O MEDO E O PINCEL

 

 

Certa vez, em São José do Calçado, minha querida Terra natal, mais precisamente nas imediações da rua Francisca Teixeira, indo pro Bandeira e Jaspe, meu cunhado (Neném Poeira) estava pintando sua casa, quando viu cair pelo barranco, de uns 4 metros de altura, que fica no fundo de seu quintal um individuo que parecia ter visto o bicho ruim. De repente, sem que desse tempo do Neném tentar socorrer o tal indivíduo, caiu outro sujeito que estava na perseguição do primeiro. Em seguida, surgiu um terceiro que havia saltado o muro ao lado e os três entraram pela casa dentro como se o mundo estivesse acabando.

- Que diabo está acontecendo! – pensou o Neném, meio apavorado com a situação. Nunca havido presenciado um episódio semelhante. E, mesmo sem saber do que se tratava, entrou correndo atrás e percebeu que o primeiro sujeito estava sendo perseguido pelos outros dois que gritavam que iriam matá-lo.

Eram dois irmãos que ficaram sabendo, pela mãe, que o dito indivíduo a havia molestado a alguns instantes. Furiosos, decidiram eliminar o sacana que gostava de se dirigir às mulheres com palavras obscenas e gestos que indicam más intenções.

Já no quarto, os dois irmãos começaram a espancar o sujeito que gritava por socorro, sem perceberem onde estavam, quando o Neném resolveu intervir, abraçando aquele que apanhava, na tentativa de evitar que os golpes dos irmãos fossem fatais. Sobrou pro meu cunhado que levava pontapés e murros por toda a parte. Os dois irmãos não obedeciam os pedidos do Neném para pararem com aquilo e continuavam a espancá-los.

Meu cunhado, percebendo que não adiantava continuar gritando com os irmãos, tentou sair do quarto, caminhando em direção à sala para levar seu protegido para a rua. Enquanto tentava fazer este percurso, ainda levando pancadas por todo o corpo, gritou pelo Duda que o ajudava na pintura, para que ele telefonasse para a polícia porque o negócio estava preto pro seu lado também.

Nada do Duda correr em socorro do Neném que continuava tentando chegar até à rua para, então, se livrar daquela situação que lhe pegou de surpresa e nunca havia acontecido em sua vida.

Aos trancos e barrancos, o Neném conseguiu jogar o indivíduo na calçada e, como o portão não se abriu todo, os dois irmãos não conseguiram passar no mesmo instante, o que permitiu que o tal sujeito saísse em correria pela rua, dobrando a esquina do Paulinho Beline e desaparecesse. O Neném, mais aliviado, viu os dois irmãos desapareceram também na mesma esquina, ainda naquela perseguição alucinada.

O episódio levou alguns minutos, tempo suficiente para a polícia aparecer e evitar uma tragédia. Mas, não surgiu nenhum policial. Então, o Neném, entrando pela sala, gritou pelo Duda que estava trancado no banheiro com uma lata de verniz no chão sobre um pedaço de papelão e um pincel encharcado na mão trêmula.

- Duda. Por que você não telefonou para a polícia? Não viu que eu estava levando pancadas daqueles dois malucos? Há quanto tempo você está aí neste banheiro?

- Ah! Seu Neném. Ligar pra polícia eu não liguei não. Mas, dei umas três mãos de verniz na porta!...

Marcio Furtado
marciofurt@yahoo.com.br

 


 



 

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