O Sol de Calçado muito mais bonito e próximo da gente. Quando nasce lá pelas bandas do Jacá e vai ascendo montanhas, logo invade as frestas das janelas, e entra sem pedir licença, acordando toda a cidade. É um espetáculo que celebra a vida.
Raios brilhantes espalham-se rapidamente pelos vales dando-lhes um tom dourado, e toma conta de toda cidade que desperta e renasce. Em instantes nossas ladeiras estão repletas de estudantes. Uns descem para o Grupo Escolar Manoel Franco, outros seguem sentido contrário, subindo as mesmas ladeiras para ganhar a Av. Rui Barbosa, que os levarão para o Ginásio de Calçado. Mais um dia de vida, de reencontro, de alegria que parecia não acabar.
É desse cotidiano pacato e feliz que tanto tenho saudades. São destas coisas simples que não voltam jamais que gasto horas relembrando. São coisas da alma, o lugar em que nascemos não sai da gente. Passe o tempo que passar, mas aquelas ladeiras, aquele sol, o chocolate quente de maio, o Americano, o Montanha, o Ginásio e aquela gente não passam nunca.
Que coisa excitante a chegada no Montanha Clube, onde o baile estava pra começar e, de longe já¡ se via o burburinho na praça. Reflexo no cabelo, vestido longo, caras e bocas e todo charme do mundo, assim se apresentava nossa divas. Os primeiros flertes, os amores e os beijos roubados, eram pequenas doses de felicidade. A dança de rosto colado era ópio de uma noite regada a Cuba livre, Campari e muitas cervejas.
Ao longe os pais fingiam ver o que não viam, e fazia vista grossa ao que via. Ali nasceram amores para toda uma vida, aquela praça testemunhou também muitas desilusões que perduram até os dias de hoje.
AH! Aquela cidade perdida guardo dentro de mim, principalmente no período da geração nascida em 1960. Aquela felicidade juvenil dos anos setenta, um verdadeiro estado de espírito, foram mágicos. Os amigos, as coisas da cidade, enfim tudo me fazia feliz. Hoje já nem sei se quero voltar a Calçado ou aos meus 18 anos, e encontrar todo aquele ambiente em que vivi. Só sei que quero voltar!
Domingos
Fernando Ribeiro de Rezende
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