Dias depois


Que dias! Não sei se são mais difíceis, se são mais doídos, ou se são esquecíveis. Só sei, e tenho certeza, de que ainda não são dias de saudades.

Tenho pensado muito no sentido da passagem e marcas deixadas por papai nessa vida.

Somos seis irmãos. O irmão mais velho, Javerson, três anos a mais que eu, tem os traços que lembra muito papai quando era mais novo. É incrivelmente gostoso estar junto de sua companhia, que alegria, que paz de espírito!

Jéfferson, um ano mais novo que Javerson, fisicamente lembra meu avô Rafael Spadarott, pai de mamãe, mas traz consigo as atitudes de papai, muitas vezes teimoso, mas... que coração! Rita de Cássia, nome dado em homenagem a “Nossa Senhora Rita de Cássia”, santa sempre rogada por mamãe a iluminar nossos passos, foi a primeira moça a chegar, um ano depois de mim. Ela é a turquinha da família, de personalidade forte e está sempre a procurar dar orientações a todos.

Ainda no reinado das mulheres tem Verônica, de traços italianos, com seus olhos verdes a homenagear a beleza da vida, herança das raízes de mamãe. Está sempre alegre, equilibrada, de gostosa companhia, conseguindo sempre convergir uma saudável relação entre todos os irmãos, mas, quando fica brava, é como aquelas italianas que já vimos em tela de televisão, sai de baixo!...

Finalmente nosso caçula, Dr. Cícero, nosso primeiro Doutor. Dentista formado lá pelas bandas do Rio Grande do Sul, mais especificamente na “Universidade Federal de Santa Maria”. Sério, de pouca prosa, é o que de mais belo poderia vingar da mistura dos sangues fortes das origens turca e italiana de papai e mamãe. Moço realmente muito bonito, sua companhia fica extremamente marcada pela inteligência e posicionamentos bem definidos.

Eu sou o Júnior, basta, não precisa dizer mais nada.

Queria dizer que está muito doído. Não fazia a menor idéia dessa infinita dor.

Talvez os diferentes momentos de nossas vidas, dos seis filhos, como vir ao mundo de parto natural em nossa casa no Distrito de Ponte do Itabapoana, no Município de Mimoso do Sul, experimentando, logo na chegada, as primeiras sensações de um ambiente domiciliar, do cheiro da casa, do ambiente familiar, sei lá; talvez a saída de Ponte do Itabapoana para São José do Calçado, cidade natal de nossa querida mãe, depois de dois ou três anos do nascimento do caçula Cícero e, somando a tudo isso, o fato de mamãe ser filha única e ter ficado órfã ainda menina, aos vinte e muito poucos anos de idade; o fato de papai se distanciar do convívio do dia a dia de seus irmãos, talvez tudo isso tenha proporcionado, ao longo dessa vida, cada vez mais a união desse pequeno clã. Sempre nos respeitamos. Sempre tivemos a nítida noção do conceito de família. Sempre prevaleceu de que éramos um para o outro, estivéssemos onde estivéssemos, sempre foi assim.

Como é ruim viver a realidade de que um de nós não faz mais parte desse pequeno clã. (Cara, como é doído - nesse momento, sinto um vazio no peito, inevitáveis lágrimas em minha face) Não tinha noção que essa realidade dói muito. Que coisa louca. Não é para ser assim. Não somos eternos. Nada é eterno.

Epa! Espera aí. O amor pode ser eterno. O amor é capaz de eternizar-se nos que ficam, nos que vão se agregando ao longo da caminhada. São as noras, os genros, os netos e netas, são os amigos, sim, os amigos, esses grandes companheiros que também vão fazendo parte de nossas vidas.

Tenho esperança que o tempo será senhor de si e nos ajudará a ser um ser melhor do que imaginamos ser.

A todos que deram o prazer do convívio ao nosso querido pai, nossos reconhecimentos por todo carinho a ele manifestado.

Vitória, 20 de junho de 2008.


Jamir Gibraia Bullus Júnior
jamirbullus@bol.com.br



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados