Onde estão nossos campos de várzeas? Chamávamos
estes, de campo de canto de rua. A cidade ficou monótona
sem as peladas de todo dia. Dezenas de garotos surgiam do nada
nos campos de outrora, em busca de uma abstrata vitória
no futebol.
Não
havia grama, não havia traves, somente um espaço
vazio, onde a improvisação transformava-o em Maracanã.
Não
havia juizes, porem, as regras eram claras. Muitas vezes, prevalecia
o grito. Quem gritasse mais, levava a melhor. Havia os habilidosos,
primeiros a serem escolhidos, havia também o dono da
bola, cujo lugar era cativo. Aliás, só havia jogo
se ele jogasse, caso contrario a bola adormecia debaixo do braço
a espera da definição. Quase sempre se chegava
ao consenso e a bola dente de leite rolava saltitante no chão
vermelho de terra batida.
Coitada!
Corria pelos meios fios, levava canelada, bico, ás vezes
a coitadinha saia zarolha de tanto ser maltratada. Porem, de
quando e vez recebia carinho. Um drible perfeito, um chute de
trivela, um acrobático gol de bicicleta e lindas tabelas.
Jogadas que emolduravam e enchiam os olhos dos amantes do futebol
que se furtavam em assistir estas aguerridas partidas.
Um
lado com camisa, outro sem para não confundir. Todo mundo
querendo ficar com a bola o maior tempo possível, uma
paixão inexplicável pela redonda, um amor explicitado
pelo suor, na derrota ou na vitória.
Hoje,
a Internet – MSN, orkut e os jogos eletrônicos tomaram
de assalto os jovens que já não mais se interessam
pelas peladas e outras brincadeiras reais. Agora tudo é
virtual. Não há menor esforço físico,
não há graça nem suor, é o culto
à obesidade.
Ontem
a “fominhagem” era tanta que à noite jogávamos
dupla no morro do Montanha Clube. Chutávamos do pé
do morro ao lado da casa do Zé Dávila de encontro
às traves, muito bem representadas por um poste na extremidade
da calçada e outra pelo muro do Montanha. Eu, Bendeca,
Carlos, Calinha, Renato, Zé Antonio, Gilberto. Tinha
mais. A memória não ajuda. Disputávamos
confrontos memoráveis.
No
paralelepípedo, a bola subia e descia enquanto os pés
descalços ficavam em carne viva. Dedos destroncados,
unhas extraídas, tampos de dedos abertos e solado feito
casco. Esse era o preço que pagávamos pelo divertimento.
A
alegria e algazarra da meninada incomodavam. Vez ou outra, nestes
campos imaginários, sorrateiros carrascos chegavam e
apreendiam a bola, ou pior - quando a fúria era maior
enfiava o canivete. E a bola! A pobre da bola, parecia sangrar
enquanto murchava. Com misto de espanto e decepção
a pelada eram interrompida. Era sina, no outro dia tinha mais
pelada em todos os lugares, proibidos ou não, e os jogadores
pareciam ser multiplicar.
Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
fernandosalglobo@terra.com.br
