Sua afinidade com o Botafogo vinha de longe, talvez ainda do início dos anos quarenta, pode ser que antes, ou um pouco depois. Desde que as rádios começaram a transmitir as partidas. Mas o seu Botafogo era outro, diferente do de hoje, era um time cheio de craques, com no mínimo dois ou três na Seleção, acostumado a comemorar títulos. O Botafogo de Osvaldo Balisa, Gerson, Nilton Santos, Paraguai, Marinho, Pirilo, Otávio e Braguinha. Didi ainda jogava no Fluminense e Garrincha ainda não tinha aparecido. Era também o Botafogo de dirigentes sérios e apaixonados pelo clube, como Carlito Rocha e João Saldanha.
Alguns nomes de logradouros do Rio de Janeiro, de tão repetidos pelos locutores, soavam meio mágicos para os torcedores do interior que geralmente não conheciam a cidade. Gávea significava Flamengo; São Januário Vasco da Gama, Laranjeiras Fluminense, General Severiano Botafogo, Moça Bonita Bangu; Campos Sales América, etc., etc.. Por isso, o sonho de todo torcedor era conhecer esses locais, ou melhor um desses locais, o de seu clube é claro, quando visitasse o Rio.
Esteve no Rio no início dos anos cinqüenta. Como todo bom botafoguense, tinha que ir a General Severiano, de preferência assistir a um treino do Botafogo, já que naqueles dias não haveria jogos do campeonato. Se informou, os treinos eram à tarde, terças, quartas e quintas, às quatro horas.
Almoçou e foi para a Praça Saens Peña, onde pegou o Bonde Tijuca, com destino ao centro. Tinha estudado detalhadamente o itinerário, andar no Rio sozinho era complicado, o bonde passava pela Conde de Bonfim, seguia Haddock Lobo, Frei Caneca, Estácio de Sá, passava nos fundos do Campo de Santana, em frente ao Corpo de Bombeiros, Praça Tiradentes, Rua da Carioca e Assembléia. Aí é que ia saltar, tinha que prestar muita atenção, no início da Assembléia avistava o relógio do Largo da Carioca, era o ponto de referência. Se não visse o relógio e passasse direto não tinha problema, logo na frente era a Praça 15, o bonde a contornava, passando em frente ao porto das barcas e voltava pela Sete de Setembro. Na quarta rua tinha que saltar, Rua Uruguaiana, logo depois da Avenida Rio Branco, avenida larga de muito movimento. Na Uruguaiana tomava à esquerda, logo em frente via o relógio. Seguia adiante, atravessava o Largo da Carioca e ia até do outro lado, no Tabuleiro da Baiana, onde pegava o outro bonde para a Zona Sul. Aí muito cuidado, eram vários os bondes que viravam ali. Tinha o Laranjeiras, o Flamengo, o Largo do Machado e o da Praia Vermelha, era esse que servia.
O bonde seguia pela Senador Dantas, Praça Paris, Rua do Catete, Largo do Machado, virava para a Marques de Abrantes ou Senador Vergueiro, saindo na Praia de Botafogo. No final da enseada, onde havia um monte de barcos ancorados, era o local que tinha que descer, se não o fizesse ia parar na Urca. Assim que saltasse, em frente ficava a rua General Severiano, o estádio à direita, uma bela fachada.
Assim foi feito, até aí tudo bem. Então apareceu o problema. O porteiro uniformizado, camisa preto e branco, símbolo do clube no boné, barrou-o. “Estranho não pode entrar, é a norma do clube”. E agora? “Mas companheiro, eu sou torcedor do Botafogo e queria ver o treino”. “Nada feito, ordens são ordens e minha função é controlar a entrada”. Insistiu, argumentou, um torcedor antigo do Botafogo, e o homem resolveu chamar o chefe da segurança. Este chegou para ver o que que era. Conversou com ele, “Meu senhor! Vim de longe, lá de São José do Calçado, que fica no sul do Espírito Santo, sou torcedor do Botafogo há muitos anos, queria conhecer o campo e ver um treino”. O homem olhou e o mediu de cima abaixo, fez uma cara assim de camaradagem e disse: “tudo bem, pode entrar, siga pela direita, e suba para a arquibancada, não vamos decepcionar um torcedor do Botafogo, ainda mais vindo de São José do Calçado”.
O campo meio acanhado, esperava que fosse mais amplo, todavia muito bem cuidado. O treino já começara, um coletivo, titulares contra reservas, comandados por Gentil Cardoso, o técnico da ocasião. Felizmente quase todos os titulares presentes, Nilton Santos ainda meio garoto, em início de carreira, mas um craque quase perfeito, com um gingado de cintura tirava qualquer adversário da jogada e saia tranqüilo com a bola.
João Hertesi
