O
criterioso Mengtzu, filósofo confucionista que viveu
entre 380 e 289 antes de Cristo, declara em seu famoso tratado
de moral que os grilos são amuletos vivos da boa sorte
e que protegem contra o mau-olhado. O pouso ocasional de um
desses ortópteros no ombro direito de uma pessoa é
promessa de saúde, riqueza material e felicidade no amor.
Isso deve explicar por que os chineses os tratam como bichos
de estimação, não obstante a existência
daqueles que treinam os pobres coitados para grilos de briga
e gastam dinheiro a rodo apostando em seus lutadores. Chato,
porque, segundo regras milenares, não há vitória
sem a morte de um dos rivais. O fato de que também apareçam
na culinária chinesa deve estar ligado à crença
nas virtudes mágicas da ingestão do inseto, e
não deve ser outra a origem da velha máxima mengtzuana:
"Felizes daqueles que têm um grilo na barriga."
É
bem verdade que o gryllus alpendri (grilo-das-varandas) que
passou um mês hospedado no canteiro de nossa varanda nunca
pousou no meu ombro direito. Nem no esquerdo, antes que me perguntem.
Não. Levava todo o dia claro em suas galerias subterrâneas,
cuidando da despensa e da câmara nupcial, e afinando as
asas anteriores para o berreiro noturno. Canto de acasalamento,
dizem os entomologistas, mas tenho certeza de que por aqui não
arranjou fêmea alguma com isso. Do contrário, segundo
minhas consultas a alguns sítios internéticos
sobre o tema, os cricrilos teriam ganhado uma rouquidão
não inteiramente estranha aos nossos próprios
hábitos na hora de trepar. A rouquidão (rouquidão
das nervuras das asas, vejam vocês) e o baixo volume do
canto indicariam a presença de uma parceira, sem erro.
Foi
por isso que se mandou, não tenho dúvida. Com
certeza leu minha crônica "O grilo na varanda",
sentiu que era com ele, soube do matagal à beira do rio
Tingüi, a dois ou três saltos de onde estava, arrumou
suas tralhas e deu o pinote. Fez muito bem. Ali não vai
cantar em vão.
Confesso
que não me deixou saudades. Não vou agora mentir
e dizer que não estava doido para acabar com ele. Depois
de ir para a cama, levo quase uma hora para conciliar o sono,
costume antigo, e com a barulhenta cantoria dele isso chegou
a um nível intolerável. Todos aqueles que, além
do grilo, leram a crônica supramencionada devem lembrar-se
que eu tinha até comprado uma lupa e um fisgador de palha
seca para desentocá-lo durante o dia. Foi ótimo
que tenha ido embora espontaneamente, poupando-me de cometer
um grilicídio. E se tomou o rumo do nosso malcheiroso
Tingüi, pululante de fêmeas, está neste momento
grilando uma boa dúzia delas.
Mas
é preciso corrigir o filósofo chinês em
um detalhe crucial. Pelo que aconteceu comigo, eu diria que
os grilos sempre dão sorte, pousando ou não no
ombro direito dos outros. Quase sem trabalho algum nos últimos
seis meses, já me contrataram para cuidar da preparação
de três livros só nesses primeiros vinte dias de
2007. Isso é absolutamente inédito em minha vida
profissional. Claro que foi o grilo. Três livros, em pleno
mês de maré baixa no mercado editorial, é
sorte das grandes. Descontado o exagero, é megassena.
Vou
torcer por você, meu saltitante amigo. Tomara que em seu
novo hábitat encontre uma grila de fechar o matagal,
e ambos produzam muitos grilinhos simpáticos e sortudos.
E, pensando melhor, apareça quando quiser. Venha com
a família para uns dias em nossa varanda. Temos agora
boldo, guiné, espada-de-são-jorge, saião
e outros quitutes grilescos. Está com medo das sugestões
da Betinha? Esqueça. Se aparecer por aqui uma lagartixa-da-mauritânia,
eu acabo com ela.
Luiz
Gerra
lyguerr@gmail.com
Luiz Guerra, 58, cronista e poeta carioca, colaborador semanal
da Agência Carta Maior.