SAUDADES DE CALÇADO

 


Lembro-me perfeitamente dos “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu, onde ele dizia:

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida.
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!...

Também eu, como muita gente, sinto hoje saudades do tempo em que era menino e corria pelas ruas de minha querida Calçado. Sinto saudades daquela época em que, preso aos meus pensamentos de adolescente, via as coisas com a esperança de poder crescer livre e cheio de sonhos. Por isso, também digo:

Oh! Que saudades que tenho
Da minha Calçado querida.
Dos tempos em que era criança
E que tudo era bom na vida.

Tinha o cinema, onde assistia aos seriados em preto e branco,
mas que traziam contentamento e muita ansiedade pela espera de cada sábado.

Aos domingos, tinha o futebol. Quem não se lembra do Americano e do Motorista? Quantos craques de bola por ali passaram e que, se hoje estivessem jogando, na certa seriam melhores do que os jogadores do meu Flamengo. À noite, após a missa, as voltinhas na praça onde, a cada semana, tínhamos a esperança de encontrar a menina dos nossos sonhos.

Durante os dias da semana, por volta das 12 horas e 30 minutos, viam-se os estudantes, impecavelmente uniformizados, dirigindo-se para o Colégio de Calçado. Era comum os rapazes pararem na praça para, sob as sombras das velhas árvores de fícus cheias de “lacerdinhas”, um animado bate papo entre uma laranja lima e outra, enquanto as meninas, na grande maioria, davam uma passadinha na igreja.

Lá no Colégio, do portão para dentro, não era permitido que alunos de sexos diferentes chegassem perto um dos outros. No pátio existia uma linha imaginária que separava os meninos das meninas. Nas filas, para a entrada, bem como nas salas de aula homens para um lado e mulheres para o outro. Ai de quem desobedecesse! Surgia, não sei de onde, o Pe. Amando e o castigo logo aparecia.

Por falar do Colégio e do Pe. Amando, lembro-me das seções do Grêmio Lítero Esportivo Rui Barbosa, onde todas as semanas a gente passava o maior sufoco, com medo de ser escolhido para participar das apresentações que os alunos eram obrigados a fazer em cima do palco do salão nobre. Eu, sempre muito tímido, jamais iria me apresentar como voluntário, como sempre sugeria o Pe. Amando, torcia para não ser chamado por ele e jurava que, uma vez escolhido, não subiria naquele palco, nem amarrado. Não deu outra. Numa quinta feira, no período da tarde, ouvi como um trovão aquela voz que dizia: Seu Marcio, como você não se apresentou espontaneamente, na próxima seção do Grêmio o senhor vai recitar a poesia da página 57 do seu livro. Não sei como, naquele momento, consegui chegar até àquela página e ler o título da poesia. Era Le Corbeau et Renard que quer dizer o Corvo e a Raposa. E, na quinta-feira seguinte lá estava eu recitando em francês.

Que saudades que tenho das festas de maio! Era mais de uma semana de barracas, pela praça. E o show pirotécnico que acontecia à meia noite do último dia, armado em frente da Igreja Matriz! Como ficavam lindas aquelas noites frias e de um sereno forte que nos molhava todo! Existiam as barracas onde se vendia: cachorro-quente, chocolate, quentão e outras delícias. Os bailes no Montanha tinham um requinte que não se vê mais. Cassino de Sevilha e outras orquestras famosas por lá passaram, deixando inebriadas as pessoas que freqüentavam o clube.

Por falar no Montanha, lembro-me do dia em que o Filim Leite assentou a primeira pedra daquela construção iniciada pelo Tonico da Bela. Berço de grandes bailes de carnaval, ao som inesquecível dos irmãos Sá Vianna, o Montanha recebia inúmeros calçadenses que viviam fora de nossa querida cidade. Que tempo bom era aquele!...

Agora, que tenho estado em Calçado quase todos os finais de semana, a saudade é ainda maior, principalmente por sentir as diferenças que existem entre o ontem e o hoje. Vamos abordar alguns pontos que, tenho quase certeza, meus conterrâneos daquela época irão concordar comigo. O futebol, por exemplo, acabou. O que não é privilégio de nossa terra. Os jovens de hoje não se interessam pela prática do esporte como no passado. Outro fato que se pode mencionar é o nível do ensino praticado nos dias de hoje. Que me perdoem os professores atuais, para o que vou dizer. Será que se ensina hoje como no tempo do Sr. Aderbal, Dona Nádia, Dr. Milton Garcia, Pe. Amando, Prof. Epaminondas, Prof. Carlos, Profª Noquinha, Dona Lélia Thiebaut, Prof. Amaral, Dr. Homero Mafra e tantos outros que foram os baluartes da cultura calçadense e que jamais serão esquecidos por aqueles que tiveram a felicidade de estudar com eles? Falemos do Carnaval. Hoje (que me perdoem os jovens), o que se vê não é carnaval. Bandas que só fazem barulho e se apresentam apenas para ganhar dinheiro. As músicas dos antigos carnavais só aparecem, através de CDs, enquanto as bandas não sobem nos palanques. A partir daí, misturam-se diversos ritmos, chegando ao final da madrugada com um autêntico forró.

Gostaria de falar sobre Política, Religião, Saúde, Agricultura e outros pontos de importância, mas por saber que muita gente não gosta de ser criticada, deixarei de fazer qualquer abordagem sobre estes temas. Apenas perguntaria: Será que em alguns dele houve mudança? O que mudou? Mudou para melhor? A cidade cresceu ou inchou? Prega-se hoje mais Política ou Politicagem? Será que as pessoas estão mais descrentes em Deus? Como está a saúde do nosso povo? Será que a maioria dos profissionais da saúde está preocupada com os pacientes ou faz desse “negócio” um bom comércio? Será que alguém valoriza o homem do campo em nossa região? Com tantas terras que temos, por que não produzimos?

Marcio José Furtado
marciofurt@yahoo.com.br

 



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