O sol ainda dormia, enquanto a lua tímida da madrugada brilhava solitária num céu de um azul límpido. O frio cortante de maio e o sereno intenso deixavam as pastagens com uma névoa fina e branca e as estradas de terra úmida, quase em barro. Neste ambiente lúdico e hostil que o homem do campo enfrenta (enfrentava) todos os dias, em especial Seu Zico Incerti, de viva memória, fazendeiro lá pelas bandas do Córrego da Areia, que madrugava e anoitecia tocando vacas, todos os santos dias, pra cima e pra baixo, em busca de boas pastagens.
O capim gordura que sobressaia entre as vegetações com seu tom verde claro aveludado, cuja superfície parecia algodão, era até então o preferido do gado leiteiro naquelas pastagens nativas finitas do Córrego da Areia e de quase toda zona rural de Calçado, cenário marcante em que desenrolou a última viagem.
A viagem começava bem antes de começar amanhecer as quatro horas da madrugada, Jerônimo Ferreira, carreiro dos bons, filho de Vitorino e Lotinha, já estava de pé, pronto para mais um longo dia. Tomava café, engolia um pedaço de broa de fubá, pegava o embornal; dentro uma garrafa de café, água e uma pequena marmita. Chapéu na cabeça, botina, garruchão e muita disposição faziam parte de sua indumentária. Despedia-se da esposa (Paquinha), não sei se rezava, sempre ouvia de Jerônimo xingamentos, principalmente quanto os seus bois desobedeciam aos comandos. Afasta Capeta, vem cá Corisco, gritava bem alto.
Da cidade até o sitio no Córrego da Areia eram quatro quilômetros percorridos a pé Chegava, juntava os bois previamente separados de véspera, num pastinho próximo ao curral, colocava as cangas, azeitava os eixos, subia no cabeçalho, brandia o garruchão e seguia viagem de volta à cidade, enquanto enrolava um cigarrinho de palha. Eu, impaciente já¡ o esperava na saída da rua, por volta das 07h00min horas, aboletava no carro de bois rumo ao Jacá¡, para um dia que prometia.
O tilintar do garruchão, o canto do carro e o mugir dos animais eram cantigas que embalavam a viagem, enquanto chupava cana-de-açucar e trocava palavras com Jerônimo, que ostentava serenidade no comando do carro. O carro de bois era seu ganha pão e ser carreiro, ofício e prazer. Chegando ao destino, num grotão de fazer medo bem próximo ao povoado do Jacá, enchemos o carro de milho e pegamos o caminho de volta para a cidade.
Com o carro abarrotado, tornava a aventura mais emocionante. Para subir os morros sinuosos, cuja terra vermelha solta provocava poeira, enquanto as grandes rodas deixavam profundas marcas no chão, descemos do carro, e a plenos pulmões Jerônimo gritava com os bois, para romperem à adversidade. Para descer era outra historia, soltava as juntas de bois e as colocava na parte de trás do Carro para fazerem força ao contrario e ajudar os bois de coice a segurar a preciosa carga.
O cansaço, a fome, a sede, o sol a pino, a fuligem do milho e o gemido agora ensurdecedor do carro causavam agonia, vertigem e uma certeza: O de nunca mais me aventurar numa viagem de Carro de bois.
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