AO médico chamou o amigo e perguntou-lhe “Sua esposa
já teve algum problema de pulmão?”, pois
na radiografia notara qualquer coisa diferente, uma mancha,
uma marca, ou talvez uma cicatriz. O rapaz não soube
responder de imediato, porém depois de ouvir o sogro
as coisas ficaram esclarecidas. Eram marcas de uma doença
antiga, de muitos anos, quando a moça era ainda apenas
um bebê. Não tinha com que se preocupar, podia
continuar com o acompanhamento pré-natal naturalmente.
Ainda bem.
Seu Walter lembrava bem do acontecido.
Foram dias de grande aflição, o próprio
doutor Aristides parecia meio perdido. De noite a criança
ardia em febre alta, suando e chorando, não conseguia
dormir, eles, os pais, se revezando nos cuidados, com ela no
colo andando para lá e para cá, ora um ora outro,
noites insones, compridas, infindáveis, madrugadas que
não passavam nunca. No dia seguinte, quando o doutor
aparecia, a situação podia variar, algumas vezes
a mesma coisa, febre, choro, mas em outras tudo diferente, sem
febre, sem choro, dormindo, sorridente e brincando, com cara
boa. Esse quadro indefinido já durava mais de uma semana
e estava começando a preocupar: pulmão limpo,
ouvido e garganta sem infecção, barriga boa, nada
que sugerisse alguma das doenças conhecidas. O certo
era esperar o quadro se definir. Enquanto isso, tratamentos
paliativos, banhos de água morna para baixar a febre,
ingestão de líquidos, insistir com a alimentação
e remedinhos caseiros contra a dor.
Na verdade, naqueles tempos, antes de descobrirem os antibióticos,
estas situações aflitivas não eram de grande
novidade. Morria muita criança na primeira infância.
Algumas doenças das conhecidas eram quase que fatais,
mas morriam também de muitos outros males não
identificados. Os médicos faziam o que podiam, contudo
como todo mundo sabia, quando as coisas complicavam, tinha que
ser mesmo entregue era na mão de Deus, que tudo sabe
e tudo pode. Aliás, como ainda hoje acontece, só
que agora não com tanta freqüência quando
se tratam de bebês.
Doutor Aristides chamou o pai da criança e consultou.
“Eu acho conveniente a gente levar ela para o “Colega”
dar uma olhada. Você concorda?” “Claro, por
que não!”, respondeu seu Walter. “Então
depois do almoço vamos nos encontrar na Farmácia”.
O colega no caso era o outro médico da cidade, o médico
da oposição, doutor Costa, um baiano que se estabelecera
no Município há alguns anos.
Em Calçado sempre havia espaço para dois médicos,
um, o tradicional, era o doutor Aristides, que atendia a família
dos Vieira e seus correligionários e quem mais o procurasse,
e normalmente sem cobrar. Não cobrava se fosse parente
ou alguém de poucos recursos. Como quase toda a clientela
era de parentes ou de necessitados, o normal para ele era trabalhar
mesmo de graça. O outro médico era o dos adversários
políticos, dos Lobo e seus adeptos, cujo orgulho não
permitiam que tratassem com o doutor Aristides, um adversário
ferrenho, muito ligado à política e à disputa
pelo poder, sempre candidato a alguma coisa no partido dos Vieira.
Por isso, quando o doutor Costa veio atuar na cidade, embora
de boa paz, aberto, sério, simpático, procurando
se relacionar com todo mundo, se viu dentro de pouco tempo obrigado
a ocupar o espaço disponível de médico
da oposição, procurado apenas por aqueles que
não queriam saber do doutor Aristides.
E a pergunta que o doutor. Aristides fez ao primo, seu Walter,
“se podia consultar o Colega” aí então
se explica. Apesar deles, os médicos, se darem muito
bem, se respeitarem como colegas, reconhecer cada um o valor
do outro, o mesmo não ocorria com a clientela, mais ignorante,
mais radical, preconceituosa no que se referia aos adversários
políticos, não aceitava tratar com o doutor do
outro lado.
Levaram a menina à farmácia do seu Cruz. doutor
Costa estava lá com o doutor Aristides esperando, se
aproximou e pediu que a virassem de bruços e afastassem
a camisolinha. Apalpou e meteu o ouvido nas costas dela, pediu
silêncio, concentrou-se, ouviu mais em cima e depois mais
embaixo, após alguns instantes, levantou a cabeça
muito sério e comentou: “é, é da
central, pneumonia central, essa não é fácil
de pegar não, tem que ter um ouvido muito bom”.
Ele mesmo aplicou uma injeção, das grandes, nas
costas da criança, de uma nova droga que tinha aparecido
no mercado. Por muitos anos seu Walter lembrou do nome desse
remédio mas não se lembrava mais, um nome complicado,
provavelmente um dos antecessores dos antibióticos, daqueles
que começaram a aparecer no mercado, antes que as penicilinas
dominassem a cena.
No dia seguinte a menina começou a apresentar sintomas
de melhora e em poucos dias estava completamente sã.
João Hertesi
