Das Memórias de um Médico

 

O Canhão foi um grande amigo, dizendo melhor, Canhão não, este era apenas o apelido, que a gente usava no nosso meio, nas nossas conversas, no nosso papo, nos nossos contatos, que no entanto parece que em casa, entre os familiares, não era usado e nem aceito, considerado meio chulo e grosseiro, principalmente pela mãe. Por isso a gente tinha que tomar algum cuidado ao se dirigir a ele na presença dela. Quanto ao pai...? Bem, este já era mais camarada e desligado...

Como disse, um grande amigo, amizade cultivada e regada num relacionamento mais ou menos intenso naqueles anos de ginásio e científico, embora não fôssemos da mesma turma, ele um ano adiantado. Pois foi graças a essa convivência que quando cheguei da Fazenda Velha, para vir morar e estudar em Calçado, me deparei com várias novidades e adquiri alguns hábitos.

Ouvir séries de aventuras no rádio.

Entre sete e sete e meia da noite a gente ouvia duas séries na Rádio Tamoio, quinze minutos cada, primeiro o Capitão Atlas, depois o Jaguar. Ambos episódios diários de segunda a sexta. O primeiro era um herói barra pesada, com seus amigos combatendo o crime e lutando contra bandidos, impondo a justiça, a lei e a ordem, sempre no interior, no meio rural, tropel de cavalos, tiros, emboscadas, trabucos, jagunços, muita emoção, a imaginação claro complementando a história que vinha do rádio. Tudo na base das vozes e dos sons, da sonoplastia, como acontecia nas novelas da Rádio Nacional das oito horas. O Jaguar era um herói urbano, tipo detetive, um Poirot tupiniquim, igualmente tinha seus auxiliares, que o ajudavam a desvendar e resolver os casos mais intrincados. Treze, quatorze anos, criatividade exuberante, imaginação fértil, muita emoção.

Outra paixão do Canhão que me foi contaminada. Os filmes de aventuras, faroestes, lutas de espadas, piratas, nas selvas. Quando eu não podia ir ao cinema ele me contava. Confundíamos os heróis das histórias com os artistas. Errol Flynn, por exemplo, era um colosso, o preferido, bravo, lutador, bom de tiro, exímio na espada, também no arco e na flecha. E tinha ainda o sucesso com as mulheres, sempre terminava com a mocinha. Além dele havia outros charmosos, nem tanto, mas também charmosos: Humphrey Bogart, Gary Cooper, Tyrone Power, outros. E as artistas lindas que nos enchiam de admiração: Dorothy Lamour, com seus cabelos compridos até ao meio das costas, Olívia de Haviland, Ester Willians, Ingrid Bergman, Alex Smith, etc., etc.. Outra emoção, os seriados que passavam no sábado e repetiam na matinê de domingo.

Um outro assunto presente no nosso universo, e que talvez ocupasse a maior parte do tempo livre, era o futebol. Ambos éramos apaixonados pelo Americano, ainda não tinha o Motorista. Torcíamos e jogávamos peladas. No futebol do Rio, ele era botafoguense e eu vascaíno, digamos ambos quase fanáticos, dava assunto para não acabar mais.

Os Gibis, Revistas em Quadrinhos. Ele comprava, lia e me emprestava. Eu não tinha dinheiro para comprar. A grande novidade neste caso foi o lançamento da revista do Capitão Atlas, que nos deixou eriçados. Agora podíamos nos deliciar e vibrar com desenhos, fotos e reportagens sobre nossos heróis do rádio (o próprio Capitão, o Índio Chico, o Tunicão e a Rainha da Cachoeira).

Por último, que é o que vem ao nosso intento, interesse maior aqui, a grande novidade: os livros do escritor francês Alexandre Dumas, o pai, autor de “O Conde de Monte Cristo” e de “Os Três Mosqueteiros”. Ele deixou uma obra enorme, produção em massa, talvez centenas de livros, parece que escrevia de enxurrada, que utilizava de escritores contratados para lhe auxiliarem.

Uma editora aqui no Brasil na ocasião lançou uma tradução das obras dele, não sei se total ou parcialmente, mas sei que todo mês chegava um volume, que vinha pelo correio para o Canhão, que tinha feito a assinatura. O primeiro livro, como não podia deixar de ser, era “O Conde de Monte Cristo”, em quatro volumes, tomos grossos, devia ser letra grande. O Canhão lia e me emprestava. A gente se emocionava, relia, discutia, comentava, vibrava e se deliciava com as aventuras do Conde, seu sofrimento inicial, depois a forra contra seus detratores, as vinganças, meticulosamente planejadas e executadas. Quatro meses de distração. O segundo livro, continuação do primeiro, cujo título era “A Mão do Finado”, também bom, o conde e seus companheiros como personagens, mas nem tanto quanto o primeiro, dois volumes menores. O Conde desta vez foi quem sofreu e pagou seus pecados. Canhão me emprestou esse também.

O terceiro, bem, segundo o próprio Canhão, era a sensação, o máximo, obra enorme, nove volumes: “Memórias de um Médico”. O Professor Lourismário, nosso mestre de História, tinha recomendado. “Não deixem de ler, trata-se de um romance histórico, que nos dá uma boa visão do ambiente reinante na França pré revolucionária.”

Segundo andei pesquisando recentemente no Google:  “Memórias de um Médico (em língua francesa: Mémoires d’un Médicin”) é uma série de quatro romances históricos escritos por Alexandre Dumas entre 1846 e 1853. A coleção aborda a seqüência de acontecimentos que dão origem, deflagram e agitam a Revolução Francesa, desde a chegada de Maria Antonieta à França para seu casamento com o delfim Luis, mais tarde rei Luis XVI, até a morte deste, em 1793, na guilhotina. Foi escrita em colaboração com Auguste Maquet e apareceu sob a forma de folhetim no jornal La Prense. Os livros que compõem a séria são quatro: José Bálsamo; O Colar da Rainha, Ange Pitou e A Condessa de Charny.

Eu li o primeiro volume de José Bálsamo. Adorei. Lembro-me ainda de alguma coisa. Os personagens históricos, a futura rainha Maria Antonieta, o delfim Luis, a amante do rei Luis XV Madame Du Barry, meio sem classe mas bonita e sensual, o cardeal de Rouan, um finório vigarista, e dezenas de outros cortesãos, condes e condessas, que viviam suas vidas vazias e indolentes no Palácio de Versailles, festas, etiquetas, recepções, concertos, teatros, comilanças, sem-vergonhices aos montes, fofocas, mexericos, traições, adultérios. Também participavam como personagens os intelectuais contemporâneos, Jean Jacques Rousseau, Voltaire, Diderot, Mirabeau etc.. Emocionante foi a descrição do casamento e da lua de mel dos noivos (Maria Antonieta e o Delfim). Ela com 14 anos, linda, um pitéu, e ele com 15 ou 16, um bobão desajeitado. Foi um dia, ou  vários de festa, não estou certo. Lembro que na primeira noite dos dois na cama, ele virou para o canto e foi dormir, não tocou nela. Aliás, nem na primeira nem nas seguintes.

Quanto ao personagem principal, José Bálsamo, era uma espécie de mago, indivíduo misterioso e fascinante, inteligente, cheio de ardis, adivinho, ligado ao ocultismo, à astrologia, ás sociedades secretas, maçonaria, rosacruz, etc., que se movimentava naquele meio confuso e cheio de trapalhadas. Como alquimista, em seu laboratório, tinha realizado o sonho dos cientistas, sintetizado a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida. Com a Pedra Filosofal poderia transformar em ouro outros metais menos nobres e o elixir era uma panacéia universal, uma poção, que prolongava a vida indefinidamente, quem o tomava não morria, não pegava doença e não ficava velho. Só tinha que tomar cuidado para não sofrer acidentes. Se não me falha a memória, o próprio José Bálsamo gabava-se de ter mais de três mil anos de idade, que vivera no meio dos antigos gregos e romanos, e não tenho certeza se também no tempo dos egípcios. Para muitos que não acreditavam em suas conversas, ele não passava de um charlatão e vigarista. Mas que era um personagem cativante, ah, isso era!

Quanto aos demais volumes, a continuação da história, vou ficar devendo. Pois o Canhão de uma hora para outra teve de mudar-se de Calçado, passou no concurso para Cadete da Polícia Militar e foi embora para Vitória. Logo depois a família também seguiu o mesmo rumo.

Nunca mais tive contato com os livros de Alexandre Dumas.

Recife, abril de 2009.

H. Teixeira de Siqueira.

 





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