A PRIMEIRA NAMORADA E O ÚLTIMO AMOR

Em Anchieta, litoral sul do Espírito Santo, Gilberto, um rapaz que era bom de bola e que também gostava da escola, morava na roça e sempre foi muito tímido, o que era comum naquele tempo.

Sua infância foi como a de qualquer pessoa da comunidade onde vivia: freqüentava as aulas na escola singular de Itapeuna, nos fins de semana jogava futebol com os amigos e gostava de pegar passarinhos nas redondezas.

Quando tinha 15 anos de idade, conheceu Lúcia - a primeira namorada – que era filha de um ex-colono do seu pai. Aos domingos, ia sempre de bicicleta à casa dela, que ficava na nas imediações da comunidade onde morava. Ela, uma garota de cabelos loiros, tinha menos timidez que ele e gostava de esperá-lo para, quando chegasse com a bicicleta, sair pelas estradas no veículo de duas rodas, enquanto ele ficava horas e mais horas conversando com sua mãe e outras irmãs que ela tinha.

Durante algum tempo, os dois passaram momentos de muita alegria e, como eram marinheiros de primeira viagem, aproveitam os momentos em que ficavam juntos para falarem de coisas diversas e pouco a respeito de si próprios. Ele, quando sozinho, fazia planos para o casamento e esperava ser muito feliz ao lado daquela que, pela primeira vez, havia despertado um sentimento tão bonito em seu coração. Lúcia era mais extrovertida e gostava muito dos passeios de bicicleta pelas estradas de chão, próximo da propriedade em que morava.

O tempo se passou. A família dela foi embora para o Rio de Janeiro e ele ficou sozinho. Foi o primeiro desconforto que sentiu por conta desse sentimento que consegue derrubar grandes muralhas. Foi o primeiro choque que sentiu ao ver partir aquela que invadira seu coração e que se afastou de sua vida sem a intenção de deixá-lo. Seguiu com a família e deixou com ele as lembranças do primeiro namoro, levando consigo as recordações dos momentos que passaram juntos.

Mais tarde, outras namoradas surgiram. Grandes emoções foram acontecendo, mas de forma diferente como as do primeiro namoro. A beleza do amor que sentiu pela primeira vez e a dor de ter perdido a namorada foram as que mais marcaram sua vida de menino roceiro.

Gilberto, sempre com muita obstinação, conseguiu concluir o curso de Administração, numa das Faculdades de Guarapari. Posteriormente, após ter feito o Mestrado, foi contratado como professor para lecionar na própria instituição onde se formou.

As coisas foram acontecendo normalmente, até que um belo dia o casamento aconteceu pra ele, pegando-o de surpresa. Gilberto, com toda a responsabilidade que sempre teve, assumiu a postura de homem mais sério e passou a residir em Anchieta, sua Terra natal.

Após 25 anos, experimentou nova emoção. Teve o casamento desfeito. Sentiu-se numa situação que jamais imaginara poder acontecer. Foi buscar no trabalho o refúgio para fugir da solidão que se apoderou dele. Ficar sozinho não fazia parte dos seus planos. Precisava encontrar um novo amor. Precisava de uma nova companheira que tanta falta lhe fazia.

Pra sorte sua não demorou muito tempo, conseguiu reencontrar uma antiga namorada – Tereza – com quem tinha vivido em épocas passadas um lindo romance e, por isso achava que poderia ser feliz novamente. Ficaram juntos durante 13 anos. Foi uma união sem grandes problemas entre os dois, porque havia um respeito mútuo e cada um já tinha amadurecido o bastante para entender o lado difícil do relacionamento a dois.

Na realidade, para Gilberto e Tereza, a união não passava de um ato de companheirismo. Eles levavam uma vida normal, mas faltava amor, principalmente pela parte dele que se acomodou com a idéia de que um dia pudesse ser feliz ao lado daquela que havia amado há muito tempo atrás. Desta união, ele saiu sem levar grandes recordações, mas teve momentos de intranqüilidade. Sua ex-companheira o ameaçou, jurando que acabaria com tudo que ele viesse a ter, ao saber, já depois de separados, que ele havia encontrado outra mulher.

Por ironia do destino, sua terceira mulher, bem mais nova que ele, surgiu durante um encontro dele com sua primeira namorada. Este encontro, mais ou menos uns 45 anos após a última vez em que se viram, aconteceu no início do mês de junho de 2004, quando a sobrinha do seu primeiro amor – Mariana - encheu seus olhos com uma beleza sem igual. Durante o almoço que lhe foi oferecido para proporcionar aquele encontro, ele não tirava os olhos da jovem que não percebia sua admiração por ela.

Um mês depois, Gilberto e Mariana passaram a viver juntos. Ela, ainda sem sentir amor por ele, se entregou àquela aventura da qual sabia que poderia tirar algum proveito. Estava morando com a mãe, após um casamento desfeito depois de seis anos e não tinha muita perspectiva de vida. Uma união naquele momento seria a solução, embora atrapalhasse seus planos de menina sem compromisso e que adorava sair com os colegas. Não havia concluído os estudos e não tinha emprego. Ele, sentindo que poderia ser feliz ao lado de uma pessoa nova, procurou dar a ela tudo que podia. Também, sem sentir um amor profundo, estava fascinado com a idéia de possuir aquele corpinho perfeito e ficava o tempo todo admirando seu rosto lindo.

Em muito pouco tempo, começaram a surgir algumas divergências entre eles, principalmente em função do ponto de vista de cada um encarar a realidade de uma vida a dois. A diferença de idade entre ambos talvez não pesasse tanto, caso não existisse a vontade dela em continuar com as liberdades de uma adolescente. Gilberto, muito conservador e sabedor que, às vezes é preciso renunciar a muitas coisas para conseguir ter um bom relacionamento com a companheira, tentava mostrar para Mariana que esse sacrifício vale a pena quando se quer levar a diante uma convivência saudável.

A vontade de continuar com ela e se esforçando para superar as crises, porque os momentos bons que viviam juntos eram mais importantes, levou Gilberto a fazer tudo para entendê-la e, sempre que podia, concorda em sair para se divertirem, embora já não gostasse mais das mesmas coisas que uma adolescente prefere. Mariana sempre dizia que ele teria de aceitar seu modo de ser e não fazia nada para tentar mudar seu comportamento.

Conseguiu convencê-la a fazer um curso superior, após ter descoberto o que ela gostaria de ser no futuro. No primeiro ano de estudos, a trancos e barrancos sua companheira venceu os obstáculos, não obstante estivesse sempre voltada mais para o fracasso que para o sucesso.

Em algumas vezes, a união entre ambos quase acabou por questões de pequenos conflitos que ambos tinham dificuldades em administrar. Mariana valorizava mais o supérfluo e não conseguia enxergar que ao seu lado se encontrava alguém que, embora ainda não a amasse de verdade, estava disposto a fazer tudo para transformá-la em uma pessoa de respeito e de quem a família pudesse se orgulhar. Se a separação tivesse ocorrido a este tempo de convivência, ele não teria sentido nada mais do que apenas a frustração de não ter conseguido mudar sua cabeça de adolescente e um tanto volúvel.

No segundo ano da união entre eles, as crises foram aumentando. Sem interesse pelos estudos, Mariana conseguiu perder o mesmo período por duas vezes consecutivas. Nesta época Gilberto começou perceber que já gostava muito dela que, por sua vez, dizia também que o amava muito e que iria fazer de tudo para não decepcioná-lo mais. A preocupação passou a ser maior, uma vez que diante de um grande amor, passa a ser mais importante a voz da paixão em contraposição à da razão.

O tempo foi passando e ambos viviam momentos felizes entremeados por horas de desesperanças, principalmente porque Mariana passou a ficar na casa da mãe para conciliar o tempo de estudo. Encontravam-se durante a semana e, mais frequentemente aos sábados e domingos, quando o amor entre eles parecia aumentar. Ora demonstrava grande paixão por ele, ora parecia que o rapaz não tinha a menor importância para ela. Até que, uma semana após ter dito não saber ficar longe dos seus carinhos, falou friamente que não dava mais para continuar com aquele relacionamento. Para Gilberto, foi um golpe inesperado, pois não acreditava que ela o deixasse tão cedo.

Desta vez, antes de completar três anos de uma convivência que, na realidade durou muito, Gilberto viu chegar ao fim a tentativa de uma terceira união feliz e, ao mesmo tempo, vendo que a mulher dos seus sonhos lhe havia escapado como a água nos escapa entre os dedos, experimentou pela primeira vez a dor da perda de um amor que achava ser eterno e passou a sentir novamente a angústia da solidão que se apoderou dele.

Gilberto parou para pensar e refletiu que existem pessoas de toda natureza. Existem aquelas que são responsáveis e outras que descuidam de suas obrigações; existem aquelas que dão importância ao sentimento e aquelas que ignoram as relações de afetividade; existem aquelas que são capazes de jurar para sempre que nos amarão e aquelas em que as juras não passam de determinados momentos para conseguirem algo; existem aquelas que são gratas por tudo que a gente faz por elas e aquelas que conseguem cuspir no prato que comem; existem aquelas que passam o tempo todo dizendo que nos amam, sem se importar com os gestos que consolidam o amor e aquelas que, sem dizê-lo, demonstram amor e carinho a todo o momento.

Foi a maior das decepções que teve. Mesmo sabendo da insensibilidade de Mariana diante da vida que levava ao seu lado, tentou mudar sua conduta de vida, dando-lhe a oportunidade de crescer e ser alguém. Chegou à conclusão que não existem regras para serem seguidas quando o coração se apaixona. Não se pode exigir das pessoas um sentimento recíproco, porque cada um define à sua maneira o tempo de amar, de querer bem, de magoar, de entrar sem pedir licença e ir embora, deixando para trás momentos que jamais voltarão.

O tempo foi passando e Gilberto, ainda inconformado com aquela situação, custava a acreditar que tivesse sido o culpado pelo fracasso que acabara de acontecer. Sabia que existiam muitos conflitos, mas que, de uma forma ou de outra, estava conseguindo manter aquela convivência, pois os poucos momentos de felicidade que tinha ao lado de Mariana eram muito importantes para ele. Não sabia se estava sendo egoísta, mas tinha certeza absoluta que se dedicou ao máximo para que tudo desse certo entre eles.

Mesmo não tendo conseguido concretizar seu sonho ao lado de Mariana, Gilberto descobriu que o amor depende da participação não somente de uma das partes. É preciso compreender mais que ser compreendido. É preciso dar mais que receber. É preciso esperar mais que forçar o destino a nos dar aquilo que queremos nos momentos em que desejamos. É preciso saber ouvir mais que somente falar. É preciso saber que as coisas devem acontecer como foram traçadas por Deus e não querer forçar que aconteçam ao nosso modo.

Gilberto nunca soube o verdadeiro motivo daquela separação, pois as razões dadas por Mariana não faziam sentido, ficando somente a impressão de que ela só estava com ele por interesse. Pensando assim, deixou pra ela um recado através de um artigo que escreveu: nunca faça desabrochar novamente um sorriso em alguém, dizendo “Te Amo”, para mais tarde fazer rolar uma lágrima dizendo “Me esqueça”. Simplesmente porque o amor é mais bonito que uma ilusão, você poderá mais tarde chorar a mesma lágrima que hoje alguém está chorando por você. Quando pensar em ferir alguém, lembre-se que você pode estar dentro do coração desse alguém...

“O destino lhe atira uma faca. Cabe a você decidir se a pegará pelo cabo e a usará a seu favor ou se a pegará pela lâmina e se cortará” (Provérbio Chinês).

Marcio José Furtado




 

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