Ao ler a estória do Fefeu a respeito das brincadeiras
de infância, lembrei de uma época que um brinquedo
marcou muito aqueles tempos de infância. Tinha mudado
para Calçado um promotor de justiça, acho que
o nome era Wolmar Bermudes. Ele tinha um filho da mesma idade
minha que se chamava Carlos Augusto. Eles moravam perto da pensão
do Sr. Tiná ao lado do grupo escolar. O Carlos Augusto
tinha vários brinquedos. Gaita, bolas de várias
cores, balão, bicicleta (eu também tive uma novinha
que meu pai comprou do pai do Fefeu porque eles foram morar
em Cachoeiro. Era uma bicicleta alemã marca GORICKE,
que depois meu pai vendeu para o Sr. Carlito, quando viemos
morar em Vitória em 1967.) De todas essas brincadeiras
que o Fefeu citou, tinha uma que eu gostava muito. Brincávamos
com um carrinho verde conversível que pertencia ao Carlos
Augusto. O carrinho era lindo e uma novidade em Calçado
naquela época, pois ele era de lata mesmo. Hoje em dia
são todos de plástico. Imaginávamos buraco
na calçada que o Carlos Augusto cavava de mentira para
marcar onde deveríamos desviar. Fazíamos uma viagem
a Bom Jesus pela nossa cabeça. Íamos fazendo curva,
marcávamos na calçada os lugares, como a Vala,
Fazenda Velha, curva da Volta Fria e a descida na chegada a
B. Jesus. Era um de cada vez a pilotar o carrinho conversível.
Quando chegava a minha vez eu ficava numa euforia sem tamanho.
Lembro-me que um dia torci o pé no pedal, pois não
tinha me posicionado ainda e empurraram o carrinho muito rápido
e não deu tempo em acertar o pé. Apesar de muita
dor, a euforia era tanta em estar pilotando o carrinho, que
acabava esquecendo que havia machucado o pé. Não
podíamos brincar na rua, somente em cima da calçada,
porque era uma recomendação da mãe do Carlos
Augusto. A rua não era calçada naquela época.
O calçamento acabava no meio da ladeira perto dos correios.
Certa vez em uma dessas brincadeiras com o carrinho, ao ter
que fazer a curva de volta na calçada, eu não
fui no canto da calçada perto da casa e quando curvei,
fui parar na rua rolando junto com o carrinho. Fiquei todo arranhado
e sujo de terra. O carrinho não arranhou mas também
ficou todo sujo. O Carlos Augusto imediatamente foi buscar água
e um pano para limpar o carrinho, com m medo da sua mãe
repreendê-lo por ter ido brincar na rua. Hoje quando estou
em Calçado e olho para aquele lado que ia do cartório
da D. Edissé até a casa do Fefeu, só vejo
a maioria das casas fechadas e nenhum menino brincando na calçada.
Me pergunto, onde foram parar os personagens da época
? Por onde andará o Arnaldo, filho do S. Tiná
que era surdo? E o Carlos Augusto também nunca mais tive
notícia. A vida é uma eterna mudança. Coincidência
ou não, depois de tantos anos fui satisfazer a minha
vontade, um sonho de menino em ter um carrinho verde conversível.
Vitória,
dezembro de 2006.
Almir
Lobo de Aguiar
Email: almir.lobo@arcelor.com.br
