Washington Militão era da raça dos gagos,mas dos
gagos sem o nó cego dos recalques,sem o balaio de caranguejeiras
dos complexos,um destraumatizado das molas e geringonças
do psiquismo.0 Id,o Ego e o Superego de sua pessoa viviam na
maior das gandaias,reciprocando-se esposas numa esbórnia
que só vendo.Detestava de morte lero-lero de psicólogo
e edipicices de psicanalista imaginoso.Como descendente de nordestinos
nascido e criado no fogo-cruzado e nos massacres de Herodes
da Baixada Fluminense,era macho de coçar as coisas em
velório cerimonioso de prefeito querido assassinado no
cumprimento de mandato eletivo. Entretanto,Cupido,que é
rechonchudo trocista,fê-lo casar-se com uma psicóloga,dona
Terebintina Militão,possuída de falar manso mas
pingativo de furar pedra.Implicancista,certo dia endereçou,passou
cola e remeteu Militão para os cuidados sanativos dum
colega,que ficou de apertar os parafusos da máquina conversatória
do consorte, ou ao menos passar graxa de modo que os mancais
das engrenagens engatassem marcha correta.
Militão,no que abriu a porta do consultório do
dr Morubixaba Índio do Brasil,viu o dito cujo a balangar
sua pessoa numa rede,cabeçorra desguarnecida de pelo,salvante
umas moitas de falripas laterais por cima das orelhas, luzidia
brilhando em sua direção e perninhas de través
na rede,e se ninando nela e a fazer gorjeios com a boquinha
em formato de funil, que nem bebê de berço a treinar
os primeiros trinados.
Deu Militão um assovio entrecortado de gago para dar
sinal de sua presença.O psicólogo virou a cabeça,sorriu
largo e veio sentar-se na cadeira em frente a Militão.O
dr era um tipo franzino cheio de cacoetes.Crivou-o de perguntas
indiscretas sobre a sua infância.Militão suportou
todo aquele papo furado estoicamente, mas quando o patifezinho
do psicólogo lhe perguntou sem mais aquela, se ele por
acaso tinha sido obrigado em seus verdes anos de garoto a fazer
boquete à força para alguém,Militão
o mandou pentear macaco e deixou o consultório sem pagar.Em
casa,brigou com a esposa, resolveram desmanchar o casamento
e dois meses depois Militão subiu a serra e veio morar
em Teresópolis.
Aceitava sua gagueira como um fato da vida-e pronto.Até
conversava sobre ela,contava piadas de gago, mas não
tolerava que o humilhassem por esse defeito ou procurassem causas
psicológicas para ele.Era um mal físico,algumas
células cerebrais defeituosas,espécie de fusível
queimado que não pudesse ser substituído--assim
ele pensava e ponto final.
Como todo gago,era dado às artes oratórias.Aliás,essa
tendência de gago remonta ao sublime orador grego da antiguidade,o
célebre Demóstenes,que tentava curar-se de sua
gagueira enchendo a boca de pedrinhas e falando alto à
beira-mar,de modo que o som de sua voz sobressaísse ao
barulho das ondas.É verdade que a história não
diz que ele tenha se curado da gagueira,porém,somos tentados
a admitir que sim,pois do contrário Plutarco,outro gago,digo,grego,não
se daria ao trabalho de escrever sobre ele.
Militão empregou-se como atendente num posto da AMPLA,a
empresa que brinca de fornecer energia elétrica para
o Estado do Rio.
Quando apertou uma tecia de seu computador,um número
relampejou numa tela para a qual todos os contribuintes olhavam
como que hipnotizados.Um indivíduo magro,cara enfarruscada
de quem está brigado com o mundo,levantou-se e veio sentar-se
à sua frente. Washington Militão lhe perguntou
cortesmente:
--Ô-ô-ô-Ô-quêêê o
a-a-amiiiiii-go deseja?-,seu rosto torcendo para a esquerda,torcendo
para a direita,um olho se fechando intermitentemente,testa franzida,bolhas
de cuspe avolumando-se e transitando pelos lábios,direita-esquerda,esquerda-direita,direita-esquerda,etc,algumas
acertando o atendido em cheio na cara e no peito.
0 cliente teve um ligeiro estremecimento de corpo e seu rosto
ganhou uma fixidez súbita.Mesmo assim,falou:
--Miii-í-inha
coooon-ta vee-io errr-rada.
--Pooiis n-nnão.Quaaal o se-e-eu Cê-cêPeeeF?
Neste ponto o cliente obteve uma confirmação de
toda sua suspeita.Pareceu-lhe que,de repente, uns 3 litros de
sangue tinham deixado as partes mais baixas de seu corpo e ido
para sua cabeça.Agora era sua vez de falar.0 nervosismo,já
comum em todo gago,juntou-se ao ódio e contorceu toda
a sua pessoa,dos ombros para cima.
--OÔÔÔ se-nhor esss-tá meee imiii-ii-tannn-do!
!--No cliente,a gagueira manifestava-se de outra forma.Dava
ele de repuxar a cabeça para a esquerda e para a direita,em
movimentos espasmódicos,enquanto a boca abria-se meio
palmo e a língua se tornava visível,desfechando
os perdigotos como uma catapulta.
--Aaaa-absoo-luutammeente.Sôôô-u gaaaago taaa-aam-bém!
---Queerofaaa-larr com oooo Cheeee-efe!
A Supervisora dos Atendentes,que tirava umas receitas pela Internet
num canto mais afastado do balcão,enquanto simultaneamente
tentava convencer a filha adolescente,num Chat particular,que
não se deixasse engravidar agora,aos 14 anos,e aguardasse
um pouco mais,ouviu o clamor do gago e o vozerio dos clientes,que
começavam a protestar contra a demora no atendimento,e
aproximou-se do balcão,de mau-humor.No entanto,teve que
fornecer uma explicação ao cliente gago:
--Meu senhor,esse nosso atendente sofre de distúrbio
da fala--disse ela,adotando uma perífrase,como lhe tinham
ensinado num treinamento comportamental.--Ele apenas emite os
fonemas em repetição iterativa--ajuntou ela mais
um circunlóquio que aprendera,talvez para que tudo soasse
mais científico e,portanto,não desse pega para
ironias.E a seguir dirigiu-se ao seu funcionário:
--Militão,fala cantando que a gagueira passa.
De fato,quando Washington Militão cantava--e ele gostava
de cantar,como todo gago desinibido,aliás,gosta--ninguém
que não o conhecesse o diria gago.Nas festinhas da AMPLA,Militão
fazia caraoquê,oferecia-se para dar as saudações
a um novo funcionário contratado ou simplesmente puxar
o saco da Supervisora numa louvação verbal—é
bem verdade que a cachaça também ajudava.Porém,mal
começou ele a encher os pulmões para se dirigir
ao cliente em modo cantante,teve que parar ante o brusco rompante
dele,que gaguejou alto,sumamente ofendido que alguém
pilheriasse com ele e que ainda por cima uma chefe aderisse
à pândega de inimaginável mau gosto de seu
subalterno:
--Nããããã aaacre-dito e vooou
à Ju-ju-ju-jusssss-tiíii-ça--e saiu em
passadas marciais em direção à Defensoria
Pública.
Teresópolis,8
de julho de 2007
cev.rezende@uol.com.br
Carlos Rezende