Destino                                                                                 


                                                                                         I
Quando quebrei a casca do ovo, a primeira pessoa que vi foi aquele que viria a ser o meu patrãozinho doido.
 Estávamos todos, minha mãe, meus irmãos e irmãs, o patrãozinho doido e sua lanterna, e eu, debaixo do assoalho
 da casa. Meu patrãozinho doido coçava-se todo, a mecha fronteira do cabelo de azeviche a deslocar-se pela testa,
xingava como um endemoninhado.Eram muitas as pulgas,é verdade.Até que a nós elas não afligiam tanto.
Depois que o último ovo se quebrou, nossa mãe mudou-se para um lugar mais próximo da claridade, justamente da abertura semicircular, chapiscada de branco por fora.
Se púnhamos o olho por entre as penas maciinhas de nossa mãe, vínhamos gente igual a nós no terreiro. Mais ao fundo dele, estava o rústico galinheiro. Era o galo carijó que nos acordava todo dia com seu canto. Carijó também era minha mãe. Mas não cantava. Falava rouca e nervosa, só tinha cuidados para nós. Esquecera-se dela própria. Bastavam-lhe uns míseros grãos de milho e uns goles de água. Vinha logo para junto de nós e sentava-se em cima da gente com muito cuidado para não nos esmagar. Não vou dizer que ela nunca pisou na gente. Pisou, sim, e muitas vezes. Porém, era só um irmão piar mais alto, de dor, para ela logo levantar o pé e pousá-lo em local mais seguro, nunca se esquecendo de tirar um uns sons especiais de consolação, brotados lá do fundo de seu grande peito. Como era quente seu corpo. Quando chovia então, que gostosura espiar a chuva cair do alto ou correr em filetes pelas paredes, estando tão bem seguro, tão protegido.

                                                                                        II
Todos meus irmãos machos foram mortos e só a mim permitiram sobreviver, não sei dizer por que. De minhas irmãs,três apenas foram poupadas para poedeiras. Acho que foi depois desta matança que passei a ter pensamentos muito diferentes dos da minha espécie. Já outras pessoas acham que foi pelo modo como meu patrãozinho doido me criou.
Quando virei frango, passei a sentir coisas muito estranhas. As frangas e galinhas se transformaram em coisas caras ao meu desejo, assim como o milho que era jogado no chão para comermos. O milho brilhava ao sol, as fêmeas brilhavam ao meu desejo e parecia que eram feitas de ouro também, embora a maioria fosse de branquinhas e carijós, enquanto que as outras eram de cores misturadas. Mas não estamos falando exatamente de cores.Eu tinha apetite por todas, todo dia e dezenas de vezes por dia. Gostava de variar e às vezes sentia até um ímpeto de pular a cerca do vizinho e conhecer outras fêmeas. Mas a cerca era alta demais e no quintal reinava um galo velho mestiço, mas ainda muito forte.
Quando passei a cantar, elas se tornaram mais amáveis ainda comigo, e então passei a sentir muita raiva. Não delas. Nem eu bem sabia de quê ou de quem. Mas que era raiva, era.

                                                                                        III

Quando me tornei frango, aconteceu o seguinte. Meu patrãozinho doido, que a mãe dele chamava de Ernestino, não queria lhe dar um cachorro. O dito Ernestino, então, amarrou um barbante no meu pescoço e foi para a praça brincar com os camaradas. Todos com cachorro, só o meu patrãozinho doido com um galo, ou melhor, um frango ainda--eu.
--Pra quê esse frango no barbante, Ernestino?
--É o cachorro que arranjei.
Todos se entreolharam sem entender. Limão propôs:
--Vamos ver quem acerta cuspe na estátua?Catarro não vale—é mais fácil de mirar.
Saíram correndo pela grama até o busto do Coronel Nolasco. Formaram uma fila de seis e cada um tentou cuspir na cara do busto. O melhor tiro acertou no pescoço; nenhum na cara,o alvo preferido.
--Os pombos fazem melhor que a gente--observou Fanico.
De fato, era mais difícil achar uma parte que não tivesse uma mancha branca escorrida.
--Melhor a gente descer pra outra praça e fazer xixi nos buques--alvitrou Orlandino.
Dispararam pela passarela de cimento, atravessaram a rua, subiram até a entrada do Grupo, arriaram os shorts e fizeram xixi nas duas caçapas redondas, uma de cada lado do grande portão fechado, já que era domingo.A urina acabou por encher os orifícios onde enfiavam o pau da bandeira,e que aquela tropa de desmiolados chamava de buque,e a escorrer pelo cimento.
                                                                                         IV
       
Eu sendo galo do meu patrãozinho doido, talvez pela convivência com os cachorros dos seus camaradinhas, agora avançava e queria bicar toda as pessoas de casa, esporeá-las, bater-lhes as asas, menos no meu dono miúdo. Os de fora, então, nem falar...
--Pensa que é cachorro, mãe--sentenciou Ernestino.
--Pois se ele não mudar, vai parar na panela.
Ernestino não conseguia entender. Uma vez, de brincadeira, mas aparentando sério, fui pra cima dele para bicá-lo e ele apenas fingiu que ia dar um chute em mim, e logo me acovardei e desde aí nunca mais me meti a engraçadinho com ele. Já a empregada, uma escura de cabeça grande, mal eu ia pra cima dela, danava a correr como se eu fosse uma cobra jararaca.

Obs. Foi quando o pegaram pelo pescoço e o cortaram fora. A mesma empregada, num gesto imprevisível de fúria.
Teresópolis, 03 de agosto de 2008.



Carlos Rezende
cev.rezende@uol.com.br




 

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