O Congresso Eucarístico e Outras Lembranças




Por ocasião do 1º Congresso Eucarístico do Espírito Santo, organizou-se aqui em Calçado um grupo para ir à capital. Era tempo do Padre Francisco Maria Robier. Dona Zizi, Dona Nini, Conceição do Atão, madrinha Iponina, Mozinha, Guimar e mais outras pessoas, inclusive eu, nesta época com doze anos, também entrei na turma. Meu pai que estava tão empolgado, por cúmulo azar, foi mordido por uma cobra, num banho de bica, lá no meio do inhamal, atrás das pedras. Não pôde ir, só chegou até Cachoeiro no ônibus do Dedé, mas teve que voltar. A viagem até Cachoeiro no ônibus do Dedé, era uma grande aventura. A estrada era estreita, de chão, atoleiros, barrancos e despenhadeiros. A lembrança que tenho do Dedé é de imagem de um senhor claro, gordo e muito bem humorado. Essa é a imagem que guardei dele. Parávamos em Rio Novo para o almoço, juntando a fome e a idade, aquela comida era mesmo uma delícia! Bem, voltando ao Congresso, lá chegando nos alojamos numa pensão na cidade alta, perto da Catedral. Foi armado um grande altar, onde hoje é a Praça Oito. Ali era um descampado. Era missa até as onze da manhã. À tarde ladainha, terço, missa, bênção do Santíssimo etc. Romaria ao Convento da Penha, enfim, rezávamos até não acabar mais. Tanta fé, tanta confiança em Deus, tantos louvores á Virgem Maria. Que Maravilha! Depois veio a Festa do IV Centenário de Vitória. Lá fui eu outra vez. Agora já mocinha. Minha Mãe, muito zelosa, achou por bem colocar dentro de minha mala, uma dúzia de ovos, para eu tomar ovos quentes de manhã. Vejam bem a imprudência! Que santa inocência! Não deu outra, os ovos quebraram, sujando meus vestidos que teve que ser lavados, dando uma senhora mão de obra. Passávamos por lá uma semana e era muito gostoso. As paqueras, os rapazes da capital. Naquele tempo tinha o passeio na praça, tal qual cidadezinha do interior. Os vestidos eram de cintura baixa, pregueados ou godê duplo. Os namoricos puros, cheios de pudor. O cinema me encantava. Sempre gostei de cinema, me achava até parecida com Marylin Monroe. Que audácia! Aqui em Calçado, o grande Dr. Pedro Vieira Filho, construiu um prédio para cinema; “Cine São José”. Para nós era o máximo ir ao cinema. O espelho grande da entrada dava susto a muita gente. Na primeira vez que fui ao cinema, olhei para o espelho e pensei “que moça parecida comigo, até o vestido é igual”. Quando saia um tiroteio no filme eu costumava me assustar. Certa vez começou a chiar, pois o filme devia ser muito antigo, aí eu pensei: ”está chovendo e eu nem trouxe sombrinha”. Quando saí à noite estava linda e nem sinal de chuva. Então eu dei pela mancada. O Sr. Jair Melo, figura inesquecível, anunciava o filme pelo alto-falante, era interessante o modo como ele pronunciava o nome dos protagonistas. Jair Melo deixou muitas lembranças para nós, os jovens daquela época. Pelo seu serviço de alto-falante, que era de grande utilidade pública, ficava-se sabendo dos falecimentos, nascimentos, aniversários, casamentos, objetos perdidos etc. Dedicava-se música por estas datas especiais e também aos paqueras. Os tangos, os boleros e as valsas prevaleciam. Às ave-marias, a música solene ecoava pela cidadezinha chegando a todos os lugares e aos corações. O sino da Igreja também badalava ás 6 horas, ao meio dia, e ás 18 horas. Até hoje as pessoas se benzem a estas horas e quando passam em frente à Igreja. Meio-dia, sol a pino e aquelas músicas dolentes ecoando nos ares. Que falta de romantismo! Essa emissora continua prestando serviços à comunidade. Devido à televisão que invadiu nossos lares, já não damos o devido valor a quem por bem merece. Quando morria uma pessoa de maior destaque fazia-se silêncio, quando o alto-falante do Jair Melo voltava ao ar, a cidade se iluminava, ficava em festa. Ele tinha um único filho o Joel Melo, muito bonito e cobiçado pelas garotas. Depois de casada e já mãe de seis filhos, voltei a Ponte do Itabapoana para morar em Calçado. Mais precisamente na casa da esquina, ali na praça, onde era a venda do José Felix, pai do Tonico e Ivan. Hoje Drogaria Medina. Fomos morar bem na boca do alto-falante. Certa tarde escureceu tudo lá para os lados de São Benedito, um barulho surdo e o Sr. Jair Melo ligou o som fora de hora para anunciar a tromba d’água que havia caído no Pavão. Avisava que a água estava vindo para Calçado. Flava a toda hora, alertando a população para prestar socorro ao povo, que morava na parte baixa da cidade, que por certo ficaria inundada. Realmente a água chegou, já à noitinha, inundando tudo. E o Sr. Jair Melo continuava noticiando as mortes, os estragos. Foi uma coisa chocante. Hoje os carros passam por todas as ruas com suas propagandas políticas, comerciais, e suas notas de falecimentos. E nós, sentimos saudades das coisas simples dos outros tempos.

Verconda Espadarote Bulus
www.poesiaempauta.fst.br – site da autora.




 

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