VENDA DA ROÇA




Final da década de sessenta, minha irmã, Maria Alice, já moradora no alto da Serra, além de professora nas Palmeiras, atuava, também, nas lides agropecuárias. E, para melhorar sua renda, abria, às cinco horas da tarde, sua venda na roça. Quem já viveu na zona rural, sabe da importância que este comércio exercia, não só para o comerciante mas, também, para o homem do campo. Nela, vendia-se de tudo – cereais, louças, vasilhas, instrumentos de trabalho, fumo de rolo etc. O dia de maior movimento era no sábado.

Colonos de várias propriedades da região se encontravam e, entre um assunto e outro, tiravam a lista de compras do bolso e, em geral, ali encontravam o que dela constava. Não tinham pressa. Entre um pedido de mercadoria e outro, bebiam uma cachaça e contavam seus casos. Eram momentos de descontração e congraçamento.

A venda funcionava embaixo do assoalho da fazenda e era iluminada por lampião ou lamparina. Maria Alice e D.Eni despachavam no balcão.

Lembro-me, de uma noite de sábado, eu havia chegado, de férias, da Bahia, onde morava e convidei meu pai para irmos visitar a Maria Alice. Havia um ano que eu não a via. Meu cunhado nos levou de carro até Calçado e, acabamos de chegar num fordeco alugado. Chovia muito e barro era o que não faltava. Quando nos viu chegando, já começando a escurecer, custou a acreditar em que não havia ninguém doente em Bom Jesus. Verificamos que a venda estava cheia de freguês e, nossa chegada foi uma festa. Ficamos ali até o último freguês ir embora, o que ainda demorou.

Como tudo na vida tem seu lado engraçado, este não poderia deixar de ser registrado.

Um dos fregueses da venda, Juquinha, estatura mediana, nem gordo, nem magro, cor escura e brincalhão, mal chegava, pedia uma pinga e falava para a Maria Alice: “Vou casar com a Maria Amélia”. Maria Amélia é nossa irmã e morava em Bom Jesus. Maria Alice ficava uma fera com a brincadeira do Juquinha, que falava macio e com um sorriso nos lábios. Ela ameaçava:”Ainda vou te dar um tiro na cara”.

Num determinado sábado, chega Juquinha logo rindo e , Maria Alice vai logo avisando:”Se você falar, te dou um tiro”. Juquinha responde: “Vai nada, você vai matar seu cunhado? Amanhã mesmo, vou pedir a mão dela em casamento ao “seo” Ulysses {na linguagem dele era Licio}”. Não se fazendo de rogada e não esperando mais nada, Maria Alice aponta um revolver para ele e, ao mesmo tempo, sem que ele percebesse, acende e joga atrás dele uma bomba “cabeça de nego”, sua especialidade. Foi a bomba estourar e o Juquinha cair de costas, gritando:”To morto”. Maria Alice, assustada: Matei o capeta do homem, de susto, acode Teresão”. Correram todos para ver o Juquinha estendido no chão, gemendo: “To morto, cadê os buracos das balas, tapem eles para não sair o sangue todo”. O pessoal ria e Teresão gritou:”Levanta Juquinha, não está vendo que foi uma bomba que estourou?” Juquinha, verificando seu corpo, disse: “Não tô morto. Mas vou embora antes que eu morra de verdade”.

Juquinha continuou freguês da venda, mas nunca mais falou em casamento.

Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados