Primeiramente, uma advertência aos que têm os pés
no chão, mesmo não sendo médico, alerto
a todos: ao primeiro sinal de coceirinha gostosa entre os dedos
do pé, ou arredores; dedos da mão, ou arredores;
deixe o prazer de lado e procure alguém que tire o bicho
com toda sua ova--limpeza geral. Se esta advertência não
foi suficiente, leia o resto.
Meu avô paterno, que possuiu uma propriedade rural na
Fazenda Velha durante muitos anos, antes de sua esposa morrer
e ele ir morar na cidade, ainda tirava o leite de dez a quinze
vacas que se reuniam pertinho de sua casa. Nós, meninos,quando
íamos passar um final de semana com eles,ouvíamos,
de madrugadinha, no quente de nossas camas, nosso avó
chamar pelo nome cada vaca, para a ordenha da qual ele próprio
se incumbia de fazer. As vacas e bezerros novos mugiam debaixo
da janela de nosso quarto ainda às escuras. Não
demorava muito para o cheiro adocicado e enjoativo de leite
morno misturar-se ao de bosta de vaca e essa inaudita mistura
(para nós, ao menos) vir entrar pelas frestas da janela
e daí até nossas narinas.
Depois da ordenha, nosso avô, com uma enxada e um balde,
recolhia todo o excremento para formar o esterco,de mil e uma
utilidades.
Que me lembre, ele andava sempre calçado--mas isso não
importa tanto agora, embora seja costume muito saudável,
pelo menos no que diz respeito a ter mais ou menos chance de
pegar bicho-de-pé no pé.
O certo é que ele pegou bicho-de-pé no dedo polegar
da mão esquerda. O bicho que foi parar na mão
ou era um mutante do tipo superandarilho ou foi diretamente
da terra para o dedo de meu avô, hipótese mais
provável. É bom não se esquecer que o bicho-de-pé
é como uma pulga, isto é, também sabe dar
seus pulos. Portanto, todo cuidado. Não digo que se deva
usar luva num clima como o nosso. Só um doido faria isso.
Mas num local sabidamente infestado, passe ao largo ou pegue
só um exemplar para uma noite fria debaixo do cobertor.
E depois se livre dele, isto é, dela, pois é sempre
a fêmea que neste caso ataca.
Naturalmente ele deve ter se escondido debaixo da unha de meu
avô (estou conjeturando, porque na época eu era
muito novo e presentemente não tenho ninguém mais
velho por perto para consultar), pois se tivesse ficado entre
os dedos, sendo os da mão mais abertos, mais próximos
dos olhos e, deste modo, mais visíveis, o emboscado do
bicho teria sido logo descoberto e retirado com uma agulha.
Sem falar que as mãos são lavadas muito mais vezes
durante o dia e uma só lavada já ameaçaria
a vida do traiçoeiro—falo no masculino, pois sou
um tipo antigo e gosto de ser educado com o belo sexo, mesmo
em se tratando de um reles bicho-de-pé.
Qual terá sido o propósito da Divindade ao criar
o bicho-de-pé?Uma fêmea desse bicho é capaz
de botar, durante um período de até 10 dias, cerca
de 200 ovos, e ficar do tamanho de uma ervilha dentro do seu
hospedeiro, sugando-lhe o sangue. Nos mesmos 10 dias, a melhor
galinha poedeira é capaz de não botar nem 8 ovos.
Conforto-me com a idéia de que Ele talvez o tenha criado
para nos dar o barato da coceirinha-- e o restante caiu no rol
dos efeitos colaterais dessa bela criação.
Mas voltando ao meu avô, e para encurtar a história,
digo que ele deve ter se entregado apaixonadamente ao prazer
da coceirinha. Minha avó e todos os parentes que o visitavam,
não se despendiam sem antes lhe implorar que fosse à
cidade ver o que se passava com seu dedo. Mas quando meu avô
o fez, já era tarde demais, pois o processo de gangrena
já estava em curso. Final de história: a ponta
de seu polegar teve que ser amputada, um pouco abaixo da base
da unha.
Carlos Rezende