Tem vaca na linha



Aconteceu que eu cometi a proeza de conseguir a muito custo ficar reprovado nos estudos,em Cachoeiro.Com o que,meus pais examinaram a questão e resolveram me despachar para Calçado.Talvez eu tivesse uma vocação escondida para roçar pasto,tirar leite e curar berne de vaca,espichar arame farpado e fazer cerca para o gado-e me mandaram para viver com meu avô Zequinha,na solidão da sua viuvez,na gostosa moradia da Governador Bley.E cuidar da propriedade rural,herança que meu pai só esperava se aposentar para dela tomar posse efetivamente,e não à distancia e nos finais de semana.

Minha vocação,porém,estava mais para cachaceiro do que para trabalhador rural ou preposto.

Depois de almoçar,jogava um livro ensebado dentro do embornal,cortava caminho pela ladeira da Candinha,emborcava umas cachaças Manitu na birosca do Jazim,a meia pedrada de bêbado antes da ponte,e seguia pela estrada asfaltada em cima de cascos agora anestesiados.No curral,eu fazia umas perguntas bestas ao Bastião,o campeiro,coisas que nem ele perdia tempo em responder,tomava mais umas doses de cana,cuja garrafa ficava sob a guarda dum touro preto azebuado,uma montanha de carne socada,puro músculo,brabeza de doido que quer acabar com o mundo numa chifrada,que quer varar uma vaca no cio até o seu florete incandescente lhe sair pela boca,arrombador de cerca contumaz,capeta de animal movido a dinamite de testosterona da mais concentrada--e ia até à casa da sede da propriedade, a uns 500 metro dali.Lá,dava uns dedos de prosa ao outro Bastião,o caseiro,um recém convertido bíblia,para quem eu dava umas interpretações algo porcas de passagens bíblicas,tão sujas que instintivamente me punha fora do alcance de sua foice.Já com sua cara-metade,me dava melhor.Ela e eu fazíamos uns cigarros de palha bem fortes e ficávamos a pitar.Depois,abria a casa,espojava-me num largo e macio sofá e dormia um sono daqueles de um cristão se babar todo,que nem epiléptico.São os mais reconfortantes,os mais reparadores.Quando abrimos os olhos,é como se víssemos o mundo pela primeira vez.Tudo luzindo e reluzindo.Então,ia de cueca para a cachoeira,refrescava bem o juízo,vestia a bermuda e rumava para a cidade,minha labuta ruralina já terminada,lá pela tardinha,cigarras e grilos se estourando nas macegas,bandos de garça em formação rumando para o sul feito fantasmas alados,passava eu de novo pelo curral,olho de administrador dando os toques finais,anotava mentalmente uns recados do campeiro para o meu pai e seguia caminho.

Mas nesse dia o Bastião tirou o chapéu,coçou a calva e me disse:

- Ô Carlos,diz pro seu pai que não houve jeito ... Que a vaca,a Mafalda,morreu.

Peguei a notícia e também,e principalmente,o convite para caçar preá no domingo,na boca do bueiro que atravessava a estrada,vindo do campo do Fazenda Velha,e que os bichos usavam para pastar o capim seivoso rente ao corguinho que corria mansinho em direção ao rio.Nós as esperávamos armados de longos porretes,um de cada lado do túnel escuro.Mas se calhasse de a gente não matar nenhuma,o Bastião mandava a esposa aprontar uma chouriçada regada a cachaça da boa,mais branquinha que água de fonte,prenda de caminhoneiro.

Naquela época o único telefone de Calçado era o do posto telefônico da Dona Aída.De noite parti pra lá pra transmitir a infausta notícia do falecimento súbito da Mafalda,a quem não tive a honra de conhecer e na qual eu estava tão interessado que nem o nome da doença indaguei.

A agonia da Dona Aída dentro da cabine dava até pena.Serviço mais desgraçado!Até que deu linha e ela saiu e eu entrei.

Meu pai,por parte de mãe,devo dizer,é Borges e o que tem,ou tinha,já que muitos se passaram desta para melhor,de parente Borges meio surdo e meio cego em Calçado e Bom Jesus é uma grandeza.Outro dia meu primo Antonio Luís,filho do Tio Aristides,que mora em Niterói,foi à Fazenda Velha visitar meu pai,no Natal,e confessou para mim,em conversa de pé de ouvido,como é do jeito dele:

-Ô Carlos,eu estou ouvindo muito pouco e vendo ainda pior.Mas em compensação,comparando com o Antonio Borges,eu estou até bem: o Marcelo me disse que do olho que o pai dele operou de catarata ele não enxerga mais nada e do outro, muito mal uns 50%-e deu uma risada.Rimos.

Mas voltemos à cabine,que meu pai está na linha e é algo impaciente:

- 0 quê?!Quem morreu?!Fala mais alto!!Não estou te ouvindo!
-A Mafalda!!-falei bem alto.

Meu pai pediu confirmação:

-Quem foi mesmo que morreu??!!
-A Mafalda-berrei,de quase alguém no início do Morro do Querosene me ouvir.Senti que do outro lado meu pai tinha entendido e desligado.

Fiquei sabendo que,uns cinco minutos depois de nossa conversa,o telefone tocou na casa de minha tia em Bom Jesus,parede-meia com a loja de roupas A Social, e outra tia,talvez a mais surda da família,não sei se por um milagre,conseguiu entender quando meu pai lhe gritou,pois tinha,quando mais novo,uma voz possante,encorpada:

-Estou indo para aí,tia Nicinha.O corpo da tia Alda já está sendo velado em casa?

Tia Nicinha nem teve presença de espírito para responder.Deixou o aparelho cair no colo e ficou atarantada,mãos postas para o teto a rezar,aflita,naquela fala hesitante,insubstancial,de gente muito surda;e balbuciante consigo mesma:”Mas a Alda estava tão bem,meu Jesus.Saiu até alegre para trabalhar!Meu Jesus,cuida da alma dela.Nisso abrem a porta da casa e tia Nicinha quase que desmaia ao ver entrar minha tia Alda-alta,robusta,imponente,voz de timbre agradável e inconfundível.

Tudo se resolveu,enfim,e meu pai nem chegou a chamar o motorista para o levar às pressas a Bom Jesus.
Em Calçado podemos usar dessas inconfidências.Somos como uma grande família.

Teresópolis,10 de janeiro de 2006.

Carlos Rezende

 



 

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