Não sou o primeiro a nutrir
a suspeita de que a
vida humana
é apenas um sonho”,
em
“Werther”,de Goethe
Qual
a maior necessidade humana? O faminto dirá que é
a comida,o sedento,que é a água,o que sente frio,o
agasalho,etc—mas quando todas essas e outras necessidades
estiverem satisfeitas,existirá alguma que,ainda não
satisfeita,poderá levar um indivíduo ao desespero?Digo
que sim.Se o desejo de amar não for satisfeito—pobre
desse hipotético infeliz...Poderá atordoar-se
com o sexo,poderá anestesiar-se com o álcool,incendiar
a imaginação com drogas—mas no fundo,”aquele
fogo que arde sem se ver” queimará até que
lhe abrandem o calor para a quentura ideal.
Mas a reflexão acima é algo extemporânea
e cheira mais a desespero kierkeggardiano,nórdico,e muito
pouco tem a ver com o caso simples que irei narrar.
Aonde quer que vá,quando me perguntam onde nasci,sempre
digo que foi em São José do Calçado.Meus
interlocutores,via de regra,retornam com outra pergunta,ou melhor,com
duas(creio que isso já deve ter acontecido com muitos
conterrâneos meus):"São José dos Calçados?Lá
tem fábrica de calçados?".Não vejo
nada demais nas perguntas. Primeiro, porque todo calçado
vem em número par,mesmo quando o infeliz tem só
um número ímpar de perna; segundo,porque o nome
sugere realmente que o lugar possui uma fábrica de calçados—como
seria bom para a nossa cidade se isso fosse verdade e se ela
fosse um pólo dessa indústria...
Conheci,através do famoso aplicativo da Internet chamado
ICQ,uma garota descendente de alemães nascida na bela
cidade serrana de Domingos Martins.Conversa vai,conversa vem,e
ficamos apaixonados,eu com meus 46 anos(hoje aos 50,a fome é
a mesma dos 20 mas o garfo já treme),ela com suas belas
36 primaveras.Trocávamos fotos de família,fotos
das cidades em que moramos(sempre dava um jeito de enviar algumas
de Calçado junto com as de Teresópolis,que é
onde resido atualmente) e outros arquivinhos que só namorados
costumam trocar.
Não satisfeito em namorá-la pela internet,passei
a lhe mandar torpedos pelo celular.Adorava quando ela respondia
com um simples”rs”.Achava que só ela respondia
assim.Mais.Achava que fora ela a inventora do “rs”,e
às vezes lhe punha esse apelido e chamava-a assim por
umas duas semanas.--Tenho essa mania.Um apelido repentinamente
imaginado tinha o poder de vencer um amuo,uma zanga.
Nosso primeiro encontro se deu em Guarapari.Era verão
e verão é sinônimo de praia,tanto para os
capixabas quanto para fluminense de empréstimo, que sou.Gostei
ainda mais dela depois que a vi de corpo branquinho sempre a
se resguardar do sol.Com certeza ela também gostou mais
de mim,já que marcamos um outro encontro,só que
desta vez em sua terra natal--Domingos Martins,que ela carinhosamente
ora chamava de Campinho,ora simplesmente pelas iniciais DM.
Jacqueline Maria--seu nome--,com todo o seu gosto tipicamente
germânico de tudo organizar com a máxima eficiência
possível, reservou logo um quarto para mim no Hotel Imperador(por
ela,eu devia era ficar hospedado no apartamento de sua mãe
ou num hotel melhor).De minha parte,aceitaria ficar em qualquer
lugar,mesmo num canil com os cachorros,comendo da mesma ração
que eles;o que queria era passar os quatro dias da Semana Santa
com ela.
Não via hora de pegar a estrada.Já mandara dar
uma geral na minha moto,já comprara um capacete mais
decente,engraxara as botas.Só faltava botar a "magrela"
para comer asfalto.
No dia D,saí todo contente e fiz o primeiro trajeto,isto
é,até à Fazenda Velha,onde moram meus pais.No
dia seguinte,bem cedinho,peguei a BR 101 em Bom Jesus e "piquei
a mula".Nunca botei tanta velocidade na moto.Na altura
de Alfredo Chaves,me lembrei de que meu pai já trabalhara
na cidade e que ele contava que chovia tanto no lugar que seus
moradores a chamavam de Alfredo Choves.De fato,como a corroborar
suas palavras,caía um senhor pé d’água
e uma carreta tombara no asfalto,chocando-se com um automóvel.A
estrada estava interditada--mas não para a minha "magrela",que
entrava por qualquer nesga de espaço.
Já em DM,telefonei para Jacqueline dizendo que havia
chegado. Ela,rapidinho,saiu de Santa Izabel,onde morava,um dos
distritos de DM e veio para o Hotel Imperador.
Encontrei-me com ela defronte a uma simpática pracinha,de
onde se podia avistar uma vaca holandesa a tosar o capim da
colina por trás do hotel,agitando a cauda,toda feliz
em sua irracionalidade.
Nossos lábios se encontraram delicadamente.Uma maciez
molhada e quente,uma fome contida,de minha parte.
Veio com uma caixa de bombons Garoto,claro,e uma imensa torta
capixaba, enviada por sua mãe.Retribuí a gentileza
com o último cd da Marisa Monte,"Os Tribalistas",que
ela havia adorado mas que não pudera comprar em sua mais
recente ida a Vitória.Eu já conhecia as canções
de as ouvir no rádio.Tinham tudo a ver com a gente.”Já
sei namorar” e “Velha infância” não
saiam de minha cabeça.Mas eram uma doce obsessão,pois
a imagem de Jacqueline vinha mais forte com elas.
Depois de almoçarmos num self-service em DM,fomos para
Santa Izabel,distante uns sete minutos,de carro.Ela queria me
apresentar à sua família, principalmente seu avô
de 92 anos,pelo qual tem um amor profundo que chega à
veneração.
Vou encurtar a narrativa:nada vou dizer sobre a representação
da Paixão de Cristo pelos habitantes locais,nada sobre
a beleza de DM e Santa Izabel,nada sobre a atenção
e amabilidade com que fui recebido pela sua família.Vou
passar logo para a figura de seu avô.
Quando nos encaminhávamos para a casa do Sr.Gustavo José
Wernersbach, ele se dirigia para o campo de futebol local.Ia
fotografar os melhores lances do campeonato.Era um aficionado
da fotografia,andava sempre com uma máquina a tiracolo
para surpreender a natureza ou algum familiar seu em atitude
inusitada.Fomos apresentados,demos um forte aperto de mãos
e ele me pediu para aguardá-lo em casa, que ele já
voltava num instantinho.Não perdemos o tempo na sua ausência,já
que tive a satisfação de conhecer a senhora com
quem o Sr.Gustavo José se casara em segundas núpcias.Ficamos
os três sentados num sofá a repassar os álbuns
de retratos de família.Uma enorme parede da sala de estar
estava quase toda ela recoberta com fotografias tiradas pelo
patriarca retratista e dispostas com muito bom gosto.
Finalmente,ao se aproximar a hora do almoço,retorna o
Sr.Gustavo José,em passinhos rápidos e todo empinado
debaixo ou por cima dos seus 92 anos,como preferir o leitor.Antes
de a mesa ser posta,ele e eu começamos a conversar.
O Sr.Gustavo José estava aposentado de tudo,exceto da
vida.Já fora comerciante bem-sucedido, vereador e deputado
estadual.Assim como o embaixador Sérgio Vieira de Mello,assassinado
no atentado brutal no Iraque,nunca ficara por cima do muro,não
via sentido em alguém falar em paz e não atuar
de molde a conquistá-la e, portanto, merecê-la.
Saíra da política mas não deixara de lutar,agora
como simples cidadão.Sua presença irradiava bondade
e serenidade(ouso dizer,pureza de alma);falava com perfeita
lucidez,em uma voz doce que nunca se alterava,sem titubear,no
seu modo simples mas direto.Vou tentar reproduzir de memória
o que conversamos:
--Então,quer dizer que você é parente do
Eurico Rezende? --- perguntou o Sr.Gustavo José.
--Parente afastado, Sr. Gustavo--respondi.
--Mas não deixa de ser parente ... Eu o conheci.Era um
homem honesto e sério.Está muito difícil
encontrar pessoas decentes atualmente;pra todo lado que a gente
olha,só se vê desonestidade,gente procurando passar
a perna no outro--disse ele,um tanto triste.
--0 que o Sr.pensa da invasão do Iraque pelos americanos
e britânicos?--eu lhe perguntei,já que era o assunto
do momento.
--Sabe,Carlos, não gosto da violência.Por outro
lado,vejo esse ditador chamado Saddam,que praticamente dizimou
os curdos com armas químicas,que tortura e mata seu próprio
povo,e me vem à cabeça o desejo de que os americanos
o derrubem do poder.Sei muito bem que os americanos estão
indo para lá mais para defenderem os interesses deles
do que para libertar o povo iraquiano da ditadura.A questão
que está por trás de tudo é o petróleo,todo
mundo sabe,mas os que estão contra,a França,a
Alemanha e a Rússia,todos têm firmas explorando
petróleo no Iraque.Quem sabe se o protesto deles não
vem do medo de eles perderem os seus negócios por lá
para os Estados Unidos ou que a guerra se alastre por todo o
país,colocando em risco a extração de petróleo
desses países ... Mas,de qualquer maneira,acho que a
decisão final deveria ter ficado com a ONU--disse o Sr.Gustavo
José.
-É,a situação é bem complicada...--disse,como
se eu estivesse concluindo o que ele quisera falar.
--Mas vamos deixar essa guerra pra lá,que temos muitos
problemas aqui necessitando de uma solução urgente.Veja
o caso de Santa Izabel e o do distrito sede.O prefeito quer
tomar 70% do volume do rio Jucu, que corta a cidade,para a construção
de uma hidrelétrica.O rio já diminuiu tanto de
volume que mais se parece com um córrego,não se
falando em toda espécie de poluição que
é carreada para ele ... Claro que os técnicos
têm que ser ouvidos,mas o prefeito só ouve o pessoal
que está com ele na prefeitura,não aceita uma
comissão independente para analisar o assunto com ele.A
maioria da população está contra o prefeito.Assim,só
resta uma saída: a gente se reunir e ir protestar em
passeata diante da prefeitura.Tem que haver diálogo.Ninguém
é dono da verdade.O problema é que o prefeito
não arreda pé de sua posição--terminou
o Sr.Gustavo José,um pouquinho acalorado,já que
ninguém também é de ferro.
Nesse ponto,fomos chamados para o almoço.E enquanto eu
almoçava, pensava no rio Calçado,ou melhor,no
filete sujo de água em que ele se transformava a cada
ano.Será que o destino dos rios tem que ser esse?Mas
o Tâmisa,que corta Londres,já foi despoluído.Os
moradores da cidade já podem até pescar nele novamente.
Então,solução existe.
Terminado o almoço,o Sr.Gustavo José pediu licença
e saiu,novamente, com seus passinhos ligeiros mas resolutos.Ia
agora tirar fotos de um bingo, ou coisa parecida,que ele próprio
organizara para levantar fundos para uma instituição
de caridade,depois ia visitar gente no hospital,depois dar uns
bons conselhos a um parente,depois ... Naquela idade e cheio
de interesse pelo bem-estar dos outros.Tomara, cedo, um grande
tombo,escorregando num tapete e quando lhe perguntavam como
estava, respondia:--Como estou,de quê?--e não dava
mais conversa.Se a humanidade fosse composta de gente como ele...
E Jacqueline e eu fomos para o quintal e nos sentamos num banquinho
debaixo de uma goiabeira,muito próximos do rio que queriam
estrangular.Aí ficamos a conversar baixinho,abraçados,como
se estivéssemos à cabeceira de um rio na UTI...
Teresópolis,24
de outubro de 2006
Carlos Rezende