Signorina Dragoni




Confesso que sempre nutri uma brutal inveja de minhas primas e de meu irmão, e de seus colegas que estudaram no Colégio de Calçado. Ouvia-os narrar os qüiproquós havidos entre mestres e alunos e não podia conter, em alguns casos, o riso, mormente quando entravam em cena uma tal professora Jupira,não sei se apelido ou nome,e os sempiternos Pe Amando e professores Aderbal e Carlos Aurich.

Tendo mudado para Cachoeiro,embromei por lá uns estudos no Ginásio Santo Inácio,fundado e mantido por jesuítas de origem italiana,até levar pau e ir parar num outro,esse de protestantes,no qual quase fui a pique também.

Mas como dizia, juntamente com os padres vieram para o Brasil alguns mestres seculares, e dentre os quais uma certa signorina Dragoni,uma virago,solteirona quarentona encalhada,que rapava o bigode trimestralmente.

Ensinava História Geral, essa veneranda maestrina. Parecia ter convivido com os faraós do Egito, ou ao menos com suas múmias. Alguns alunos maledicentes chegavam até a dizer que ela fedia a múmia e que seguia os padres por estar se consumindo de amor não correspondido por um deles—quem seria a vítima?--todos se perguntavam.

Discorria ela sobre o cartaginês Aníbal, o introdutor do armamento pesado móvel nas guerras, como se tivesse estado a seu lado em todas as batalhas que o general travou com os romanos; punha o rei da Assíria Assurbanipal no empíreo,louvando a sua versatilidade e energia.Com efeito,mesmo saindo de uma guerra para logo se meter noutra,ainda encontrava tempo para fomentar as artes e ciências em sua nação.Mas quando ela nos revelou que ele era filho do grande Asaradão,todos procuraram conter o riso levando a mão compressora contra a boca e narinas.E no entanto estava lá escrito em nossos livros aquilo que ela falara.Era mesmo Asaradão.O efeito cômico,porém,aumentou quando o aluno Zipinotti(os padres nos chamavam pelo sobrenome e nós os imitávamos já acostumados com a prática),com todo sangue frio,maliciosamente a inquiriu,como quem quisesse certificar-se de um fato,sobre o nome do tal sujeito.Sem ainda perceber exatamente o sentido que a palavra tinha em português,signorina Dragoni a repetiu com toda inocência:
--Sì,sì,seu pai foi Asaradão--dando à voz aquele floreio todo especial e engraçado com que os italianos emitem o advérbio afirmativo com ênfase e repetidamente.

Mas o melhor estava por vir.

Estudamos a história dos assírios junto com a dos egípcios, pois parece que eles não faziam outra coisa senão lutar uns com os outros. Entretanto, mesmo dando àquelas histórias escassa importância, todos acharam que signorina Dragoni as tinha contado muito rapidamente de modo a chegar logo na história de Roma, cidade na qual se vangloriava de haver nascido e lecionado. E o primeiro aluno a notar isso foi o Marcondes--o que era estranho, uma vez que ele estava sempre a devanear em suas aulas, enquanto enfiava a ponta da tampa da caneta nos ouvidos para a retirada do cerúmen, esta última atividade estampando em sua cara uma expressão de orgástico prazer. Mas foi ele tocar no assunto e todos passaram a tomar as dores dos gregos contra os romanos.

O Carvalho, um magro alto, muito pálido, cabelos longos e retos, partidos ao meio, era ótimo no desenho caricatural. Tinha uma coleção só com maestrina Dragoni.Seus desenhos brotavam das folhas de seu caderno com uma rapidez espantosa.As falas para as figuras eu me encarregava de escrever.Sempre curtas,como nos gibis,embora perfeitamente dispensáveis.

Marcondes, Carvalho, Zipinotti e eu sentávamos próximos uns dos outros. Para nós eram uma festa as aulas da Dragoni.Esta senhorita foi uma das maiores comediantes inconscientes que já encontrei em minha vida.
Retornando, o Marcondes foi quem levantou a lebre:

--Por que a senhora está contando a história dos romanos na frente da dos gregos, se no nosso livro a história da Grécia vem antes da dos romanos?

Signorina Dragoni,metida num vestido negro de fazenda grossa como estopa,e que para nós não fazia a menor diferença se arrastasse as pontas no chão,portando aquela cara larga,de queixo grande e quadrado,óculos fundo de garrafa,calçando uma botina muito semelhante à ortopédica,de solado grosso,meias escuras de homem,que contrastavam com a brancura esquelética de pernas cabeludas,perebentas,ornamentadas de caroços de varizes meio azulados, fez como sempre fazia quando alguém lhe endereçava uma pergunta que ela considerava despropositada: fechou os olhos por instantes e ao abri-los novamente,parecia ter zerado sua memória da tolice ouvida.E continuou a falar como se nada houvesse acontecido,com voz clara e enfática,com uma inflexão,uma toada toda estrangeira,embora o vocabulário fosse todo português,salvo alguns raros expletivos e algumas trocas de palavras,algumas corrupções lá uma vez ou outra. Digamos que trocasse 1 palavra a cada 2 aulas.Não é uma freqüência perturbadora,convenhamos.O problema é que quando tal evento ocorria,para a quase fleumática indiferença dela e para nosso inenarrável prazer,o resultado era sempre cômico e a comicidade da coisa ia de vento em popa porque a sua autora não se apercebia de que havia dito uma asneira,limitando-se a indagar “que foi,agora?”--fisionomia entre severa e espantada,narigão romano retilíneo constelado de pontinhos negros de cravos velhos que não eram espremidos,cabelos grisalhos para o alto,em desalinho,estacando abruptamente em seu passeio frente ao quadro negro,a olhar-nos como se não passássemos de uns loucos.

Mas é o mesmo Marcondes quem insiste na pergunta de ordem cronológica, seqüencial. E signorina Dragoni lhe responde:

--Se o Sr Marcondes está me acusando de parcialidade de tratamento, por eu estar prestes a falar sobre a história da civilização romana antes da grega, saiba que não está sendo justo. Ficamos cerca de quatro meses falando sobre a mesopotâmia, sobre os sumérios, os acádios, os amoritas ou babilônios, os assírios, os caldeus, etc. Depois falamos sobre o esplendor da civilização do Egito. E não me esqueci dos hebreus, dos fenícios, a quem devemos a invenção do alfabeto e, finalmente, dos persas. Além do mais, como professora, tenho liberdade de organizar minhas aulas da forma que me der vontade. Se quiser, hoje mesmo começo a dar a Queda da Bastilha!Mas não!Não quero!Vamos estudar a Roma antiga e pronto!

Neste ponto, profª Dragoni achou por bem se interromper e dar a palavra ao Lomba,uma vez que ele,a cada 3 segundos,levantava o comprido braço.

--Fale Sr Lomba, e que seja sobre algo que tenha relação com o que estou falando.
Ora,o Lomba tinha certificação de alta inteligência,pois foi moda em estágio agudo em minha adolescência os testes de QI,e o dele beirava a marca da genialidade.Sentava-se sempre nas últimas carteiras,avantajado tanto no físico quanto no mental,e a quem veremos ser expulso do ginásio por “ato imoral”,se formos adiante nessas recordações.

Não perdeu tempo e sapecou:

--Tem tudo a ver. O Marcondes está com a razão. Não estou aqui para ouvir esse chove-não-molha de Remo e mais o irmão terem sido criados por uma loba. Ninguém aqui quer saber de lendas nem de mitologias. Estou lendo por minha conta o nosso livro de História. Aqui--e deu saliva aos dedos para passar as folhas--,por exemplo,diz que os egípcios adoravam o gato,o boi e o crocodilo.Pode haver gente mais estúpida?Se eu contasse isso à empregada lá de casa, que é analfabeta de pai e mãe, ela ia pensar que eu estava fazendo hora com a cara dela. As coisas melhoram um pouquinho com os gregos. Pelo menos eles adoravam deuses e deusas com forma humana. Mas mesmo assim, eu me recuso a ouvir, vou logo dizendo, que um deus virou touro e, como touro, teve relações com uma deusa ou uma mulher, e que dá união deles nasceu um tal de Minotauro,metade touro,metade homem.A senhora quer que a gente acredite nessas bobagens?

A profª Dragoni chegou até a estremecer ligeiramente o corpo diante de tanta arrogância juvenil. E falou:

--Eu não quero que vocês acreditem em nada—e unindo as palmas das mãos, elevando os indicadores e os esfregando na ponta do nariz, enquanto olhava abstratamente o vazio. E após algum tempo, falou, ou melhor, deu quase um grito de desespero:

--Vocês estão "confudendo" tudo!!--neste ponto o Marcondes caiu da cadeira num acesso de riso. E não houve aluno que não desatasse a rir de a barriga doer.

E a signorina Dragoni a perguntar, espantada, olhos esbugalhados, sem nada entender:

-Que foi agora?!Que foi agora?!!

Teresópolis, 7 de setembro de 2007.


Carlos Rezende



 

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