Por uma clara manhã,três meninos da cidade foram
em visita de final de semana a seus Avós na Fazenda Velha,de
carro.Um ia sentado no banco da frente,com o pai,e os outros
dois atrás,cada um com o rosto quase colado ao vidro,observando
as rotinas dos currais,o sobrevôo curto e o andar apressado
das esguias aves de pasto, as várzeas de arroz,cujas
hastes amareladas, carregadas, se envergavam ao peso dos bandos
alegres de coleirinhos e tizius,e os anuns que gangorravam no
lombo das reses,catando-lhes parasitas.
Quando chegaram à grande casa de seus Avós na
roça,o Avô ordenhava as últimas vacas.Havia
um cheiro de estrume no ar,que não era de todo ruim.E
havia outro,que se casava ao primeiro,e vinha dos muitos pés
de eucaliptos plantados em fila indiana no alto do barranco,
que formava um dos lados do pequeno trecho de estrada de terra
pelo qual se chegava à casa,que,a bem dizer,estava quase
à beira da estrada Calçado-Bom Jesus.Mas a barreira
das árvores dava a impressão de mato fechado,casa
insulada.
Como era agradável ouvir o cantar do vento agitando tantos
galhos e tantas folhas,cada um contribuindo à sua maneira
para a produção daquele som tão apaziguador,tão
convidativo ao devaneio.
Através dos vãos da cerca de tábuas,lá
estavam os bezerros,cabeça amarrada à pata da
mãe,para acalmá-la e facilitar a descida do leite.Quase
todas,vacas mestiças.O Avô não era ambicioso--
só queria leite para o gasto,isto é,para que sua
esposa fizesse um bom queijo caseiro,leite para os parentes
da cidade e para seus ajudantes da roça.O mais,ia para
a Cooperativa Leiteira.Em Calçado, leite mal pagava seu
custo,era o que todos diziam.
Os meninos sempre entravam pela porta da frente.A Avó
já ouvira o barulho do automóvel e a porta já
estava aberta e ela já acenava da varanda para os "meus
moleques",maneira dela os chamar coletivamente.
O Avô era alto,de uma magreza fidalga,seca e de pouca
conversa.Não os abraçava, mas dava-lhes a sua
bênção,quando devidamente requerida.Estendia
a mão, que cheirava a fumo de rolo,calosa e grossa,sobre
a qual punham as pontas dos lábios cerrados.
Tratamento oposto vinha da Avó.Era alta e de corpo largo,sempre
pronta para os acolher,sorridente e afetuosa.Tudo nela era natural,espontâneo,franco,
nada do que ela dizia tinha dupla significação,nenhum
de seus sorrisos, nenhuma de suas observações,
fosse sobre o que fosse,recendia falsidade--traço de
personalidade absolutamente estranho a ela.Era uma dessas criaturas
afortunadas que já nasceram sem saber fazer o mal.Teria
ela consciência dessa sua inusitada "insuficiência"?Talvez
não.Ou vira ela,num rápido instante de sua vida,o
Mal e de imediato compreendera a sua natureza e o repelira com
um peteleco de desdém?Se assim foi,ela empregou o desdém
pela primeira e última vez em sua vida.
Davam-lhe um abraço apertado e saiam em disparada pelas
tábuas largas do assoalho para o reconhecimento dos vários
cômodos,muito diferentes dos de suas casas.O quarto da
empregada—na verdade,mais uma agregada que empregada--tinha
todas as paredes com fotografias de seus ídolos da música,fotos
de paisagens citadinas,de bichos que não existiam na
fazenda.No largo peitoril meio apodrecido da ampla janela, que
dava para uma parte do pomar,viam-se flores amarelas num xaxim.
Saindo dele,os meninos penetravam na cozinha,onde o fogão
a lenha imperava num canto,e nunca estava de todo apagado.Em
sua trempe,quando não se cozinhava o almoço ou
o jantar,derretiam-se nacos de queijo caseiro,comidos dentro
do pão sovado partido ao meio e tão estufado e
quente, de os fiapos de queijo ficarem dependurados--mas tudo
descendo otimamente com café,a qualquer hora.
Dali passavam para o corredor e dele para as escadas de madeira
do amplo alpendre situado na parte de trás da casa.Nas
partes em que as madeiras,lá no alto, formavam uma saliência,uma
pequena plataforma, as galinhas faziam ninhos,dos quais era
uma dificuldade cotidiana recolher os ovos sem quebrá-los.
E iam para o terreiro.Era preciso ter cuidado com as vacas de
bezerro novo.Eles as contornavam cheios de cautela.E desciam
um outeiro, para brincar num córrego que corria lá
em baixo.Vadeavam suas águas com peneiras à cata
de girinos ou de peixinhos coloridos.Andavam sem rumo pelos
pastos,e se deparavam,a cada passo, com ninharias que a natureza
lhes ofertava,mas às quais davam muita importância,como
aos esquisitos e lentos besouros.Alguns pareciam um rinoceronte.Eram
grandes e tinham um chifre,também grande,virado para
trás.Teria alguma utilidade esse chifre?Se fosse virado
para a frente,ainda poderia ser arremetido contra seu oponente.Mas
para trás!As sementes olho-de-boi,de onde vinham?Pareciam
ter caído por descuido dos carões das reses.
A melhor hora para brincar,no entanto,era aquela depois do almoço,quando
a agregada ficava livre para lhes dar atenção.Era
uma moça de corpo bem formado,muito jovem e transpirando
saúde,de carnes durinhas,rosto amigável,risada
cristalina e gostosa de se ouvir,cheia de disposição
para brincadeiras.O menino mais velho,ao roçar seu corpo
contra o dela,sentia uma profunda,embora difusa,sensação
de prazer.Queria sempre renovar a experiência e,então,seu
desejo inventava novas oportunidades.Quando seus olhos se encontravam,sentia
nos dela uma ponta de cumplicidade,o que acelerava doidamente
seu coração e redobrava o prazer.Ela se dava e
se negava ao mesmo tempo às roçaduras.
Sempre almoçavam às pressas.Queriam retornar logo
para suas descobertas e brincadeiras.
Os cachorros,que não eram lá muito bravos,sofriam
nas mãos dos meninos,queimando a língua com o
angu quente que punham em suas bacias de comida.Serviam só
para dar sinal da aproximação de um desconhecido.
Fora isso,passavam o dia a dormitar em algum canto.Mas tinham
nomes pomposos: Sansão,Sheik, Leão.
Tomavam posse da tulha,para desespero do Avô e brincavam
de pular de um monte de milho por debulhar para outro já
debulhado,misturando tudo.Os montes eram tão altos que
podiam subir ao topo e de lá encostarem o dedo nos barrotes
de madeira.Mas tinham que fazê-lo rapidamente,pois os
dourados grãos muito lisos cediam ao o mínimo
peso.Era um desafio.E só paravam quando seus corpos começavam
a coçar de tanto bichinho peguento se arrastar por eles.
E só quando o sol baixava no horizonte, sentiam um pouco
de cansaço de tanto correr de um lugar para outro à
procura de coisas novas ou que inventavam.
Enfim era chegada a hora detestada por todo menino: a hora do
banho.Claro que não gostavam disso nem na Fazenda Velha,embora
o banheiro fosse tão diferente dos deles na rua,que as
singularidades dele quase compensavam o desagradável
toque da água quando não a queriam,coisa a que
chamam banho e que para um menino não passa de um hábito
tolo de adultos.
E a bucha do banheiro da Fazenda Velha era uma bucha vegetal.Quem
não quisesse a que estava no banheiro,era só ir
até a uma cerca de bambu,já que a árvore
era uma trepadeira, e arrancar a que melhor lhe aprouvesse.A
agregada chamava aquilo de fruto e o mais velho dos meninos
dizia,então,na sua ignorância,"já que
é fruta,por que ela não comia?". "Arvore
mais besta",acrescentava,"dá essa bucha que
arranha a gente todo".E lhe vinha a vontade de destruir
todas aquelas plantas.Porém,a idéia passava ao
ver que em quase todas as cercas,lá estava ela oferecendo
de graça a sua bucha, balançando-a ao vento como
se artigo de loja em oferta fosse.Só se pusesse fogo
em todas as cercas,mas aí o Avô ia dar uma bronca
danada.Melhor deixar como estava...
A banheira era redonda,com beiradas protegidas por uma madeira
pintada de verde que acompanhava os contornos dela.Nenhum cano
entrava ou saía dela,exceto aquele no fundo que a esvaziava.A
água vinha em baldes postos a esquentar no fogão
a lenha.Os seus pés eram semelhantes a garras de gaviões...
Garras que às vezes desciam rápidas do céu,fechando-se
sobre um pinto desgarrado no terreiro e voltavam a subir,desaparecendo
como por encanto das vistas de todos,deixando a galinha atarantada
e a cocoricar,enquanto o inútil galo lhe respondia como
que a se desculpar por não ter podido ajudá-la
no salvamento de seu filhote.
E então a noite descia silenciosamente sobre a Fazenda
Velha,trazendo um pouco de frio e os barulhos dos bichos noturnos.Sapos
coaxavam como uns desesperados,grilos estridulavam tentando
atrair a fêmea,corujas davam vôos silenciosos com
sua plumagem mole,morcegos saiam em bando de seus esconderijos
de debaixo do assoalho do casarão,voando como se fingissem
desorientação,fechando curvas abruptas,velozes
quase se trombando uns nos outros.
Depois que enjoavam de jogar baralho infantil e das histórias
que a agregada lhes contava, iam para a varanda.
Os Avós estavam sentados em um comprido e estreito banco
de madeira e gozavam de um posto de observação
privilegiado.Observavam da varanda o fogo a lavrar num capinzal
de uma nesga de terras em frente,do outro lado da estrada.Era
uma vista impressionante,aquelas línguas vermelhas de
fogo que se projetavam para o alto furiosas,enquanto o capim
alto e seco estralejava seu breve cantar de raiva.A varanda
estava às escuras e o efeito do clarão de fogo
era com isso intensificado. Mas era uma lareira à distância.Era
bom estar no abrigo seguro enquanto que do outro lado tanto
perigo havia.Não tinham medo,pois já haviam consultado
seus Avós e eles lhes tinham garantido que o fogo era
controlado,que era uma maneira mais econômica de limpar
a terra para o plantio.Ao invés de pagar pelo serviço
de uns cinco capinadores, bastava por fogo no pasto,que o mesmo
serviço seria feito com um mínimo de mão-de-obra.
E ali mesmo na varanda,à medida que o fogo se extinguia
no capinzal,um sono de chumbo começava a pesar sobre
as pálpebras dos meninos,e sua Avó os guiava então
para suas camas,tangendo-os como a cegos,como a bêbados...
A Avó gostava de lhes reapresentar alguns objetos que
deflagravam e punham a correr a imaginação dos
seus moleques.
Um deles era um espesso copo prateado,com altos-relevos na face
exterior aqui e ali amassada,preso a uma longa correntinha,mediante
a qual o viajante a cavalo o abaixava até um ribeirão
ou a um olho-d’água de uma grota e o enchia de
água fresca.
O outro objeto era uma concha do mar distante.Lisa e reluzente,cada
menino por sua vez era convidado a pô-la contra o ouvido.Ouviam
o rolar contínuo das ondas e o seu quebrar nas areias--mais
tarde aprenderam que era o marulhar do sangue nas veias do ouvido
interno a causa daquele som--mas como era parecido com o do
mar ...Tanto que até sentiam um gosto de sal na boca
e o cheiro de maresia.
Pena não existir uma concha semelhante a esta onde ao
menos pudessem ouvir sua voz novamente,Avó.
Teresópolis,12
de agosto de 2007.
Carlos Rezende