SEM TETO



Corria o ano de 1970 e eu retornava a Irará no estado da Bahia, onde morava e trabalhava no Banco do Brasil, após passar minhas férias em Bom Jesus.Era noite de domingo quando cheguei à república e notei o ambiente 'carregado': Benedito havia mudado, não vi sinais de carteado, cada um em seu quarto, quietos. Tomei banho e fui à casa da Eulina, minha noiva. No dia seguinte, bem cedo, tomei ciência do ocorrido pela "Nêga", nossa secretária: dias passados houve uma noitada de baixo nível o que levou a vizinhança a apresentar queixa ao dono do imóvel que, então, pediu sua desocupação. Fui à procura de acomodação. Não havia hotel e a única pensão, fechara as portas. Lembrei de D.Helena, senhora de fino trato, membro de familia tradicional na cidade, inclusive mantinha a dominio da política. Há tempos, D.Helena havia-me feeito um convite para morar em sua casa, a fim de fazer companhia a ela e a seu marido "Seu" Everton, o homem mais feio que já vi até hoje. Nem o "Pedro mal acabado" de Rosal competia com ele. Eram os pais do cantor Tom Zé. O problema era, na realidade, o "Seu" Everton me aceitar e, se não o fizesse, estava coberto de razão. Por volta de 1967/68, pelo menos uma vez por semana, íamos, após o expediente do banco, eu e Rossini, colega de banco, por volta das 4 horas da tarde, à loja de tecidos deste senhor. "Seu" Everton, além de muito feio - um ensaio de robô e mal feito - era também "pinguço". Rotineiramente, abria seu comércio às 8 horas e, a todo instante ia ao bar do "Seu" Henrique, ao lado, tomar uma purinha. Imaginem o seu estado etílico às 4 da tarde. Aí, chegávamos nós e, quando nos via, arregalava os olhos, vermelhos que nem brasa e que pareciam que iam pular. Cortesmente, apertávamos sua mão, em sinal de respeito e começávamos a pedir para nos mostrar alguns tecidos, cujas peças se encontravam na prateleira mais alta. Pensem na dificukdade dele em subir e descer a escada, umas seis vezes pelo menos, abrir as peças e nos mostrar. No final, diziamos que estávamos à procura de tecido de melhor qualidade, pois a sua mercadoria era muito ruim. Dito isto, corriamos, pois "Seu" Everton, armado com o metro, tentava nos alcançar, falando impropérios, que matavam de rir os comerciantes vizinhos, que sabia de nossa brincadeira. Hoje raciocino, brincadeira de mau gosto. Mas, enfim ... Mesmo assim, fiz as malas e no entardecer bati na porta de minha pretensa e futura morada. Quem me recebeu foi Tom Zé que havia chegado de São Paulo. Pedi para falar com D.Helena, que veio toda risonha, satisfeita e hospitaleira, mandando-me entrar. Apresentou-me às suas filhas que haviam chegado de Salvador. Tom Zé eu já conhecia, tão destramelado ou mais, do que se vê hoje. E, em seguida, quem aparece? Ele mesmo, "Seu" Everton, que colocado a par do assunto, deu seu ultimato: "de maneira alguma esse rapaz não vai morar aqui com a genrte. ´´E moleque. Graças a Deus fiquei livre do outro. Não tem acordo e ponto final nesta história". Não adiantaram os apelos de D.Helena, nem as ponderações do Tom Zé, irmãs e empregada. Questão fechada. Não tinha jeito. Ainda restando uma opção, estufei o peito e tal qual D.Pedro I, às margens do Ipiranga, proclamei: "Vou morar no puteiro" - casa da D.Duca no baixo meretrício. E, no mesmo instante, Tom Zé fez eco comigo: "E eu também". Benedito já estava morando lá. Naquela noite, dividimos o quarto, incluindo Tom Zé. Morei por lá uns dez dias. Fato inusitado na cidade e pontuei no ibope. Outro dia conto mais.

Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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