No tempo que morei na Fazenda Velha, quando andei dando umas aulas noturnas para alfabetização de adultos, tive uma boa experiência, além de ensinar também aprendi, aliás, com professor é quase sempre assim.
Nesse tempo inclusive me coincidiu um outro interesse. Foi quando percebi a necessidade de aprender a dançar. Não que gostasse, na verdade o contrário, nunca fui aficionado e tinha bastante dificuldade, ouvido ruim, falta de ginga, cadeiras sem molejo, dificuldade de se manter no ritmo. E também não gostava muito não, a não ser..., Bem?
Bem, o problema, o que eu queria mesmo, era arrumar um modo de me aproximar das garotas, desinibir, perder a timidez, tentar um papo, namoro, etc. Os bailes e as danças eram o melhor jeito naqueles tempos, de preconceitos e proibições, quando os caras de paus quase sempre se davam bem e os acanhados ficavam para trás, a propósito, como ainda hoje e como sempre.
Dançar na cidade, para quem não sabia, era complicado, imperava uma inibição, o medo do ridículo e de fazer feio, de se expor perante gente com quem convivia no dia a dia, alguns metidos, zombeteiros, sempre dispostos a nos ridicularizar. Ou talvez não fosse bem isso, não passasse de imaginação ou apenas timidez e acanhamento, heranças de criação reprimida ou quem sabe característica de temperamento.
No meu caso, um tímido empedernido, o jeito legal de aprender a dançar foi freqüentar inicialmente os “bailes da roça”. Não havia a exigência de bom desempenho como na cidade, onde os salões amplos ...
Os bailes na roça... Bom, para começar o ambiente que no caso era a própria sala da casa normalmente era pequeno e ficava muito cheio, não dava para assanhados se exibir, o contrário, a gente ficava misturado no meio daquele confusão, sem grandes exigências, não se chegava a chamar a atenção, todo mundo dançando mais ou menos igual. Quando se errava o passo não tinha problema, ninguém notava, as pessoas eram menos sofisticadas, menos exigentes, mais simples, tendendo a acomodações, quebra de galho, compreensivas, desde que se mantivesse dentro do respeito e dos costumes. Repertório limitado, as músicas sempre as mesmas.
Um bom companheiro o Aureliano, gostava de dançar, era animado. Foi meu aluno no curso de alfabetização de adultos e fizemos boa camaradagem.
Pois é, pelo que me lembro, foi ele quem descobriu no final de semana o baile lá no Cafundó, zona rural, muito montanhosa, a uns dois ou três quilômetros da sede da Fazenda. Indaguei se a gente podia ir, se foi convidado? Respondeu que não, não foi, nem conhecia o pessoal, mas que não haveria problema, deixasse com ele.
Nos aprontamos e fomos, eu ele e o Jaime.
A casinha ficava num platô descampado, bem junto de um capoeirão de mata rala. Ao nos aproximarmos, já percebemos a iluminação do terreiro, com uma fogueira e os lampiões na noite clara de lua cheia. Ouvimos o choro distante da sanfona de oito baixos, que era quem imperava naqueles condições, como instrumento principal, às vezes secundada por pandeiro, triângulo e algo de percussão. Um som amortecido e chocalhado no silêncio da vizinhança em ritmos de baião, samba ou até bolero.
Primeiro cuidado: os cachorros. Nessas casas de roça costumavam sempre ter alguns que podiam surpreender. Ficamos por ali, rodeando e espreitando, parece que não tinha não. Aí, como mais desinibido e dono da iniciativa, o Aureliano se propôs a ir ter um dedo de prosa com o morador, para pedir autorização. Dirigiu-se para lá e nós dois ficamos esperando a uns cem metros, na expectativa, junto da porteira. Demorou um tempinho, depois voltou e fez sinal que podíamos nos aproximar.
Foi então que curioso indaguei: “o quê que você falou pro homem?” E veio a resposta inesquecível: “Ué, perguntei a ele se nóis era suficiente pra participar do baile dele”.
Vila Velha, setembro de 2008.
H. Teixeira de Siqueira.

