Das estórias de seu Walter Mendonça - Parte 18: Final..


18.1. Tião Marques e o Motorista...


Não é que seja bem um caso, possivelmente apenas alguns comentários, para ilustrar uma situação. Como já vimos seu Walter era um dos diretores do Americano, inclusive foi responsável pela guarda e controle do dinheiro durante as obras de construção do novo campo.

Em Calçado, nos anos cinqüenta, havia grande rivalidade entre os dois clubes, o Americano e o Motorista. Os torcedores de um estavam sempre torcendo contra o outro, não interessava quem fosse o adversário, era como flamenguistas e vascaínos, que também se detestavam. Normalmente, quem contribuía com um não ajudava o outro e vice versa. Primeiro foi a construção do campo do Americano, liderada pelo seu Moacir Garcia, com todo mundo que era simpático ao clube contribuindo, comprando um título patrimonial, dois mil cruzeiros, pagos em dez parcelas de duzentos. Depois veio a do Motorista, comandada pelo Tião Marques, também dois mil cruzeiros, nas mesmas condições, só que os compradores dos títulos eram outros, os adversários do Americano. Dificilmente alguém concordava em ser sócio dos dois clubes, comprando ambos os títulos patrimoniais.

Pois seu Walter foi. Tião Marques falou com ele, pediu sua contribuição, e ele concordou. Mesmo sendo torcedor do Americano, para ele o que interessava era o sucesso dos esportes em Calçado, não tinha importância se era um clube ou outro. Foi pesado na ocasião, gastar quatro mil cruzeiros para ajudar os times de futebol. Sócio patrimonial dos dois, com carteirinha e tudo, conforme as regras podia entrar nos campos sem pagar.

18.2. Comentários Finais...


Segundo podemos ver, ao longo da narração das estórias de seu Walter, os casos são todos antigos, da época em que ele residia em Calçado. Ele mudou para Vitória em 1961, portanto há mais de quarenta e cinco anos. Parece que com essa mudança sua fonte secou, morreram as novas lembranças, não tinha mais estórias. Ou será que foi o tempo que parou e lá no íntimo, no fundo de seu ser, ele ainda morava em Calçado?

Ninguém sabe, talvez sim. Quando estava viajando fora de Vitória, conversando com alguém estranho e ia contar alguma coisa, e queria se referir à sua residência, ou à sua cidade, ou à sua terra, ele sem querer costumava começar assim, aliás, como muitos outros calçadenses ausentes: “Lá em Calçado ...”.

 

João Hertesi

   



 

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