando eles foram para mais adiante,tudo
aqui na Fazenda Velha caiu na mão dos desbravadores e
virou propriedade particular e a partir daí ninguém
mais ia poder criar comércio nem indústria. Resultado:
nem fizeram onde hoje está a cidade nem puderam mais
fazer aqui.Você precisa de muita ginástica de
cabeça para me acompanhar,Tulinho".
Túlio,aproveitando que Clênio tomava ar para continuar
a falar e espicaçado pela deturpação de
seu nome,retrucou:
"Ginástica de cabeça já faço
sem precisar conversar com você.Minha cara-metade,aquela
caninana,todo santo dia tem que me perguntar por que estou chegando
em casa às duas da matina,caneado e com cheiro de mulher
pelo corpo, e tenho que inventar uma mentira nova todo santo
dia,que ela guarda todas as já velhas.Acho que já
faço ginástica mental até demais.Minha
capacidade de inventoria já tá no último
furo. Vocês conheceram a Vicença?Pois dizem que
ela pariu o Zé Venâncio enquanto roçava
pasto e só foi dar acordo de si depois que o Zé
bateu a cabeça no chão e abriu um berreiro que
já durava um par de minuto.Daí ele ter ficado
meio bambo do juízo.Eu nasci na cama".
"E não adiantou de nada e nasceu tão burro
quanto o Zé”,caçoou Clênio.
III
Em Calçado,pouco mais tarde,uma jovem senhora tomou um
carro de praça e mandou o motorista tocar para Itaperuna.
"Qual a sua graça,que mal lhe pergunte?”,
puxou conversa o chofer.
"Eu me chamo Ana,moço.Tenho pressa,por favor".
"Daqui até Itaperuna é um pulo.Este carro
não é tão novo quanto os outros mas tenha
a certeza que chegaremos ainda hoje ao nosso destinou.
"Assim espero.Só entrei no seu carro porque os outros
parece que sumiram".
`"A senhora vai ficar minha freguesa,pode ter certeza disso.Os
outros não estão aqui porque ontem foi o domingo
dos casamentos.Para desgraça minha,comi uns torresmos
em casa e não me senti bem.Fiquei de molho o domingo
todo,escornado num sofá.Pois é.Teve um em Alegoria,outro
em São Benedito e um fazendeiro do Jacá matou
três garrotes e não sei quantas leitoas para o
casamento da caçula dele.Dizem que pelo pai,a filha não
se casava nunca.Era o xodó dele.--Sai da frente,seu filho
da mãe!--,gritou quando um moleque fazia visagens em
frente do carro--"Quer morrer,corisco?!—“Moleque
é um perigo na rua.Se eu fosse delegado,criança
só ia poder andar na calçada.Depois que completasse
os dezesseis anos,aí sim,ia poder atravessar a rua desacompanhada.A
gente pega um moleque desses e depois o pai pega em nosso pé
e não larga.”
Enquanto o motorista falava pelos cotovelos,Ana ía lembrando
de sua vida com o seu marido desde o namoro. Alceu conhecera
Ana Rosal na festa da cidade.Os pais da moça eram colonos
no Jacá e os de Alceu,na Fazenda Velha.À princípio,não
viam com bons olhos o namoro.Queriam um partido com melhor perspectiva
social e financeira.Os pais da moça tinham o seu orgulho:duas
das irmãs de Ana eram professoras primárias bem
conceituadas em Calçado e Bom Jesus.Seus pais fizeram
sacrifício para lhes dar educação e torná-las
professoras.Não ficava bem,portanto,entregar a filha
caçula e,por sinal,a mais bonita das três, a um
homem sem eira nem beira.A favor de Alceu estavam a sua viva
inteligência,a sua bem apessoada figura e o profundo respeito
com que tratava os pais de Ana.Esta era uma mocinha baixa mas
de membros bem proporcionados,cabelos castanho-claros partidos
ao meio e curtos,um rosto de pele clara e muito expressivo,com
um quê de tristeza que lhe ia muito bem.Olhos castanhos
bem implantados nas órbitas, que tendiam a formar olheiras,mas
nada de alarmante e que só duravam enquanto ela estava
sob grande tensão emocional.Nariz arrebitado,queixo fino
e rosto entre quadrado e ovalado.O pescoço era delicado,como
também o eram os seios.Já as mãos eram
grandes para seu corpo,se bem que os dedos fossem finos,e definitivamente
não eram mãos de uma trabalhadora rural.Alceu
encantou-se por ela logo que a viu.Era espirituosa e aproveitara
muito bem o sacrifício dos pais em lhe darem instrução.Certa
vez um dos muitos vates de que a cidade é pródiga,
mandou-lhe uma carta com um longo poema sobre os seus evidentes
encantos.Um deles começava assim:”De teu útero
ambos haveremos filhos infinitos”. Respondeu -lhe ela
pelo mesmo papel e portador,não se esquecendo de tirar
uma cópia da rápida troca de mensagens:”Pensa
que sou uma porca,imbecil?"Ao que lhe replicou o vate:”Será
que as moças hodiernas repulsam tanto o cantá-las
que para tal terei que entrar com processo na justiça?.Ana
mostrou as cartas a Alceu e ambos deram grandes gargalhadas.
Depois de casados foram morar numa casinha no final da rua Quinze.
Lembravam com deleite dos tempos de namoro quando iam ao campo
do Americano,e sob a parca sombra dos altos eucaliptos,sentados
em arquibancadas de madeira ou mesmo no chão,assistiam
aos jogos.Ana assustava-se sempre quando aqueles homens robustos
vinham disputar a bola perto de onde estavam os dois e achegava-se
a Alceu,quase o abraçando de medo.”São só
marmanjos,Aninha", brincava Alceu,mas para ela,nesses momentos,a
bola era um objeto formidável,e os homens,com os baques
surdos das chuteiras e o recontro violento de ombros,peitos
e braços,assemelhavam-se a gladiadores romanos ou guerreiros
da Antiguidade, que via no cinema,verdadeiras batalhas de homens
poderosos como deuses,cheirando forte na abundância do
suor pela posse da bola,enquanto os namorados chupavam laranjas
descascadas pelo laranjeiro na máquina manual, que ia
cortando circularmente a casca,do começo ao fim.Pegando
delicadamente as pontas,Ana reconstituía a laranja ao
seu formato primitivo para depois,segurando ainda nas pontas,formar
uma tira chata como fita métrica.
Seu amor por Alceu chegava lhe doer,e o de Alceu por ela era
tão intenso que estava muito além da expressão,fosse
em gestos,fosse em palavras.Mas um amor assim não poderia
ser equivalente à absoluta indiferença?Alceu só
esperava que ela o percebesse de alguma forma,pois morreria
de desespero se o seu amor por ela não encontrasse meios
próprios de tocá-la sem que nenhuma dúvida,por
mínima que fosse,subsistisse.
Tiveram apenas uma filha,que era tudo para Alceu.Aos 8 anos
foi raptada por um homem aparentemente normal de Bom lesus,e
estuprada e morta.Quando localizaram seu corpo,Alceu não
derramou uma gota de lágrima mas seus longos cabelos
castanhos ficaram totalmente brancos do dia para a noite.Continuou
a trabalhar como se nada houvesse acontecido, porém,fechara-se
num mutismo que nada nem ninguém conseguia penetrar.Certo
dia lhe disseram para dar um pulinho num Centro Espírita.Foi
e depois de muitas freqüências e leituras dos livros
da doutrina,Ana,um dia,por acaso, viu-o sentado na sua poltrona
favorita em casa e de seus olhos desciam lágrimas aos
borbotões, represadas, mas sem outro indicativo de choro.Lágrimas
silenciosas.Na olaria começou a modelar diversas figuras
nas horas vagas,dentre as quais sobressaiam as representações
de meninas que encantavam quantos as viam.
"Estamos quase chegando em Itaperuna,senhora Ana”.Ela
teve um sobressalto e aí compreendeu o quanto estava
embebida em suas recordações.
IV
Conforme
o sol saía e se firmava, o dia ia esquentando.Às
9 horas chegou Seu Taveira,o administrador da olaria.Sempre
de bom-humor,admirou-se de Alceu estar ali,junto com os outros
três homens,sentados na tora e a conversar.
"Bom dia!Vejam só se não é o nosso
homem!Seja bem-vindo,Alceu!Ainda não foi desta vez,hein?Mas
é uma temeridade vir trabalhar tão cedo.Por quê
lhe deram alta assim tão rápido?Nem uma semana
no hospital.A medicina está desenvolvida,eu mesmo tenho
válvulas artificiais no peito e sou um forte candidato
a um transplante de coração,mas você exagerou,meu
amigo ... Mas,mudando de assunto,e aproveitando a sua presença,Alceu,
pergunto: alguém em Itaperuna ou Campos gostou de suas
obras de cerâmica e porcelana?O futuro da olaria está
em suas mãos".
"Vendi todas as peças que levei,Seu Taveira,e teria
vendido mais se mais tivesse levado.Não pude manter maior
contato com potenciais compradores devido ao meu probleminha
de saúde,que me levou às pressas ao hospital.Quanto
ao futuro de nossa olaria,se está em minhas mãos,está
em mãos um tanto vaporosas", disse Alceu,sorrindo
enigmaticamente".
"Vaporosas?! Vaporosas, uma ova!Em mãos firmes e
hábeis,isto sim",retrucou Seu Taveira,pondo as mãos
nos quadris.
"Seja como for,Seu Taveira,estou aqui hoje para fazer uma
revelação desagradável,se me permite..."
"À vontade,Alceu.O menino ainda nem trouxe a junta
de bois.E a quentura do forno pede uma prosa ou uma revelação,como
você diz. Desagradável!?Vamos ouvi-lo,não
importa”,atalhou Seu Taveira,abrindo a porta de seu escritório
e puxando uma cadeira.Alceu então se levantou da tora,posicionou-se
entre os três homens e seu Taveira e já ia falar
quando Clênio se antecipou:
"Fala,Alceu porcelana.Vai fazer um sermão pra gente?".
"Cala a boca,Clênio!Por quê você está
sempre caçoando de todo mundo?",disse Seu Taveira,de
modo enérgico. "Fale,Alceu".
"Bem,se me dão licença,vou espevitar o fogo
do forno e queimar uma fornada de telhas.Não estou aqui
pra ouvir sermão",voltou a falar Clênio, levantando-se
lentamente da tora.
"Nem eu",disse Túlio,levantando-se quase ao
mesmo tempo.
"Esse sermão vocês vão ter que ouvir",disse
Lico,que,a pretexto de mexer em seu embornal para ajeitar coisas,sacou
de um revolver e o apontou para os dois,pondo-se de pé.
"É a primeira vez que ouço um sermão
debaixo de mira de revólver.Um pregador assim levaria
todas as almas da terra para Deus",caçoou Clênio.
"Meu caro Alceu,agora tenho que acreditar que o assunto
é sério mesmo",disse Seu Taveira,olhando
espantado para o revolver e o rosto de Alceu.
"Infelizmente,Seu Taveira",disse Alceu,quase a pedir
desculpa.Encheu o peito de ar,deu um profundo suspiro e começou:
"Há muito que o principal artigo de venda desta
olaria deixou de ser tijolo e telha.Estes dois itens são
agora simples fachada.Nosso negócio atualmente é
maconha".
Ao ouvir isto,Clênio fez menção de se levantar
mas,ao olhar para a arma de Túlio, mudou de idéia.Contudo,o
ódio estava estampado em suas feições.
"Como é,Alceu! ? ", perguntou Seu Taveira,arregalando
os olhos.
"Isto mesmo que o sr ouviu,Seu Taveira.Maconha",confirmou
Alceu."O nosso caminhão ainda sai daqui com tijolos
para vários fazendeiros de Calçado.Mas quando
retorna com lenha para o forno,traz também,bem escondida,
maconha prensada,tijolos de maconha muito bem envolvidos em
sacos plásticos,de modo que o cheiro seja eliminado,ao
menos para o olfato humano.Assim como o caminhão de leite
passa por várias fazendas e sítios recolhendo
a produção leiteira de Calçado em grandes
latões,nosso caminhão recolhe a maconha.Está
claro que os produtores da erva são em número
muito menor.Alguns nem mesmo sabem que suas terras são
utilizadas para esta finalidade.Aqui temos um conluio de trabalhadores
rurais mal-remunerados e colonos desonestos,quando não
de pequenos proprietários rurais à beira da falência,
endividados até o pescoço,com verdadeiros marginais
do asfalto,que mal sabem dizer um nome de capim.Quando temos
um pedido de tijolos e telhas para Bom Jesus ou Itaperuna, revendemos
a maconha em nosso poder.Dessas duas cidades ela segue para
o Rio,antes passando por olarias ao longo da BR-101,que fazem
parte do grande esquema para abastecer o mercado consumidor
da "cidade maravilhosa ",Alceu fez uma pausa para
tomar fôlego.O silêncio era geral.Alceu prosseguiu,dando
mais ênfase às suas palavras,ou antes,à
sua acusação:
"Acuso Clênio e Túlio de estarem à
frente desta atividade criminosa!".
Os dois acusados ficaram de pé num salto,como bonecos
de mola.A surpresa estampava-se no rosto de seu Taveira.Lico
já estava sabendo de tudo.
"Você tinha que operar era a cabeça,seu cretino!
",disse Clênio,com um misto de ódio e desprezo
na cara."Como você pode provar o que fala,seu Alceu
porcelana?"
"Fala,seu merda! ",reforçou o Túlio.
"Basta levantarmos a lona do caminhão e retirarmos
a lenha,os balaios e os outros trastes e veremos "tijolos"
de maconha prensada no meio de tudo",disse Alceu,com calma.
"Vocês dois,Clênio e Túlio,descubram
o caminhão",ordenou Seu Taveira,com energia.Seu
rosto,já vermelho por natureza,estava quase roxo de fúria.Abriu
a porta lateral que dava para o pátio onde ficava o caminhão
e repetiu a ordem: "Descubram o caminhão!".
Os dois foram em direção ao caminhão.Clênio
foi atrás com a arma em punho.A dois passos do caminhão,entretanto,Clênio
virou-se e disse:
"Antes de puxar a lona,tenho umas coisinhas pra dizer pro
Alceu porcelana". "Isto não é hora para
brincadeira,seu patife!”, gritou Seu Taveira.
"Calma,Seu Taveira.Deixe que ele fale",disse Alceu.E
o outro falou:
"É a respeito de sua filha,Alceu.Fui eu que a raptei
para o sujeito de Bom Jesus.Ela ficou com ele naquela matinha
lá adiante,aquela que segue o rio e que a gente pode
ver do campo.Fiz uma cabaninha maneira para o casal de pombinhos.Era
eu que ia levar água e comida para os dois".
"Você quer levar uma bala na cabeça,filho
duma puta!?",gritou Lico.
"Acho que é o que ele quer, Lico",disse Seu
Taveira com os dentes rilhando de ódio. "Deixem
que ele fale.Sei que minha filhinha está bem”,disse
Alceu,de modo estranhamente confiante.
Nem Lico nem Seu Taveíra sabiam de que Alceu estava falando.Mas
satisfizeram seu pedido,deixando Clênio falar:
"Pois é.0 sujeito de Bom Jesus só foi apanhado
pela polícia porque não ouviu meu conselho e foi
para Bom Jesus com a sua menina,Alceu porcelana.Se tivesse ficado
na matinha não teria sido pego.Mas antes de ser engaiolado
ele me disse que se sentia realizado;que nunca ele encontrou
uma menininha mais apertadinha ... "
"Deixe que eu arrebente a cabeça desse puto,Alceu!
",gritou encolerizado Lico. "Deixa, Lico", repetiu
Alceu.
..."de carne mais tenra e doce,de pescoço mais macio
e sedoso.Ele disse que transou com sua filha um número
incontável de vezes,até cair exausto no chão
de não mais agüentar nem abrir os olhos.Babou ela
toda que nem vaca de bezerro parido faz.Só deixou ela
quando não havia mais o que fazer.”E continuou:"Até
eu,que prefiro mulheres adultas,senti vontade de possuir sua
filha,Alceu porcelana..."
"Coisa abjeta do inferno!! ",gritou Seu Taveira,encolerizado.
Mas Clênio,vendo o efeito de suas palavras, prosseguiu,com
evidente deleite,agora caçoando de Lico:
"E esse bosta de preto aí,segurando a arma,todo
mundo aqui da Fazenda Velha sabe que foi ele que matou a própria
mãe,uma bruxa preta que ficou pinel,doida varrida.Acho
até que você fez bem,Lico.No seu lugar eu teria
feito o mesmo,mas antes comia a vaca...”
Neste ponto,Clênio jogou-se debaixo do caminhão,enquanto
empurrava Túlio para cima de Lico,pois sabia que este
ia atirar,como de fato atirou,ferindo Túlio na coxa.Clênio
rolou por debaixo do caminhão e foi sair do outro lado.Levantou-se
rápido e lançou-se numa correria desabalada para
o campo de futebol.Lico saiu em seu encalço,mas quando
chegou ao campo,Clênio já tinha atravessado a estrada
Calçado-Bom Jesus,pulado a cerca da propriedade em frente
e já se encaminhava para a matinha que bordejava uma
das margens do rio.
V
0
rio Calçado,quando penetra em terras da Fazenda Velha,tem
nela um de seus trechos mais encachoeirados.Foi devido a essa
sua peculiaridade e talvez por estar próximo da estrada
Calçado-Bom Jesus e da sede do município,que na
década de 20,marcada por importantes melhoramentos,o
cel.Francisco Teixeira Garcia,então no governo municipal,
conseguiu do Governo Estadual a instalação de
uma usina nesta localidade e,com ela,passou a contar nossa cidade
com os benefícios inestimáveis da iluminação
pública.
Ainda hoje se pode ver a construção em alvenaria,agora
em ruínas,que abrigava o gerador de energia.Na margem
oposta a ela,eleva-se uma alta colina coberta de capim rasteiro
raramente visitada pelas reses,dada a sua declividade acentuada.
Seguindo a montante do rio,o solo ribeirinho vai perdendo altura
e passa a ostentar uma mata que se prolonga por várias
centenas de metros mas cuja largura variável nunca excede
umas poucas dezenas da mesma medida.
Observando-a,ficamos a imaginar como teria sido a mata primitiva
quando os primeiros colonizadores de Calçado chegaram.Lendo
os historiadores da bacia do Itabapoana e os documentos esparsos
legados por viajantes ou mesmo as memórias escritas a
pedido de administradores públicos zelosos,somos levados
a concluir que as matas que cobriam nosso município possuíam
toda a exuberância daquelas da Mata Atlântica e
que aquela sobre a qual falávamos não passa de
uma amostra mesquinha,uma filha enfermiça da que existiu
outrora.E mais um fator concorre para seu amesquinhamento: a
sua diminuta área e a impossibilidade em que ela se vê
de se espalhar,de crescer para as laterais.À sua frente,a
barreira líquida do rio;atrás e dos lados,a pastagem
é tão minguada que uma poeira amarelada a cobre,e
nenhuma semente da matinha penetra na terra maninha esgotada
pela monocultura, pela extração de lenha e de
madeira de lei,destino,aliás,que compartilha com todo
o sul do estado,esta parte constituindo a região de mais
antiga ocupação e que teve suas matas luxuriantes
praticamente exterminadas ao longo dos tempos.
Com efeito,a mata que vemos da estrada é composta de
árvores raquíticas,enfezadas,troncos que podemos
conter com as mãos,galhos contorcidos e encalombados,como
que atingidos duma lepra vegetal. Entretanto,as espécies
continuam a competir umas com as outras, e como a espaço
em que se trava essa luta, é inalterável,o resultado
final é a pobreza para todas.Como se não bastasse
isso,as árvores ainda sofrem a ação implacável
das formações parasitárias comuns.Com isto,os
arbustos inúmeros preponderam,os cipós estão
para todos os lados,arremessando-se no vazio--parecendo saber
de antemão que encontrarão pega em algum lugar,como
fios de uma teia de aranha doida,que perdeu o rumo,que desconhece
a simetria,que odeia a inatividade.O ar festivo e gracioso dessa
mata infeliz fica por conta dos fetos de longas línguas
de folhas verdes e sujas,que balançam à menor
viração.
Contudo,de longe nosso olhar se alegra ao contemplar aquela
extensão de verde,não só por estar nosso
sentimento de vida ligado àquela cor,que cada vez se
faz mais rara,ameaçada que está por uma idéia
errônea de progresso a qualquer custo,como por se ver
obrigado a compará-la com as pastarias ressequidas adjacentes,onde
já são patentes os estragos da voçoroca
incipiente--feridas vivas de terra vermelha.
Também os animais que nesta mata vivem são mesquinhos--em
sua maioria,pequenos roedores e tatus.As aranhas e escorpiões,ao
contrário,são abundantes. Enfim, podemos dizer
que a rainha dessa mata é uma sucuri, que a percorre
de ponta a ponta,e que volta e meia mergulha no rio,seu elemento
preferido.
Moradores das redondezas se queixam do sumiço de galinhas,
pescadores têm visto a água repentinamente ondular
forte,atestando que algo de grande a agitou.
VI
Clênio é um mulato de estatura baixa, porém,
robusto,de coxas e braços carnudos, grossos, musculosos,cabeçorra
coberta de cabelos lanosos,cara larga de beiços cúpidos.Leva
a dianteira sobre Lico,porém,este nunca o perde de vista.Lico
viu quando ele se quedou indeciso diante da muralha duma represa
artificial,a primeira cachoeira--sem dúvida perguntava-se
se devia atravessar o rio ali ou se mais adiante;viu quando
ele apressou os passos ao cruzar uma várzea;viu quando
ele chegou à segunda cachoeira,decidindo-se por atravessar
o rio ali.
Esse fora um inverno atípico:chovera mais do que o habitual.
Portanto,o volume do rio estava aumentado,as águas batiam
nas pedras com mais força,elevando-se do choque uma película
de vapor.
Lico contava com este fator. Descarregaria as três balas
que restavam em Clênio.
0 homem perseguido abaixou-se para firmar pés e mãos
nas pedras lisas e limosas,escorregadias da cachoeira,enquanto
lançava um olhar à procura de Lico;mas este se
escondera por detrás dum grosso tronco de velha mangueira.
A travessia ia bem.Lá embaixo,num remanso,ficava a ruína
da usina de força.Clênio pensou em deixar o corpo
descer até poder nadar para mais longe,talvez esconder-se
em outra ruína,em outra usina,só que de açúcar
e cuja existência fora um malogro completo,pois nem chegou
a ser posta em funcionamento.Só o esqueleto de tijolos
ficara.Passaria a noite lá e numa hora propícia
fugiria para muito longe,onde o braço da lei não
o alcançasse.Mas Clênio acabou por preferir esconder-se
na cabana que fizera para o maníaco de Bom Jesus.Agora,porém,Clênio
teria que afundar uma das pernas,mantê-la firme numa reentrância
de pedras submersas e girar o corpo para,com as mãos,
agarrar-se a uma pedra emersa e,a partir dela,levantar todo
o corpo e jogar-se na outra margem. Entretanto,enquanto ele
tentava coordenar os membros,Lico saiu detrás da mangueira.A
distancia que separava um do outro era de uns dez metros.Lico
fez mira com a arma e atirou.Clênio só soube que
alguém atirara porque viu uma pedra próxima emitir
uma faísca e quebrar-se.Acelerou os movimentos. Lico,temendo
perder os dois tiros restantes,aproximou-se mais e descarregou
a arma.Um tiro se perdeu mas o outro acertou Clênio na
altura da virilha.O homem deu um urro de dor,abafado pelo barulho
da cachoeira, mas continuou a travessia.A água a seu
redor tingira-se de vermelho.
Lico deu por encerrada a sua perseguição. Pela
quantidade de sangue que saia do homem,parecia que ele não
agüentaria muito tempo. Lembrou-se que Seu Taveira fizera
um esgar de dor quando Clênio vomitou suas torpezas.Talvez
ele tivesse sofrido um ataque cardíaco e,neste caso,sua
presença podia ser de alguma utilidade.Voltou então
para a olaria.Parte de seu ódio se aliviara.
Com um esforço sobre-humano Clênio conseguiu atingir
terra firme.Com muita dificuldade tirou os sapatos e toda a
calça comprida e amarrou-a em cima do ferimento, passando-a
por entre as pernas,para ver se estancava o sangue.A hemorragia
era intensa. Sentia-se fraco já,um tanto entorpecido.
Deixou-se cair para o lado,pensando em pegar um pouco de água
da cachoeira. Estava sedento.Tirou então a camisa e jogou-a
na água,segurando-a pelas pontas.Quando a recolheu,torceu-a
sobre a boca aberta.Sentiu um grande alívio.Era como
se o sangue perdido para ele voltasse. Deitou-se,respirando
fundo.Quando se refizesse do cansaço,tentaria chegar
a cabana que construíra para o maníaco de Bom
Jesus--lá tinha comida enlatada,alguns remédios
contra a dor.Lembrou que não era para a dor da filha
de Alceu e sim para o maníaco,que esfolara o membro de
sangrar no seu furor sexual e nem assim quisera parar.Mais importante:
talvez ainda encontrasse uns papelotes de cocaína,que
viria a calhar numa situação dessas--ela lhe daria
a vida,a força que parecia lhe começar a faltar,a
coragem,o sentimento de vigor que o ajudaria a fugir.Esse pó
maravilhoso, pelo qual muitos matavam e morriam,já lhe
fora útil em ocasiões semelhantes,senão
piores,de perigo.Veio-lhe nova secura na boca,uma sede imperiosa.
Levantou-se novamente e lançou a camisa a cachoeira.
Puxou-a e deixou cair a água na boca.Fechou os olhos
de satisfação,sentado numa pedra,afagando os pensamentos
de há pouco,quando lhe pareceu que uma chuva de cipós
graúdos,frios e viscosos lhe caia de repente sobre o
corpo e um cheiro nauseante de água de rio podre lhe
penetrava as largas narinas.Quando abriu os olhos,porém,o
que viu fez gelar todo o sangue que lhe restava.Uma cobra enorme,
monstruosa enrodilhava-se em torno de seu tronco nu e começava
a apertá-lo.Suas mãos ainda tinham força.Tentou
segurar a cabeça do animal,que a esquivou para trás
preparando um bote.Clênio tentou proteger-se com um dos
braços que por sorte não estava colado ao tronco
pela laçada de muitas voltas da cobra.Agitou-o,tentando
proteger-se.A sucuri manteve a bocarra fechada,aguardando,sem
nenhuma pressa,fazendo lingüinhas para sua vítima,fendas
dos olhos horríveis,ventre branco-amarelado sujo de porcaria
de fundo de rio,dorso de um pardo-esverdeado,com manchas pretas
arredondadas que mudavam de forma a todo momento.Quando Clênio
não mais agüentou manter o braço e o deixou
descair de leve,a sucuri aproveitou-se disso para lhe dar uma
picada na garganta,que veio como um raio.O sangue esguichou
longe como que comprimido dentro do êmbolo duma seringa
hipodérmica rapidamente pressionada.Um grito gorgolejante
ecoou junto com o barulho contínuo e igual da cachoeira.Levou
a mão ao pescoço num movimento automático
de proteção. Então,teve um pensamento súbito.Meteria
a mão entre a sua barriga e a secção do
corpo da cobra que mais o estivesse apertando.Para isso,no instante
certo,faria um côncavo com a barriga e deslizaria rapidamente
a mão.Se conseguisse segurar firme uma parte da cobra,tinha
certeza de poder afastá-la de si.
Só viu que fora uma péssima idéia quando
já não adiantava mais,pois quando expirou quase
todo o ar dos pulmões e a barriga quase colou às
costas,a cobra,mais rápida que ele,apertou ainda mais
seu torniquete mortal,encontrando nova folga.Sentiu como se
várias facas se movimentassem nas suas entranhas,cada
qual buscando uma direção diferente:eram as pontas
dos seus ossos esmigalhados que o perfuravam por dentro.Neste
ponto perdeu a consciência.
Tendo matado sua presa,a sucuri primeiro tentou engoli-Ia pela
cabeça,como faz por instinto. Contudo, não
conseguiu.A cabeça era grande e dura demais.Mas estava
faminta e prenha.Assim,tentou a outra extremidade do corpo.A
grossa coxa tinha carne em abundância,assim como a barriga
da perna.Começou então a engolir o homem por um
dos pés.Quando atingiu a coxa,depois de vários
minutos,não podendo engoli-la nem arrancá-la,deixou
que seus sucos digestivos amolecessem a carne até ela
se soltar dos ossos como um picolé que se derrete pelo
pauzinho.
Alguns dias depois encontraram o corpo de Clênio.O torso
fervilhava de larvas brancas e uma nuvem de moscas voejavam
por cima.Mais brancos do que as larvas só os ossos das
duas pernas do corpo.Brilhavam ao sol,sem um tico de carne sequer
e nem um fio de nervo.
VII
“Modéstia à parte,senhora, mantenho comigo
um livro de registro completo sobre tudo que diz respeito a
Calçado.Sou uma enciclopédia viva da cidade.Conheço
a história de todas as famílias daqui e quando
morre alguém,dou baixa no meu livro.Não só
as ilustres como também as mais humildes. Perguntei o
nome da senhora em Calçado por perguntar,pois já
sabia toda a história de sua família.Conheço
também todos os pássaros nativos e visitantes
e tenho notado um crescimento espantoso do número de
maritacas,bem-te-vis e garças.Sei o nome de todos os
ribeirões,corguinhos,fazendas e sítios,juntamente
com seus respectivos donos,mesmo daquelas e daqueles que tiveram
os nomes trocados. Estamos chegando em Old Farm.Quer que eu
deixe a senhora na porta da olaria ou no campo do Fazenda Velha?",
perguntou o motorista de praça,que foi falando tanto
na ida quanto na volta de Itaperuna.Ana lhe disse que podia
estacionar o carro no campo.Desceu dele e entrou na olaria.
Encontrou Seu Taveira espichado numa poltrona velha do seu escritório.Assim
que a viu, levantou-se.Fez uma careta de dor,que não
o impediu,contudo,de mostrar uma cara prazenteira para Ana,por
quem tinha muito carinho,como se fosse sua filha.
“Está à procura do fujão,não
é,Aninha?”
“Quê fujão,Seu Taveira?”
“Ora,o fujão do seu marido.”
Ana não entendeu a pergunta de Seu Taveira.Desconsiderou
o que ele dissera e lhe transmitiu a notícia:
“Alceu morreu ontem,seu Taveira,de choque séptico,apendicite
supurada.”
Por mero reflexo,Seu Taveira falou,virando-se para o ateliê
de Alceu:
"Venha ouvir essa,Alceu.Sua mulher está me saindo
uma piadista de mão-cheia.Humor negro,é verdade,mas
sempre humor...”Ao não obter resposta,caminhou
para o ateliê e não viu ninguém ali.Foi,então,até
o rapaz que atrelava a junta de bois à roda de misturar
o barro e perguntou a ele:
“Ximbica,cadê o Alceu?”
“Eu vi ele faz uns quinze minutos,Seu Taveira,queimando
uma peça no forno”.
Seu Taveira levou a mão à cabeça,deu-lhe
umas pancadinhas como quem tentasse botar ordem nela.Nesse meio
tempo,Ana entrara no ateliê do marido e viu sobre sua
mesa de modelagem uma peça de porcelana e um papel debaixo
dela.Tomou-o e leu o seguinte:
Minha querida Aninha,
Faz poucos dias que não nos vemos e sinto uma saudade
desesperadora de seus braços.De agora em diante eu a
verei sempre mas levará algum tempo para você me
rever.Um dia nos veremos novamente e será muito melhor,
pois nossa filhinha estará junto de nós. Como!?--talvez
pergunte você na sua incredulidade,ou melhor,depois de
todos os acontecimentos,você perguntará sim: quando!?Deus
em sua infinita misericórdia permitiu que tudo acontecesse
para tocar alguns corações,entre os quais,o seu,minha
querida.
Saiba que ao fechar meus alhos para esse mundo,a primeira pessoa
que vi no Outro Mundo foi a nossa Purezinha.Se você soubesse
com que emoção pronunciei esse apelido que você
afanou da esposa do Monteiro Lobato e tão bem o aplicou
à nossa filhinha ... Choramos de felicidade e dor durante
horas.Mais de felicidade do que dor,para ser preciso.Não
se preocupe com ela.Ela está bem,diz que já esqueceu
o que sofreu nas mãos daquele homem,que na verdade ela
teria é que agradecer a ele por ter feito o que fez.Que
era a prova decisiva que lhe deu direito a galgar vários
degraus de uma só vez em direção ao Infinito.Ela,na
verdade,é agora a minha professorinha nas coisas que
realmente importam na vida.
Para você,meu amor,ter uma idéia de como é
nossa filhinha aqui,fiz uma peça de porcelana da sua
figurinha.Foi o máximo de perfeição que
consegui atingir.No entanto,é só uma pálida
idéia de como ela é.
Quando for à roça ou mesmo na cidade(mais raro),você
se deparar com um joão-de-barro a saltitar no chão
em busca de comida ou nos galhos,pense em mim.Lembre-se:só
quando vir esse passarinho.É uma condição
que te imponho.Você deve viver sua vida,tocar seu barco,espantar
a tristeza.Afinal,estamos ambos inseridos na imortalidade e
nossos desejos e aspirações são tão
válidos e reais em seu mundo quanto no meu.
Hoje,antes de vir à olaria,fiz uma ronda pela nossa querida
Calçado,nas primeiras horas que precedem o nascer do
sol.Estava ela envolta no nevoeiro e a iluminação
difusa vinha dos postes.Os garis da prefeitura varriam as ruas
e conversavam baixinho.Achei simpática essa delicadeza
deles.Tive vontade de abraçar cada um deles,e em pensamento
o fiz.Ao pé da ladeira do Montanha Clube,vi um gambá
subir numa árvore de tronco reto como um poste,ao ser
caçado por dois vira-latas.No final da rua Quinze,vi
nossa casinha,e julguei ver também o historiador e poeta
da cidade em seu passeio matinal,talvez pensando como rematar
um conto ou simplesmente matutando nos estranhos caminhos da
vida.
Estas cenas em si tão banais,fizeram nascer dentro de
mim um sentimento muito forte de responsabilidade para com o
destino de nossa cidade e de todos os que nela vivem.Ah! se
todos pudessem sentir o que senti...
Até breve,Aninha,um abraço e um beijo do
Alceu.
A
peça de porcelana representando Purezinha está
muito além de toda descrição possível.
Talvez se possa descrevê-la melhor pelos efeitos que ela
causava em quantos a viam. Cientistas que a examinaram estavam
indecisos quanto a um ponto: o elemento de origem desconhecida
que fora encontrado nela,ao ser submetida a exames espectroscópicos,viera
de outro planeta ou era o resultado de uma exposição
a um calor demasiado intenso que provocara a transmutação
atômica de um ou mais elementos terrestres?O certo é
que quem a via ficava tomado de um grande bem-estar espiritual
e físico que durava dias ou até semanas.Mas ninguém
entendeu o porquê de a peça de porcelana se manter
íntegra apenas por um ano;findo o qual,ela se despedaçou
em milhares de fragmentos sem que ninguém a tivesse tocado.
Calçado,inverno
de 2005.
Carlos Rezende