Das estórias de seu Walter Mendonça - Parte 14: Pneumonia Central...




AO médico chamou o amigo e perguntou-lhe “Sua esposa já teve algum problema de pulmão?”, pois na radiografia notara qualquer coisa diferente, uma mancha, uma marca, ou talvez uma cicatriz. O rapaz não soube responder de imediato, porém depois de ouvir o sogro as coisas ficaram esclarecidas. Eram marcas de uma doença antiga, de muitos anos, quando a moça era ainda apenas um bebê. Não tinha com que se preocupar, podia continuar com o acompanhamento pré-natal naturalmente. Ainda bem.
Seu Walter lembrava bem do acontecido.

Foram dias de grande aflição, o próprio doutor Aristides parecia meio perdido. De noite a criança ardia em febre alta, suando e chorando, não conseguia dormir, eles, os pais, se revezando nos cuidados, com ela no colo andando para lá e para cá, ora um ora outro, noites insones, compridas, infindáveis, madrugadas que não passavam nunca. No dia seguinte, quando o doutor aparecia, a situação podia variar, algumas vezes a mesma coisa, febre, choro, mas em outras tudo diferente, sem febre, sem choro, dormindo, sorridente e brincando, com cara boa. Esse quadro indefinido já durava mais de uma semana e estava começando a preocupar: pulmão limpo, ouvido e garganta sem infecção, barriga boa, nada que sugerisse alguma das doenças conhecidas. O certo era esperar o quadro se definir. Enquanto isso, tratamentos paliativos, banhos de água morna para baixar a febre, ingestão de líquidos, insistir com a alimentação e remedinhos caseiros contra a dor.

Na verdade, naqueles tempos, antes de descobrirem os antibióticos, estas situações aflitivas não eram de grande novidade. Morria muita criança na primeira infância. Algumas doenças das conhecidas eram quase que fatais, mas morriam também de muitos outros males não identificados. Os médicos faziam o que podiam, contudo como todo mundo sabia, quando as coisas complicavam, tinha que ser mesmo entregue era na mão de Deus, que tudo sabe e tudo pode. Aliás, como ainda hoje acontece, só que agora não com tanta freqüência quando se tratam de bebês.

Doutor Aristides chamou o pai da criança e consultou. “Eu acho conveniente a gente levar ela para o “Colega” dar uma olhada. Você concorda?” “Claro, por que não!”, respondeu seu Walter. “Então depois do almoço vamos nos encontrar na Farmácia”. O colega no caso era o outro médico da cidade, o médico da oposição, doutor Costa, um baiano que se estabelecera no Município há alguns anos.

Em Calçado sempre havia espaço para dois médicos, um, o tradicional, era o doutor Aristides, que atendia a família dos Vieira e seus correligionários e quem mais o procurasse, e normalmente sem cobrar. Não cobrava se fosse parente ou alguém de poucos recursos. Como quase toda a clientela era de parentes ou de necessitados, o normal para ele era trabalhar mesmo de graça. O outro médico era o dos adversários políticos, dos Lobo e seus adeptos, cujo orgulho não permitiam que tratassem com o doutor Aristides, um adversário ferrenho, muito ligado à política e à disputa pelo poder, sempre candidato a alguma coisa no partido dos Vieira.
Por isso, quando o doutor Costa veio atuar na cidade, embora de boa paz, aberto, sério, simpático, procurando se relacionar com todo mundo, se viu dentro de pouco tempo obrigado a ocupar o espaço disponível de médico da oposição, procurado apenas por aqueles que não queriam saber do doutor Aristides.
E a pergunta que o doutor. Aristides fez ao primo, seu Walter, “se podia consultar o Colega” aí então se explica. Apesar deles, os médicos, se darem muito bem, se respeitarem como colegas, reconhecer cada um o valor do outro, o mesmo não ocorria com a clientela, mais ignorante, mais radical, preconceituosa no que se referia aos adversários políticos, não aceitava tratar com o doutor do outro lado.

Levaram a menina à farmácia do seu Cruz. doutor Costa estava lá com o doutor Aristides esperando, se aproximou e pediu que a virassem de bruços e afastassem a camisolinha. Apalpou e meteu o ouvido nas costas dela, pediu silêncio, concentrou-se, ouviu mais em cima e depois mais embaixo, após alguns instantes, levantou a cabeça muito sério e comentou: “é, é da central, pneumonia central, essa não é fácil de pegar não, tem que ter um ouvido muito bom”.

Ele mesmo aplicou uma injeção, das grandes, nas costas da criança, de uma nova droga que tinha aparecido no mercado. Por muitos anos seu Walter lembrou do nome desse remédio mas não se lembrava mais, um nome complicado, provavelmente um dos antecessores dos antibióticos, daqueles que começaram a aparecer no mercado, antes que as penicilinas dominassem a cena.

No dia seguinte a menina começou a apresentar sintomas de melhora e em poucos dias estava completamente sã.


João Hertesi

 



 

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