Bons tempos aqueles em que nossas avós ostentavam seu
belo cabelo branco, num coque caprichado. Umas de rosto enrugadinho,
retratando a luta da vida, com muitas histórias de amores,
traição, sofrimento.
Vitórias na maioria das vezes, pois só o fato
de verem seus cabelos embranquecerem, já era uma vitória.
Outras mais afortunadas com seu colo ornado de pérolas
pousavam para a posteridade.
Era um orgulho, um luxo aqueles cabelos prateados ou cor da
neve.
Passou o tempo.
Hoje bem poucas senhoras esperam o branquear dos cabelos, falta
paciência e entra a vaidade. O apelo da televisão.
Tantas cores tão lindas, em jovens mais lindas ainda
e entra nossa pretensão em achar que a cor do cabelo
vai mudar o estrago que o tempo causou.
Eu me incluo.
Já alquebrada no físico, quando meus cabelos esbranquiçaram,
resolvi mudar. Voltar aos belos cabelos louros e sedosos da
mocidade. Indicaram-me Henna. Tratamento natural.
Até que ficou muito bom.
Quando me olhava no espelho, já não me detinha
nas feições envelhecidas, olhava orgulhosa para
meu cabelo dourado. Achava-me chique.
E por estas e outras resolvi compartilhar tamanho efeito com
minha prima Guiomar, cujo cabelo já estava muito mais
branco. Foi uma luta para convencê-la. Pois como já
disse ela é radical.
Enfim consegui.
Compramos o produto e rumamos para o salão. Papo daqui,
papo dali. Ela eufórica e eu cantando vitória
visto tê-la convencido.
Passado os minutos chega a hora de lavar os cabelos.
Surpresa!
Eis que surge uma nova mulher.
Cabelos ainda molhados não revelando a cor real.
Secagem.
Revertério!
A cor ficou completamente diferente da minha. Ficou cenoura.
Eu tremi nas bases. A cabeleleira também. E ela uma “arara”
de brava.
- Pode dar um jeito, não saio daqui assim.
E eu a responsável pela transformação,
quase morri. Já sabia o que me aguardava.
A competente Vanda, muito das jeitosas diz:
- Fique tranqüila. Vou dar um banho de “brilho”.
Fui para a calçada, andava de lá para cá
e rezava:
- Pai Nosso, que estais no Céu... Ai meu Deus faça
com que dê certo, senão ela me mata.
Começo outra vez o Pai Nosso, interrompia.
- Vanda, posso ir ao banheiro?
Fui, botei os joelhos no chão e implorei. Consegui rezar
o Pai Nosso todo.
- Posso usar o telefone?
- À vontade.
Ligo para a irmã dela, para a filha e peço para
elogiarem o cabelo, pois ela estava meio assustada.
Termina a operação.
Melhorou consideravelmente. Mas a mudança foi radical.
- Tchau Guió, vou para casa.
- Nem pensar. Não subo essa ladeira sozinha, “nem
que a vaca tussa”.
No meio da ladeira, aparece Manoel do Tão de caminhonete,
pára e nos dá carona.
Pensei, agora ele vai criticar, (pois era muito crítico).
Ele olhou meio sorridente e disse:
- Você está igual a Aninha do Delorme.
Guiomar aceitou bem a comparação. (Milagre).
Ai fomos para o baile da “Feliz Idade” no Montanha.
No outro dia cedo, Vanda me liga.
- Vercondinha, fiquei preocupada com você, achei que ia
passar mal de tão nervosa. Passou bem à noite?
E Guiomar?
Então respondi:
A última vez que a vi estava dançando, “botando
o pião no chão” com a Aparecida que trabalhava
no José D’Ávila. Feliz da vida, pois todo
mundo elogiou.
Bem agora eu e ela, continuamos “louras” e “lindas”.
Valeu a agonia.
Novembro
de 2006
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com