Quem sou eu? O que faço? Pra que sirvo?
Falar
sobre este assunto é muito complicado. Primeiro, porque
sou suspeito e, segundo, porque a poucas pessoas interessa.
Mas, estou aqui, não pra falar de mim, mas pra dizer
que, no dia 21 de setembro próximo passado, estive em
Alegre para fazer o lançamento do meu livro (MADALENA),
a pedido da Direção do Colégio “Aristeu
Aguiar”, onde também trabalhei como professor de
Matemática. Foi um evento muito bem organizado pela Professora
Francisca (Diretora), tendo a participação especial
da Professora Jaqueline que, através de uma encenação
teatral, colocou alguns de seus alunos para representar personagens
do romance criado por mim. Foi um espetáculo à
parte... Contudo, o que mais me comoveu foi a apresentação
feita por minha prima Rita de Cássia Furtado Torres,
a meu respeito.
Rita,
trazendo no sangue o dom de saber escrever, tal como sua tia,
a saudosa Dona Nádia Teixeira que lhe deu todo o embasamento
para a vida, deixou os escritos daquela apresentação
que hei de guardar para sempre, porque representa pedaços
da minha vida, tão bem contados e que, com a permissão
dela, transcrevo a seguir.
“Marcio
José Furtado, autor de Madalena, e meu primo, solicitou-me
que como única parenta próxima, residente aqui
em Alegre, fizesse sua apresentação quando do
lançamento de seu livro.
Na
hora, confesso que a vontade que tive foi de dizer não.
Sou preguiçosa para escrever, tímida para falar
em público, mas os laços familiares foram mais
fortes e eu disse sim.
Dessa
forma cabe-me apresentar-lhes o autor de “Madalena”,
Marcio José Furtado, filho de Acácio Dias Furtado
e Maria José Furtado, nasceu em São José
do Calçado, em dezoito de junho de mil novecentos e quarenta
e três. Estranha coincidência, quando peguei seus
dados para fazer essa apresentação, vi que nascemos
ambos, no dia dezoito de junho, apenas com alguns anos de diferença.
Para
escrever essa apresentação fiquei pensando em
outras que já vi ou li, arrumadinhas, muito definidas
e às vezes muito formais. Coisas formais não me
atraem muito, e penso que a formalidade não cabe bem
aqui, pois falar sobre alguém é refazer caminhos
percorridos, é sentir a proximidade das emoções
já sentidas por esse alguém, é refletir
sobre suas aventuras, anseios, sonhos, realizações
e rotinas, é penetrar ousadamente na vida do outro, desnudando-o
um pouco.
Marcio
viveu até os vinte e dois anos na ‘Fazenda do Penedo’,
local que se minha memória for correta, moraram meus
pais quando se casaram.
Morar
na roça é um privilégio, é ter constantemente
a presença de odores marcantes, que entranham em nossas
lembranças, o cheiro e o gosto da manga madura, colhida
no pé a pedradas, o caldo escorrendo pelas mãos
do moleque se juntando à poeira resultante das brincadeiras.
A
goiaba madura, vermelhinha, mordida com gula, que nem dá
tempo para perceber os bichinhos. São gostos, cheiros
e cores fortes, o verde do pasto, o multicor do gado, o branco
dos pendões do milho, o cheiro do mato, do curral, o
sabor do leite quente recém tirado e da água da
mina são retalhos longínquos da infância
que não se esquece, e cuja magia e encanto muitos não
conhecem.
É
vida de menino da roça, menino pobre, segundo filho varão
de uma família de dez filhos. Menino que constrói
seus brinquedos e faz sabugo de milho virar boi, troncos de
árvores virarem rodas de carretas utilizadas para descer
os morros da fazenda nas divertidas brincadeiras da meninada,
calção largo, de tecido grosso, camisa aberta,
muitas vezes sem botão e às vezes sem ela, mas,
suado, cansado, feliz, construtor.
Marcio
menino, vida livre na fazenda, sobe morro, desce morro, banho
de córrego, brinca muito, faz ‘arte’ e estrepolias,
brinca e briga com os irmãos, vida comum de menino feliz.
E nesse faz que faz, o tempo passa, e o menino vira adolescente.
Sonhos
de adolescentes! Que menino não gosta de jogar futebol?
Com ele não foi diferente. Meninote comprido, magrelo,
aos quatorze anos era titular de um time de futebol em Calçado,
que, se não estou enganada, era o ‘Americano Atlético
Clube’.
Gostava
de ler, escrever crônicas, poesias e cartas de amor para
as namoradas, suas e dos colegas, atendendo ao pedido desses.
Penso
que essa ‘coisa’ de gostar de ler e escrever foi
herdada. Parece-me que já ouvir dizer que tia Zezé
gostava muito de ler (fato de que me lembro) e também
de escrever, e nessa arte tio Acácio não ficava
para trás, existem histórias que falam de poesias
escritas em francês para as namoradas. Fato que me foi
contado pela tia Nádia, escritora e fazedora de muitos
discursos em Calçado, a mesma que um dia o Marcio pediu
que lhe fizesse um discurso e ela negou, dizendo-lhe que ele
tinha capacidade para escrever seus próprios discursos
e que se não tentasse jamais saberia o quanto era capaz.
Futebol!
Bola que rola, corpo que corre, voz que grita, sonho que se
persegue. Muitas vezes esse se constitui em oportunidade de
vida, em atalho na estrada do viajante que olha ao longe sua
meta, como uma estrela brilhante a ser atingida. É Estrela,
um Estrela Futebol Clube, fez parte da vida do Marcio, quando
esse quis concluir o curso científico e não viu
possibilidade para tal, pois os colegas da turma foram embora
de Calçado fazer cursinho pré-vestibular, ficando
a turma com apenas dois alunos, Marcio e José Bento.
Como
o científico não podia continuar com apenas dois
alunos, Marcio foi estudar em Cachoeiro de Itapemirim, e lá
foi jogar no Estrela, que pagava seus gastos com alimentação
e pernoite.
Mas
o garoto era bom de futebol, muito bom de bola. Com que classe
manipulava a bola colocando-a aonde queria. Que defesa brilhante!
Penso que um dia até lhe passou pela cabeça ser
jogador profissional, pois chegou a treinar no Fluminense, no
Rio de Janeiro.
Na
constante linha ascendente da vida, quando damos uma grande
piscada, ao abrirmos os olhos vemos que o tempo passou, o adolescente
se fez rapaz, homem muito cedo, casou-se quase criança
e com o casamento novas responsabilidades, e agora o jovem-homem
Marcio prossegue na vida com esperança e coragem para
vencer os obstáculos que venham a surgir.
Mas,
a vida é feita de escolhas constantes e entre as escolhas
feitas pelo Marcio uma foi a de ser professor. Ser professor/educador
não é tarefa muito fácil, é preciso
ter coragem, amorosidade, crença e generosidade para
se doar ao outro, estabelecer intrincadas redes com ele, mas
acima de tudo ter capacidade de sonhar com um mundo melhor.
Quer
visão maior para penetrar no jovem adolescente que a
união entre futebol e educação? Foi o que
fez o Marcio quando trabalhava em Afonso Cláudio, onde
morou e lecionou por cinco anos. Jogou no Botafogo e no Ipiranga
(times do município) sem qualquer ganho financeiro, simplesmente
pela oportunidade de maior proximidade, de troca, com seus alunos.
Talvez seja o que possamos chamar de unir o prazer, a alegria
do encontro, a troca, à arte de se jogar futebol.
De
Afonso Cláudio Marcio veio com a família para
Alegre, fazer o curso de Agronomia, talvez, na busca de uma
maior estabilidade econômica, para a família. Também
vim fazer faculdade aqui. Reencontrei-o e passei a freqüentar
sua casa. Era uma casa simples, lá na rua da piscina
do Rio Branco, casa de professor/estudante, pois continuava
na educação, agora no Aristeu Aguiar. Apesar de
muito simples, sua casa tinha um ar gostoso de acolhimento e
alegria de crianças, transmitida por seus dois filhos,
crianças pequenas na época, mas que agora fazem
dele avô de dois netos.
Max
Sandro, o filho mais velho, criança doce, de cabelos
castanhos muito lisos, olhinhos espertos, foi com quem convivi
mais porque foi meu aluno na alfabetização.
Danielly era a menorzinha, mas não menos ativa e carinhosa.
O
que encaminha nossa vida não são engrenagens constantes
e mecânicas, são opções, escolhas,
processo com altos e baixos, movimentos constantes, diferenciados
e muitas vezes imprevisíveis, e assim, Engenheiro Agrônomo,
assume nova profissão e vai para Vitória trabalhar
na EMCAPA, onde se faz pesquisador e lá fica até
mil novecentos e noventa e quatro, quando se aposenta no estado
como funcionário público.
Em
2001, sentido saudades da sala de aula resolve retornar ao ensino
e vai trabalhar na UVV como professor de Matemática,
Metodologia Científica, Estatística e Projeto
de Graduação. É o retorno, a volta. E quando
penso sobre isso, fico a imaginar como deve ser bom, após
um tempo afastado, preparar-se para a volta, ou seja, preparar-se
para o reencontro, para receber e ser recebido pelo outro, deve
ser como voltar aos braços de um amante de quem se está
saudoso.
Li há poucos dias um livro cujo nome é ‘Quem
educa marca o corpo do outro’, ousadamente vou mais longe,
penso que quem educa marca a alma, as entranhas, marca a vida
do outro. Às vezes fico pensando sobre as marcas que
trazemos na alma e pergunto: quem as deixou? De que maneira
elas afetaram a vida?
Pensando
nisso pedi ao Marcio que se lembrasse de algumas pessoas cujas
ações vividas cotidianamente deixaram aprendizados
que marcaram seu corpo e alma, transformando-se em legados que
fazem parte de sua história de vida.
Três
lembranças fortes retornaram. Uma delas foi a do professor
Aderbal, professor de Matemática. Vivia sempre com um
cigarro na boca, exigente, determinado. Ao Marcio deixou como
legado a crença na vontade e determinação
para vencer obstáculos.
Outra
foram seus pais, exemplo de simplicidade, responsabilidade,
honestidade, amor e carinho. Essa lembrança levou-me
de volta aos tempos de visita à casa da tia Zezé,
o carinho e paciência que ela demonstrava para com as
pessoas que a cercavam. Realmente, essa foi uma marca e tanto!
E me lembra uma frase de Albert Chuetes que diz ‘o exemplo
não é a principal maneira de influenciar os outros.
É a única maneira possível.’
Compreendo
então Marcio, porque a satisfação e o orgulho
imenso que você tem de ter podido ajudar seus pais, durante
vinte anos, ou seja, até o final de suas vidas, enquanto
precisaram de você.
Você
freqüentou com eles a escola do amor, aprendeu a tecer
os fios da vida do e com o outro. Penso que aqui cabem as palavras
de Rreimond Cóver, quando lhe perguntaram sobre o viver
e a vida, e o que queria desta:
‘E
então, você teve o que queria desta vida?
Eu
tive.
E
o que você queria?
Sentir
que amei, que fui amado, me saber amado na terra’.
São
marcas, marcas de outros, marcas nossas, marcas que foram feitas
por nossos pais e que no decorrer da vida podemos recriá-las,
não reprisá-las, e que nos fazem ver a vida como
vida, acreditando que somos capazes de aprender, criar, amar,
sonhar, desejar, odiar e rebelar-se.
Na
extensão do seu processo de viver, muitos momentos foram
divertidos. Outros tensos, alegres, decepcionantes, felizes,
mas alguns tristes e até confusos, quando a imaturidade
tem que se transformar rapidamente em maturidade, a fala tem
que ser mansa, mas a ação tem que ser forte, penetrante,
ousada, atuante para falar de coisas que às vezes não
se entende muito bem, mas o quadro que se apresenta é
complicado. Na época, fato doído, doloroso, complicado,
marca deixada na alma, inquietação e medo que
contribuíram para fazer dele o autor de Madalena, obra
nascida de enfrentamento de um de seus maiores problemas, a
vontade da irmã, frente a problemas sentimentais, de
suicidar-se e ele, ainda adolescente a tentar convencê-la
a não fazê-lo. Essa é a terceira lembrança,
a marca que gerou o escritor’.
Marcio José Furtado
marciofurt@yahoo.com.br