“O senhor conheceu o Manoel Barroso?”.
“Muito, era casado com uma tia minha, a tia Olinda, era
baixo e meio gordo, morava no Bandeira, morreu de repente, de
ataque cardíaco.”
Este papo se repetia de vez em quando com a gente, era um modo
de manter assunto e recordar o pessoal antigo lá de Calçado.
Os Barroso, que parece que no início eram três
ou quatro, e habitavam na Alegoria, se multiplicaram e geraram
uma família enorme Hoje em dia, se se quiser contar,
vai ser muito difícil, tem Barroso espalhado para tudo
quanto é lado. Ainda mais que há um fato interessante,
eles geralmente são Barroso, têm características
de Barroso, parecem Barroso, mas não carregam este sobrenome,
pelo menos a maioria, parece mais que Barroso é um apelido
da antiga família. Os filhos do seu Manoel, por exemplo,
eram Rezende da Fonseca.
Eles, no caso aqui, que é o que estamos lembrando, no
total, se não há erro, eram onze, oito homens
e três mulheres. Os homens: Juquita, Pedrolino, Luiz Godero,
Carlos, Jair, Afrânio, Samuel e Francisquinho. As mulheres:
Albertina, Nice e Olindina. Todos, gente boa, muito bons, alegres
e espirituosos. Também todos com uma sina, morreram com
problemas cardíacos, nenhum com idade avançada,
alguns até ao contrário ainda relativamente novos.
O Afrânio, nosso vizinho em Calçado, foi de quem
mais nos aproximamos e é de quem vamos nos recordar agora.
Uma graça o Afrânio, sempre bem humorado e disposto
a fazer uma brincadeira.
Tinha uma pelada. Será que se pode chamar de pelada?
Não, acho que não. Os meninos, no caso uns três
ou quatro, bem pequenos, entre eles o Zé Augusto e o
Cláudio, que tinham temperamento mais quente, jogavam
uma bolinha de borracha na calçada em frente da casa,
junto da rua. O Afrânio vinha da venda para o almoço
e quase sempre entrava no jogo, começava a correr, cercar,
chutar, interferindo. Eles, os jogadores, estavam descalços
e naturalmente o Afrânio entrava como vinha, de roupa
de trabalho, calça, camisa, sapato, etc. Sabemos, todos
que passamos por isto sabemos, a desvantagem que é jogar
descalço com alguém calçado. Normalmente
se leva chute na canela, pisada, ou coisa pior. E é o
que acontecia. Só que o Afrânio chutava a canela
dos meninos de propósito, de levinho, mais ou menos,
só para ver a reação deles, principalmente
dos dois mais temperamentais. Lembro de uma vez um deles, depois
de um incidente desses, sentado no meio fio, esfregando a perna
chutada, querendo chorar, e o Afrânio provocando “Ah!
Não é homem não, é mulherzinha,
hem? Futebol é pra macho!” E o menino, provocado
em seus brios, se recompôs, levantou violento e veio disputar
a bola. Uma graça. Gozado que me lembro até como
era o sapato neste caso, um sapato marrom, que o Zé Abib
andava vendendo, tinha muita saída, baixo, largo, que
tinha uma costura em volta da sola que sobrava no entorno.
Uma outra do Afrânio, brincadeira com a empregada da vizinha,
com quem ele gostava muito de conversar. Daí, o diálogo
entre as duas, empregada e patroa: “Não dona Erci,
não é Afrânio não, é seu Afrândigui,
ele me confirmou”. “Deixa de ser boba Sebastiana,
você não conhece o Afrânio, ele está
brincando com você, o nome dele é Afrânio!”.
“Pois a senhora está enganada, ele me garantiu
que o nome dele é seu Afrândigui, que vocês
é que andam falando errado”.
Vila
Velha, Dezembro de 2007.
H. Teixeira de Siqueira,
