Pequena Introdução Geral à Filosofia


Roteiro de um Curso
Aos MEUS EX-ALUNOS

 

0 texto, a seguir, é de um principiante na matéria, que aceitei lecionar para servir ao Colégio de minha terra e, também, aprender um pouco mais. Mestre, nunca fui; pois "mestre é quem aprende", já dizia Guimarães Rosa, nosso genial escritor.
Publico-o, agora, como simples recordação do tempo de professor, que fui, igualmente, de Psicologia e Funda_ mentos Sociais da Educação (Sociologia) na Escola de Formação de Professores, ao mesmo tempo que advogava.
Dezembro de 1998


NATUREZA DA FILOSOFIA

0 desejo de saber-- o conhecimento filosófico e sua distinção das demais formas de conhecimento.

1. Todos os homens, diz Aristóteles, têm, por natureza, o desejo de conhecer. E a prova disto—comenta Ubaldo Puppi(Itinerário para a Verdade,p.11)—“ é que todo conhecimento, independentemente de sua utilidade ou praticidade, nos agrada, nos deleita por si mesmo.”

0 desejo de saber é, assim, inato no homem. Ele já se manifesta na criança, através dos "porquês", que ela não cessa de formular. E este desejo é que constitui o princípio das ciências, cujo fim primordial não é fornecer ao homem meios de agir sobre a natureza, e, sim, o de satisfazer sua natural curiosidade.

Por outro lado, se o desejo de saber é, como se acaba de ver, essencial ao homem, deve ser, também,universal no tempo e no espaço. Realmente, o que nos ensina a história é que não há povo, por mais atrasado que seja, em que se não manifeste este pendor natural do espírito que é, por sua vez, tão antigo quanto a humanidade.

2. A filosofia é um conhecimento; mas nem todo conhecimento é filosofia. 0 conhecimento filosófico se distingue: a) do conhecimento empírico ou vulgar, que resulta de ato espontâneo do espírito, originado, inicialmente, da necessidade de saber; mas é um conhecimento imperfeito, pois que lhe falta, por vezes, a objetividade e se forma ao acaso por generalização extemporânea, sem ordem nem método. 0 conhecimento empírico, entretanto, não é para se desprezar; pelo contrário, visto constituir ele o primeiro degrau da ciência, a qual, apenas, faz aperfeiçoar os processos que o empirismo emprega para adquirir seus conhecimentos.

Ex.: as previsões meteorológicas do homem da roça, os provérbios e as máximas, etc
Baseando-se no senso comum (e, portanto, na própria natureza humana), o conhecimento empírico pode atingir, às vezes, nas suas conclusões, verdades infalíveis, evidentes por si mesmas, como "o todo é maior do que a parte", "tudo o que acontece tem uma causa, etc., cuja certeza é superior à de todas as conclusões da ciência. Neste caso, a "imperfeição" de tal conhecimento não diz respeito ao seu valor de verdade, mas, somente, ao seu modo de ser.
0 conhecimento filosófico se distingue ainda:
b) Do conhecimento científico particular, que tem por objeto um setor determinado da realidade. Uma ciência particular, como a física, a química ou a biologia, representa sempre um conjunto de conhecimentos sistemáticos sobre certo grupo de fenômenos. Cada uma destas ciências, por conseguinte, visa a substituir o empirismo por conhecimentos certos, gerais e metódicos, isto é, verdades válidas para todos os casos, em todos os tempos e lugares, e ligadas entre si por causas e princípios. Tal é, também, a característica da ciência em geral, inclusive a Filosofia, com a diferença de ser esta a mais alta das ciências humanas.
0 conhecimento filosófico é, assim, a mais elevada expressão da necessidade de saber. A Filosofia é uma ciência, enquanto quer conhecer as coisas por suas causas. Mas, enquanto todas as ciências se limitam a descobrir as causas mais imediatas--a Filosofia tem por fim descobrir as causas mais universais, isto é, as causas primeiras de todas as coisas.


CONCEITO ANTIGO E ATUAL DA FILOSOFIA

Filosofia, etimologicamente, significa ‘amigo ou desejoso da sabedoria’. Segundo uma tradição muito remota, que Cícero dava como verdadeira, cabe a primazia de ter dado ao estudo racional da realidade o nome de filosofia a Pitágoras, no século VI a.C. Antes dele, os filósofos gregos eram chamados sábios.
E Pitágoras, para quem o nome de sábio só devia convir a Deus, teria escolhido um nome mais modesto—filósofo--isto é, amigo da sabedoria.
Tal é a noção de Filosofia que nos dá a etimologia da palavra, e que ainda perdura na linguagem comum. De fato, o filósofo é um homem humanamente sábio. E aquele que se tem na conta de filósofo ‘obriga-se a fornecer aos homens as luzes humanas mais profundas sobre os grandes problemas que os preocupam’.
Entre os antigos gregos,--e, portanto, pode-se dizer, na sua própria origem,--a Filosofia era a ciência universal; e abrangia, então, quase todo este conjunto de conhecimentos que agrupamos, hoje, sob os nomes de ciência, arte e filosofia. Esta concepção chega até à Idade Média, na qual a filosofia toma grande impulso com Sto. Tomás de Aquino; e, a partir daí, as ciências dela se foram separando. Presentemente, a Filosofia não mais abrange a totalidade dos conhecimentos e existe, mesmo, o maior interesse em distinguir, claramente, estes dois gêneros de conhecimento que chamamos científicos e filosóficos.

DEFINIÇÃO DE FILOSOFIA

Há numerosas definições de Filosofia; pois, desde os tempos de Sócrates, Platão e Aristóteles, se procura defini-Ia, existindo já, de então até aos nossos dias, tantas definições que não poucos volumes seriam suficientes para as conter. Entretanto, se quisermos uma definição clara e precisa, temos que voltar a Sto. Tomás de Aquino. Filosofia é ‘o conhecimento científico que, pela luz natural da razão, considera as causas primeiras ou as razões mais elevadas de todas as coisas’.
Ou, como a define um autor moderno,Leme Lopes,--“é a ciência de todas as coisas por suas causas mais elevadas, adquirida à luz natural da razão.”

Ciência: um conjunto de conhecimentos certos, ordenados em harmoniosa síntese lógica, reduzidos a um corpo de doutrina.

De todas as coisas,a Filosofia estuda tudo o que de algum modo existe, tudo o que é.

Por suas causas mais elevadas,a Filosofia é um conhecimento pelas causas mais gerais e mais intimas: ela procura explicar as coisas de maneira que não seja necessário ulterior explicação.

Adquirida à luz natural da razão, a Filosofia funda-se, não sobre a autoridade, mas sobre a evidência intrínseca (evidência: conhecimento da impossibilidade do oposto, isto é, a plena luz com que a verdade aparece; evidência intrínseca: baseada no exame direto da questão, não na afirmação da autoridade).


OBJETO DA FILOSOFIA

Já vimos, ao diferençar o conhecimento filosófico das outras formas de conhecimento, que a Filosofia se distingue das demais ciências. Por isso, ou melhor, por não ser ciência particular, mas a ciência da universalidade das coisas, é ela que dirige e orienta todas as ciências. Assim, não possui a filosofia um objeto próprio, senão que variante, conforme a natureza dos problemas que é chamada a investigar.

Ora, como a Filosofia exerce, principalmente, duas atividades no sistema de suas investigações ou estudos, conta duas espécies de objetos: objeto material e objeto formal.
0 objeto material da Filosofia (chama-se objeto material de uma ciência tudo aquilo de que esta se ocupa), comum às ciências particulares, é constituído de tudo quanto existe e se torna acessível à inteligência humana.

0 objeto formal da Filosofia (chama-se objeto formal de uma ciência o aspecto sob o qual a ciência considera o seu objeto material) resulta do estudo desse objeto comum, sob determinado aspecto que lhe é próprio, em cada disciplina.

Assim, não há, na Filosofia, um objeto formal único, uma vez que ela abrange, em seu conteúdo de indagações, não uma, mas o conhecimento derivado de várias ciências distintas, em que se divide a Filosofia, constituída cada uma por um objeto formal distinto e próprio. Esses objetos, porém, se harmonizam, porque resultam de estreita analogia sobre a variedade e qualidade dos problemas estudados pela Filosofia, à qual todas elas se acham presas, formando as grandes partes de que é a Filosofia o foco irradiador e soberano. Tais ciências constituem, para usar de uma imagem, os satélites do sistema de que é a Filosofia o centro solar; mas que não se confundem com as outras chamadas particulares, por isso mesmo que são consideradas autônomas

DIVISÃO DA FILOSOFIA

Há uma divisão clássica da Filosofia em:
Psicologia
Lógica
Ética ou Moral
Estética e Metafísica

Esta divisão, porém, é contestável. Porque, por exemplo, deixa supra que a Moral poderia constituir-se, integralmente, sem a Metafísica, etc. Uma divisão mais racional, para a Filosofia, é a que parte do princípio de que as coisas podem ser consideradas seja em si mesmas, seja em relação a nós. Do primeiro ponto de vista, trata-se, apenas, de as conhecer por seus princípios supremos e suas causas primeiras; temos, então, a Filosofia Especulativa. Do segundo ponto de vista, trata-se de saber como devemos usar as coisas para o nosso bem; temos, neste caso, a Filosofia Prática.

Por outras palavras, a Filosofia especulativa, também chamada teórica, estuda a ordem realizada de fato no mundo. E a Filosofia prática, que também se pode dizer normativa, determina a ordem que os homens devem imprimir a seus atos inteligentes e livres, para alcançar os fins a que estão ordenados.

A Filosofia especulativa ou teórica é a própria Metafísica, estudo do ser. Esta, por sua vez, pode ser geral e especial, conforme estude o ser em geral ou determinados seres. A Metafísica geral divide-se em Ontologia,estudo do ser enquanto ser, e Criteriologia, estudo do ser enquanto pensado. A Criteriologia é relativamente recente entre os tratados filosóficos. Por isso, antigamente, Metafísica geral era sinônimo de Ontologia. Algumas das questões de Criteriologia se estudavam na chamada Lógica Maior. Hoje, a Criteriologia leva também o nome de Crítica.

A Metafísica especial se subdivide em Cosmologia,Psicologia e Teologia natural (ou Teodicéia). A Cosmologia estuda os corpos como corpos (o mundo material como tal), a Psicologia os corpos enquanto vivos ou animados (o homem), a Teologia natural (Teodicéia) estuda o ser incriado, Deus, na sua existência e natureza.

Quanto à Filosofia prática ou normativa, subdivide-se em Lógica Formal Moral (ou Ética) e em Estética. A Lógica Formal, também chamada Lógica Menor ou Dialética, dirige os atos da razão para a verdade; a Moral ou Ética dirige os atos da vontade para o bem; a Estética estuda o belo e os meios de realizá-lo pela arte: é a Filosofia da Arte.

Pedro Borges de Rezende



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