Das estórias de seu Walter Mendonça - Parte 15: De paletó curto...


Queria comprar um sítio, diversificar as atividades, criar uns bois, plantar e colher mantimentos, lembrar a vidinha antiga na roça. Quem sabe melhorar a renda?

Havia duas propriedades à venda. Pediu ao sogro, seu Quiquito Garcia para ajudar. Montaram a cavalo e foram dar uma olhada.

A primeira estava com preço razoável, mas não agradou. Seu Quiquito achou muito montanhosa, carente d’água, nem uma varginha para plantar arroz. A segunda ao contrário, agradou. Ótima, mas quando souberam do preço, conhecendo as limitações de dinheiro, o sogro comentou: “é, esta até que ta boa, muito boa, mas não serve também não, você está de paletó meio curto para comprá-la”.

Não desanimou e resolveu pedir um dinheiro emprestado ao seu Carlos Nunes, que emprestava a juros módicos. Fez a proposta e seu Carlos assentiu. Prometeu dar umas notas promissórias e se prontificou a levá-las para o pai assinar como avalista. Seu Carlos retorquiu rápido, “não, não precisa não, filho do Zeca Bento não precisa de avalista”.

Coitado do seu Carlos, se soubesse…

Se soubesse que tinha sido ludibriado..., talvez agisse diferente.

Tinha acontecido há vários anos, uns vinte quem sabe.
Os alunos da escola da dona Corina estavam ajuntados, esperando, formados mas à vontade, aguardando o início da parada de 7 de Setembro. Ainda faltava chegar o Pelotão do Tiro de Guerra de Bom Jesus, atrasado mais de uma hora. O sol quente e a meninada com cara de cansaço e fome. Seu Carlos Nunes passou e ficou com pena e deu ordem a um rapaz que vendia uns bolinhos, parece que brevidade, para fornecer por sua conta uma a cada um deles. Um dos alunos, sempre meio orgulhoso, o Pedro da Dona Lota, refugou, “não, quero não!”, os demais aceitaram e cada um pegou a sua. O garoto Walter, guloso e com fome, resolveu dar o golpe e pegar duas.

Na hora de acertar as contas, como previsto, veio o impasse. Seu Carlos contou e disse “são dez”, o rapaz respondeu “não, foram onze”. “Mas, o Pedro não quis, foram só dez alunos que pegaram”, “não, foram onze, eu conferi”. “Ah! Então algum guloso safado pegou duas, vou pagar mas não ta certo não”.



João Hertesi

 



 

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