1 – Das preliminares em Rosal...
Uma maravilha gozar férias em Rosal, na fazenda de um
cunhado, onde o ambiente não poderia ser melhor. Tanto
as pessoas como as coisas. Uma fartura, mil guloseimas em frutas:
laranjas, mexericas, mangas, jabuticabas, beribás, cana
caiana, banana, mamão, goiaba, abiu, cajá manga,
abacate, e etc.. Tinha o ribeirão com suas cachoeiras,
para banho e pesca, pulo de mergulho, trairas, bagres e lambaris.
Tinha o cavalo Rex, malhado de preto e branco, sestroso, esperto,
corredor e marchador, inigualável nas disparadas pelo
pasto.
?, ?, ?,... Começo um tanto piegas não? Lugar
comum, recordando a mocidade que é sempre boa para todo
mundo. Horrível pieguice, Deus me livre, mas vá
lá, uma exceção, que fique assim mesmo,
aqueles tempos deixaram marcas profundas.
Uma delícia a papa de milho verde, principalmente para
um guloso de quinze ou dezesseis anos, que sôfrego devorava
tudo quanto era de comer, numa época em que a abundância
por mais farta que parecesse não era tão como
agora.
Quem fazia era a irmã, ou melhor, havia um acordo entre
eles, ela controlava o açúcar e o leite, dava
o ponto e outros acabamentos técnicos, e ele cuidava
da parte inicial, mais bruta, que dependia de força e
disposição: colher o milho na roça, descascar
as espigas, cortar as sementes com uma faca bem afiada, separando
o sabugo, depois moer tudo na máquina de carne, acrescentar
um pouco d’água e leite, passar a massa numa peneira
bem fina, separando o líquido do bagaço. Este
líquido, na cor amarelada característica dos produtos
de milho verde, cheio de amido, é que finalmente ia ao
fogo, para se transformar na tão esperada papa de milho
verde.
Não tem grandes segredos mas deve-se tomar cuidados.
Logo que põe no fogo tem que começar a mexer,
e continuar mexendo, o tempo todo, com uma colher de pau, se
não gruda no fundo e queima. Outra coisa, à medida
que a fervura começa a abrir, começa também
a engrossar, mas irregularmente, empelotando. Não dê
importância, continua mexendo, o tempo todo, as bolotas
vão se dissolvendo, até desaparecerem por completo.
A irmã costumava contar que logo que se casou e foi fazer
papa pela primeira vez, ocorreu um fiasco, quando começou
a encaroçar, ela foi separando os pelotos e jogando fora.
No final não sobrou nada, a papa foi toda para o lixo.
Trinta espigas das grandes, bem nutridas, era suficiente para
uma boa quantidade de papa, dez pratos fundos e um tanto outros
rasos, guardados no grande armário da cozinha para proteger
das moscas. Nesta época ainda não havia geladeira
na casa, de forma que tudo tinha que ser consumido em dois ou
três dias, dependendo do clima ambiente. Parecia muito,
e era mesmo, mas como havia várias pessoas na fazenda,
bons de garfos, dispostos quando o assunto era comida, nunca
nada foi jogado fora.
2 – Da continuação, agora na Fazenda
Velha...
Aqui a diversão não era nas férias, que
não era o caso porque muito perto de Calçado,
mas sim durante o ano nos finais de semana. Programação
intensa. As coisas de comer já não eram o forte,
frutas então necas, aliás tinha gente que brincava
que a Nádia e o Oscar pareciam morar sobre um deserto.
Por mais que insistissem os quintais e entornos não produziam
quase nada, exceto umas poucas pinhas, goiabas, batata doce
e figo. Figo tinha, mas era para fazer doce, tinha um pé
muito antigo, diziam que desde os tempos do Luisão, que
antes morou no local, uma rama que se alastrava e ocupava grande
área, vivia brotando e se renovando, difícil saber
a idade, brotava e revivia, tal qual algumas oliveiras no Jardim
de Getsêmani, que viram Cristo ou foram vistas por Ele
e ainda continuam lá. No entanto outras frutas, laranjas,
mangas, nada. As jabuticabeiras, mesmo depois dos sete anos,
tempo mínimo de produzir, lindas árvores, só
folhas, frutos não, bananas poucas, terreno fraco sugeriam,
ou fossem as formigas, que eram muitas, ou quem sabe a mão
ruim de quem plantava e cuidava. Porém difícil
de explicar, pois ali pertinho, no seu Zezé, só
subir o morro, uma fartura enorme, pomar cheio de fruteiras,
abundando laranjas, mangas, jabuticabas, ameixas, etc..Não
havia explicações convincentes.
No entanto devemos lembrar, que como já se disse, se
comida não era o forte, este existia, muito forte, era
o ambiente, a atmosfera, o calor humano, o encantamento da convivência.
A Nádia sem dúvida era o centro, sabia agradar
e conquistar, e com toda razão costumava mesmo comentar
quando surgia alguma referência sobre casas bem arrumadas,
que ela não se preocupava com a dela, não ligava
para alisar a casa, ou as coisas, preferia até uma casa
um pouco desarrumada desde que as pessoas estivessem felizes,
preferia alisar as pessoas às coisas. Por isto, todo
mundo adorava aquele ambiente.
Mas é claro que havia igualmente um mundo de outras atrações.
O rio, os banhos no rio, a pescaria, as traíras, pretas
e cascudas, enormes e sombrias, monstros de desenho animado.
O rio naquele tempo não era o corguinho de hoje, era
grande, largo, águas escuras, poços profundos,
remansos, onde se podia pular de cabeça, nadar e mergulhar,
ou até quebrar o pescoço no fundo, batendo em
alguma pedra ou pau encalhado, difícil mas podia acontecer.
Nos domingos tinha também o futebol, o Time da Fazenda
Velha, comandado pelo seu Eustáquio e liderado pelo Vantinho,
que era o outro nome do Wenceslau. Quando não jogava
treinava, o que era até uma vantagem para os perebas
ruins de bola, pois havia sempre vagas, difícil conseguir
vinte e dois. Os craques? Dário, Vantinho, Zeca Bahia,
Laerce, Jaime, Zé Camilo, Fioti, Chico da dona Antonica,
e poucos outros.
Agora vamos retornar à “papa de milho verde”.
Naquele domingo, bem de manhã, conversou com a Nádia,
“Sabe Nádia, há muito que não como
uma papa, você sabe fazer? Lá em Rosal a Adair
fazia, eu ajudava, colhia o milho, descascava as espigas, moía
na máquina, preparava tudo e ela só entrava nos
finalmentes, quando estava tudo preparado para ir ao fogo”.
Claro que ela sabia, mesmo que não soubesse, o orgulho
não permitiria negar. “Mas é claro, sou
perita em papa de milho verde, me entregue o líquido
pronto que você vai ver”.
Não foi nada fácil. Para começar não
havia roça de milho verde. O que existia eram uns restos
de plantação, que ficavam próximos da casa
do Alfredo de Paula, lá pros lados do Sossego. Seguiu
para lá animado e quase voltou desanimado Não
estamos certos se foi o sol que naquele ano inclemente queimou
a lavoura ou se o grosso do milho já tinha sido colhido
e só restava uma soca, uns pés mixurucas, espalhados,
espigas magras, mal formadas, incompletas, uma aqui, outra lá,
uma terceira acolá.
Depois de muito sacrifício, andando pelo morro meio perdido,
morro acima, morro abaixo, cata aqui, cata ali, conseguiu pegar
umas quinze ou vinte espigas, que no duro não valiam
mais que umas cinco ou seis das nutridas lá de Rosal.
Seguindo-se o preparo, conforme já foi descrito antes,
e o produto oriundo da intensa labuta entregue à especialista,
precioso líquido, que não devia estar tão
precioso assim, dada a precariedade da matéria prima.
Pois uma surpresa, não é que depois de pronta,
pela prova, tudo indicava que a papa tinha ficado até
boa. Apenas um pirex, dos médios, paciência. Colocada
na geladeira, já tinha geladeira então, ficou
gelando para depois do futebol, quando regressasse lá
pelas seis da tarde.
Outra surpresa no regresso do campo, o contrário da anterior,
notícia ruim. Quando a Nádia então, com
cara de desapontamento, meio sem graça, nos recebe. “As
visitas chegaram e não tinha nada para oferecer, o pessoal
da dona Jacira, gente de Vitória, passando por aqui a
caminho da Segunda”. “Achei que dava para oferecer,
que a quantidade era suficiente, só que adoraram, comeram
e repetiram, uma delícia, queriam mais, sobrou muito
pouco”.
Pouco coisa nenhuma, não sobrou foi nada, quando se abriu
a geladeira, a vasilha jazia vazia, apenas um restinho, umas
rebarbas deixadas pela colher que não conseguira raspar
tudo. Talvez, não há certeza, na frustração
do momento, mordido pela decepção, por pirraça,
não tenha nem querido provar daquelas rebarbas. Não
se lembra.
H. Teixeira de Siqueira,
Vila Velha, fevereiro de 2008.
