C O M O  V A I  V O C Ê


Pois é, onze anos se passaram e aqui estou de volta. Na verdade foi tudo muito rápido na hora de ir embora e não pude pensar nem ouvir o coração, deixei que a razão tomasse conta de minhas decisões, e lá fui eu, correndo atrás de melhoria salarial e  atrás desse tal futuro que na verdade não tinha a menor vontade de conhecê-lo. Mas enfim, não temos mesmo saídas. A bem da verdade, nem foi tão difícil assim, pois tenho uma companheira inigualável, que sempre apoiou todas as minhas decisões, é claro que as questionam e muitas vezes com razão, e se não fosse assim não seria quem és, ainda tem meus filhos que como bom coruja, só vejo qualidades, e quando falo de filhos o pensamento vai mais longe, pois tenho os dois criados em casa e os criados na casa de meus irmãos, pois considero e relaciono com meus sobrinhos, como verdadeiros filhos.

A volta não foi diferente, tudo aconteceu muito rápido, só que desta vez ouvi apenas a voz do coração. Sabe como é, não agüentava mais de saudade de tudo isto que temos por aqui, ainda mais que o que fui buscar, já havia encontrado, inclusive esse tal futuro que insiste em chegar e ser o senhor de tudo. Mas, posso afirmar que valeu a pena e que a volta, sem dúvida está sendo muito melhor que a partida, pois reencontrar os amigos, os grandes amigos, não tem coisa melhor.O que mais tenho ouvido é “que bom te ver”, “o bom filho a casa torna” e tenho respondido:”olha, os anos não passaram para você” e isso é tudo muito sincero e muito bom, e nada disso estaria acontecendo se eu não tivesse vivido esta década em outra cidade. Com certeza fizemos vários amigos, procuramos representar o bom nome de nosso município por onde passamos, trouxemos e deixamos saudades, mas não existe coisa melhor que o abraço da terra mãe, e é assim que estou me sentindo ao encontrar e reverenciar cada calçadense amigo e é claro os bonjesuenses também, pois afinal, não dá para não ser amigo das duas Bom Jesus.

Gostaria de dizer que estou feliz com o que estou vendo e ouvindo, quanta coisa melhorou em nossa querida cidade, quantas crianças ficaram adultas e todos já profissionais, engrandecendo cada vez mais nossa geração. Quantas mudanças, quantas obras, quantos bairros, quanta gente nova, a vida parece que melhorou. Já perceberam como está difícil estacionar nas principais ruas de Calçado? E olha que maravilha está a rua Francisco Nunes de Moraes, a nossa antiga e inesquecível rua Nova, quando passo por ali, sinto-me como se estivesse em uma cidade grande, embora isto não me traga nenhuma saudade.

Finalmente, vou me referir ao que de fato me motivou escrever. Na verdade estou expressando um sentimento que vem crescendo desde os primeiros dias que cheguei. Trabalhando, caminhando e passeando pelas ruas e estradas desse município, identifiquei nas conversas formais e informais, e nem dá para ficar indiferente, pois se quando morava aqui, já me indignava, imaginem depois que passei e vivi por nove anos na região serrana? Sim, estou falando do MEIO AMBIENTE. Não dá para não se indignar e dizer que não podemos fazer nada, pois ao contrário, neste caso, só nós é que podemos fazer tudo, e se eu encontrar um só companheiro, já vou iniciar uma campanha. Imaginem o que poderemos fazer se todos derem uma pequena ajuda?

Quero deixar aqui um apelo para que reativemos a ACADEMA, pois mais do que nunca precisamos voltar a fazer campanha. Olha só como as coisas se agravaram nesses dez anos. Quando fundamos a ACADEMA, fazíamos campanha contra o desmatamento, hoje, meus irmãos, já teremos que fazer campanha para reflorestamento, pois nosso município está totalmente devastado, por isso, apesar de tantos avanços, nosso município está feio, está com os campos descobertos, o rio e os córregos cada vez mais secos e sujos. Não vemos mais flores. Afinal, água, ar, fauna e flora, é vida. Já pensaram no dia em que olharmos para nossas montanhas e elas estiverem cobertas de florestas? Olharmos para nosso rio e córregos e eles estiverem cercados de árvores floridas e habitadas por diversos pássaros, cantando, evidentemente, pois estarão soltos e alimentados?

Quero iniciar esta campanha com cada morador, principalmente com aquele calçadense que detém o título de propriedade, pois somente ele poderá mudar esta realidade, liberando área de preservação, para que a mãe natureza possa fazer a sua parte.  Mas quero buscar uma ajuda preciosa, e neste momento sinto-me o melhor dos homens, pois só quem é calçadense tem o privilégio de chamar de conterrâneos, e, portanto irmãos, aqueles que honram nosso torrão natal, com registro de maior per capta do mundo, OS NOSSOS ESCRITORES. Estes certamente são sensíveis a tudo que diz respeito à vida, é por isso que precisamos de vocês escritores, pois não se compara o poder de convencimento de um simples mortal e sua mensagem indignada com o apelo de um escritor, pois sua obra atravessa gerações, é imortal. Só uma campanha desse nível será capaz de sensibilizar pais, filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, pois a degradação do meio ambiente ocorre de forma sutil e atendendo a interesses momentâneos que forçam o ser humano a destruir aquilo que temos de mais precioso, ou seja, a água e o ar. Quando desmatamos, ou deixamos de reflorestar, é como se estivéssemos apertando lentamente, o pescoço da humanidade, que no futuro não irá conseguir mais respirar, e, portanto morrerá, por nossa ação. Não menos importantes são nossos Evangelizadores, Padres, Pastores e todos mensageiros da fé, que pregam a vida,  certamente serão nossos aliados.

Além do desmatamento, da devastação da fauna e da flora, que proporciona um visual pouco agradável para aqueles que nos visitam, é também o tratamento dispensado aos nossos bairros. Já perceberam como são feios seus apelidos? Sem sombra de dúvida desprestigiam e até mesmo ofendem os familiares daqueles que emprestaram seus nomes para a identificação destes logradouros. Não é necessário citar exemplos, mas procurem comparar o nome da pessoa com o qual denominou o bairro, com o apelido que diariamente pronunciamos. Observem e vejam se lhes agradam! Às vezes chega mesmo a ser depreciativo. Quando estou em outro lugar e alguém faz comentários a respeito de nossa cidade se referindo ao bairro ou rua por seu apelido, sinto-me constrangido. Não parece uma cidade que tem no seu passado títulos de verdadeiro berço da civilização, como por exemplo, TERRA DOS MAGISTRADOS E DE GRANDES PROFESSORES. Será que não é chegada a hora de promovermos uma revolução social neste município, em nome de nosso MEIO AMBIENTE?

Gostaria finalmente de contar com a participação de nossos Vereadores e de nosso Prefeito eleito, aos quais dou uma sugestão: antes de nomear seus acessores e secretários, pergunte se eles têm um projeto de melhoria para a agricultura, meio ambiente, saúde e educação.

ESTAMOS JUNTOS!

*Olienes Gonçalves

*Olienes Gonçalves é Escrivão da polícia civil, passou muitotempo
em Domingos Martins e agora está de volta a sua terra Calçado



 

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