Das estórias de seu Walter Mendonça - Parte 17: Um tesoureiro super ocupado...


            Como caixa do Banco, acostumado a lidar com dinheiro, pessoa de confiança, gozando alto conceito na cidade, seu nome era sempre lembrado para tesoureiro. Era o tesoureiro de quase tudo em Calçado. Foi da comissão de construção do novo campo do Americano, depois foi o tesoureiro do próprio time, era o eterno tesoureiro das comissões de organização das Festas de Maio, que ocorriam anualmente, da Liga Católica, das obras de construção e reforma da igreja matriz, quase tudo que implicasse em controlar dinheiro, serviços não remunerados. Extremamente rigoroso em sua contabilidade, publicava balanços e balancetes detalhados no jornal A Ordem, discriminando todas as entradas, saídas e os destinos dos saldos. Queria tudo muito transparente. Durante a semana fazia esses serviços em casa à noite. Mas dia cheio mesmo eram os domingos.
            De manhã a Missa das Sete. Depois ida ao sítio para ver como andavam as coisas, a propriedade não podia ficar jogada, passava então pelo Catinga, o sítio da dona Nini que estava sob sua responsabilidade, conversava com o colono, dava as ordens. Meio dia ou meio dia e meio em casa para almoçar, tinha ainda reunião da Liga Católica, a matinê no cinema, às vezes jogo do Americano, e neste caso tinha que controlar a bilheteria. Ainda tinha o cinema à noite, um sufoco os domingos.
            Tarefa trabalhosa e por que não dizer bastante desgastante era a da comissão para angariar dinheiro para a igreja matriz. Apelavam principalmente para dois recursos, o leilão de bezerros e o livro de ouro.
A comissão quase sempre a mesma, Walter Mendonça, Ari Borges, Chico Tavares, Mário Silva, Zé Martins e mais uns dois ou três, todos membros da Liga Católica.. Cada um tinha sua função. No caso dos bezerros, o Walter, ou o Ari, ou às vezes os dois, elaboravam a correspondência que seria entregue aos destinatários, em mãos, por um dos outros membros. Uma carta circular, bem circunstanciada, explicando o objetivo, o que se pretendia, tintim por tintim, e no final solicitava a doação. A comissão se reunia, para discutir e elaborar a lista dos possíveis doadores. Na verdade, já havia um pessoal tradicional que costumava fazer parte dessa lista, e que doava todos os anos. Mas era sempre interessante tentar incluir mais alguém. Às vezes esse novo alguém atendia, mas nem sempre, em vez do bezerro podia vir de volta uma desculpa. O bezerro mais bonito e mais valioso era sempre o de seu Juca Meroveu, um criador de bois de raça caprichoso com seu rebanho, e tinha prazer de ver o seu exemplar chamando atenção no meio da garrotada. O encarregado de buscar os bezerros era sempre o Chico Tavares, ele tinha também seus bois e uma infra-estrutura montada que facilitava a tarefa. O leilão ocorria atrás da igreja, às dez horas, logo depois da segunda missa do dia principal da festa, dia 31 de maio. O leiloeiro invariavelmente era o Zé Quintão, que anunciava os lances com sua voz alta e metálica, sem ajuda de alto-falantes ou qualquer  dispositivo de amplificação.
O Livro de Ouro era o outro recurso, nele eram listadas as contribuições em dinheiro. À noitinha, quando os moradores já tinham regressado do trabalho e estavam recolhidos em casa, a comissão batia lá, quase que de rua em rua, de casa em casa. Aí era muito importante a participação do Mário Silva. Como tinha a mão muito pesada, cabia a ele esmurrar as portas e janelas, para chamar os moradores, “tan-tan-tan, tan-tan-tan!” voz grossa “Oh de casa!”. Quando o morador aparecia, ele passava a bola “Olha o Ari quer falar com vocês sobre as obras da igreja”. Era o Ari ou o Walter que tinham que entrar com o papo, os argumentos, e no final fazer o pedido. Os outros membros, sempre gente mais atrasada, sem capacidade de argumentação, iam quase que só como coadjuvantes, para fazer número e levantar a moral.
O dinheiro apurado era colocado no Banco, numa conta movimentada pelo pároco. Ou seja, a comissão arranjava o dinheiro e ao vigário cabia gastá-lo. Foi ai que uma vez houve um probleminha, aliás não chegou a ser problema, digamos ...?
O padre Amando viajou para a Holanda, sua terra, onde foi passar uma temporada e deixou o Walter controlando as contas. Na volta, na primeira reunião da Liga com o padre, o Walter, como sabemos,  muito escrupuloso e minucioso, fez sua prestação de contas rigorosa. No final ele resolveu sugerir ao padre, coisa que já vinha pensando há tempos, que poderiam a partir de agora dar uma satisfação ao público, explicando nos sermões durante a missa como é que eles vinham gastando o dinheiro da igreja, esse resultante do trabalho da comissão. O padre não disse nada, mas dava para ver que não gostou da sugestão, fechou a cara, mudou de assunto e começou a tratar o Walter diferente desde então. A estocada caiu-lhe funda, numa região sensível, já que muito autoritário, mandão e auto suficiente, não pretendia dar obediência a ninguém, e nem sempre vinha gastando o dinheiro arrecadado para os fins previstos, aqueles que foram manifestados pela comissão aos doadores na hora dos pedidos.

 

 


João Hertesi

 



 

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