ALMOÇO COM O ‘CORONEL’ OTAVIANO



Após o golpe militar do Brasil em 1964, a cidade de Irará na Bahia, viveu período de muita turbulência. Era considerada uma cidade comunista. Segundo contavam, começando pelas três maiores autoridades locais, Juiz de Direito, Promotor e o Padre, todos lá tinham idéias consideradas “vermelhas”. Carros da PF visitavam diariamente a cidade, fecharam o único jornal e confiscaram seu maquinário, residências eram visitadas, à procura de material subversivo. O deputado estadual, lá nascido, fora cassado. Apesar das várias investidas, prenderam apenas um: “Seo” Joaquim Estrela, homem de mais idade, chefe da agência dos Correios e que, por ironia do destino, era o único radicalmente a favor do golpe militar e detestava os comunistas. O motivo da prisão foi determinado pela maneira nervosa e agitada do “Seo” Joaquim, o que era seu estado normal, com um livro embaixo do braço, fechando a porta dos Correios, para ir ao encontro de outros senhores, que se reuniam todas as noites, sob a marquise da farmácia do Pedro, para comentarem os últimos fatos. Sob chuva miúda. O pobre homem, na carroceria da camionete, ficou curtindo raiva, não só pela detenção, mas pelos sorrisos irônicos dos seus companheiros “vermelhos”. Foi liberado à noite, graças ao Promotor ter assinado um termo de responsabilidade. Mesmo dois anos depois, a população ainda estava tensa . A Policia Federal ainda fazia visitas periodicamente. E, neste clima emocional, cheguei eu. Com meu jeitão simples, roceiro, cativei logo a simpatia da população, que era pequena.

Um belo dia, estávamos trabalhando no Banco do Brasil, quando adentrou o recinto o Cel.Otaviano, fazendeiro de boas posses, carrancudo, cara de poucos amigos , comunista ferrenho e foi logo nos convidando para almoçarmos com ele naquele dia. O convite, no tom imprimido, tinha mais conotação de intimação. Aceitamos de pronto. O expediente nosso era das 7 às 13 horas. Neste dia, fechamos às 12 horas e fomos todos para lá. Nosso quadro era de apenas 9 funcionários. Recomendação do gerente “Todo cuidado é pouco. Não excedam na bebida”. Para nós solteiros, principalmente eu e Rossine, era o mesmo que ir à Igreja e não poder rezar.Chegamos, fomos muito bem recebidos pela família. Fomos para o varandão dos fundos, onde nos esperavam, cachaça, dreher, martini, vinho e cerveja bem gelada, aberta uma após a outra. Para não desagradar, bebemos de tudo e quase tudo. Às 14 horas foi servido o almoço, muita comida e, principalmente, grande variedade de carne. Não fizemos de rogados, deitamos o cabelo. Era bebida e comida a todo instante.Lá pelas 16 horas, Kafinha, colega de Banco, pede para que eu faça uma saudação ao anfitrião. Subi no banco de madeira para ficar mais alto, porém o coronel determinou que eu subisse na mesa. Era um móvel de mais ou menos 4 metros de comprimento por 1 e meio de largura. As comidas ainda estavam lá, agora acompanhadas de doces e, para impressionar, uma jaca de um metro de comprimento, trazida de sua fazenda.Arredaram as vasilhas e eu, num bom embriago, comecei a oratória.Sabía eu que o coronel tinha uma tendência política muito forte, mas, eu já não me lembrava mais, se era da direita ou da esquerda. Fui fundo elogiando o golpe militar e a ditadura que nos fora imposta. Com os olhos vidrados, notei os sinais do Kafinha e Rossine, “dizendo” que meu discurso não agradava ao coronel Otaviano.Neste instante minha ficha caiu e dei uma guinada dizendo “quem assim se pronuncia, quem faz estes elogios ao governo militar, são os inimigos da nossa Pátria, são aqueles que querem nos ver nas mãos do capital estrangeiro. Estes, juntamente com os generais, deveriam ser expulsos do País”. Ante o semblante aprovador do coronel, fui dinamizando meu discurso, culminando com um papel miserável “Meu coronel, se esta fruta que está sobre sua mesa fosse uma destes generais, com todo respeito que devo ao senhor, agiria dessa maneira”. E, pegando aquela jaca gigante, pesada, a jogeui para cimae, ao retornar, caindo sobre a mesa, jogou vasilhas, comidas, bebidas tudo para o alto. Foi uma lambança. Silêncio total. Nisto, quebrando aquele gelo, o coronel solta um grito “Viva o Brasil, retirando-me da mesa, segurando-me pelas pernas, carregando-me como se fosse um troféu numa volta olímpica, gritando “Viva o Brasil” , “Abaixo a ditadura”, freneticamente. Refeitos do susto, voltamos a beber e comer. Kafinha, já sem sentidos, foi conduzido por mim,para um quarto onde foi dormir. Fim de festa, eram 21 horas, fomos todos para casa. Às 23 horas alguém me acorda na “república”, dizendo que o coronel Otaviano mandou apanhar a chave do quarto para soltar o Kafinha.

Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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