O alarme foi dado logo de manhãzinha, quando alguém
entrou no galinheiro e viu a matança. Frangos e galinhas,
uns dez, um pouco mais ou talvez menos, espalhados pelo chão,
mortinhos, praticamente inteiros, mordida no pescoço,
uma barbaridade, assassino violento, bicho sanguinário,
terrorista, não comeu nada, só matou, parece que
por diversão, sanha, aparentemente sem motivo, pura maldade.
De início perplexidade geral, depois as hipóteses
e conjecturas, divergentes, cada um com a sua. Pelo estrago,
devia ser bicho grande, pelo menos com muita saúde e
disposição. Cachorro do mato, gato do mato, mão
pelada, gambá? Era do que se podia pensar, inimigos figadais
na época, que costumavam avançar nos galinheiros
e causar muito prejuízo. Por isto, o lema que corria,
tinham que ser caçados e eliminados, custasse o que custasse.
Não havia ainda as idéias de preservação
e ecologia de hoje, sedimentadas e tão em voga.
A primeira hipótese, a mais atraente: cachorro do mato,
dada a violência com que costumavam agir em seus ataques.
Entretanto, embora tentadora, estava quase descartada, pois
eles andavam raros ultimamente. Porém não esquecer
que seu Medeiros, Agente dos Correios local e caçador
diletante, tinha perseguido e matado um recentemente, bem por
ali, atrás da casa da dona Lota, na Matinha do seu Zezé.
O infeliz ficou jogado lá por vários dias, para
quem quisesse ver, apodrecendo e fedendo, próximo da
trilha no mato, bem junto de um pé de coco brejaúba.
Outra possibilidade: gato do mato? Não, não, a
gente ouvia falar deles, muitos casos, todavia só casos,
o predador parece que já andava extinto na região.
Ninguém há muito dava notícia de ter visto
algum pessoalmente.
Mão pelada, também conhecido como guaxinim? Não,
não na Fazenda Velha. Pelo que constava, eles eram comuns
lá pros lados do Jacá. Por aqui não. Além
disso, eram pequenos e se restringiam a atacar filhotes, pintinhos,
passarinhos, ninhos e ovos.
Restavam os gambás. Gambá, seria possível?
Também não, ninguém ousou ou acreditou
na possibilidade. Abundantes na área, mas bicho fraco,
quase inofensivo, molenga, de se matar a pontapé, impotente
de fazer tamanho estrago.
Difícil uma conclusão teórica, mais ainda
com os poucos dados disponíveis.
Uma coisa que muito intrigava, falha imperdoável, neste
caso, foi a omissão dos cachorros. Havia uns três
na casa e não deram nenhum alarme. De um modo geral estes
bichos selvagens quando se aproximam, com seus odores característicos,
se anunciam de longe, ou melhor, fedem, e as presenças
deles são identificadas na hora pelo agudo faro dos cães.
Na casa havia uma cadelinha de nome Campina, de muita eficiência,
vigiava o quintal o tempo todo, ficava à noite de sentinela,
não dava trégua a nada que fosse estranho. E nesta
noite não avisou, parece que estava ausente. Os outros
dois vira-latas não surpreenderam, pois não prestavam
mesmo, indolentes e molóides, eram mais de comer e dormir.
Mas a Campina era diferente.
Depois de discussões e ponderações, todos
da casa envolvidos, uma conclusão se impôs unânime,
e parecia certa: o assassino ia voltar, era questão de
mais ou menos dias. Fora muito bem sucedido, tremendo sucesso,
fácil empreitada, além do fato de que o galinheiro
continuava cheio e apetitoso.
Algo tinha que ser feito...
Primeira idéia, que tal uma armadilha? Uma boa, daquelas
de mola que se vê nos filmes? Armada na entrada do galinheiro,
quando o bicho entrasse, todo à vontade, todo confiante,
ia ter uma surpresa, lhe prendia o pé, ia ficar pulando,
desesperado de dor. Ah! Beleza, preso o assassino.
Havia um porém...
Porém e as galinhas? Podia ser que alguma retardatária
também caísse na armadilha. E quanto à
viabilidade do projeto, de se obter a mola? Filme é filme,
aqui não estávamos nos Estados Unidos, não
existiam tais instrumentos disponíveis, nem facilidade
de obtê-los, nem no comércio, nem alguém
imaginativo capaz de construí-los. E se existissem certamente
seriam bem caros e quem ia querer despender dinheiro com um
troço desses, complexo e caro, além de utilidade
duvidosa?
Outra idéia, mais simples...
Um alçapão de pegar passarinho. Não o alçapão
em si, mas o seu princípio de funcionamento.Um tipo de
armadilha muito usado e conhecido. Com base nele podia-se tentar
montar uma arapuca para o predador. Precisava de apenas algumas
peças fáceis de obter. Uma vara, alguns pedaços
de paus, para apoiá-la, uma tira de elástico forte
e um pedaço de corda. Com isto era possível montar
um mundéu. Quando o bicho pisasse na vara, o equilíbrio
instável cederia, e o elástico puxava a porta.
Idéia boa, lógica e fácil de pensar. Entretanto,
para implementá-la carecia de alguém suficientemente
habilidoso. Quanto ao material, a vara, os paus e a corda eram
fáceis, mas o elástico já complicava, câmara
de ar, de caminhão ou trator, pois tinha que ser grande
e forte. Quem sabe se pudesse contar com a habilidade de seu
Eustáquio ou do Vantinho? ... vizinhos que moravam logo
ali do outro lado do rio. Será que topavam?
Não havia dúvida que se quisessem, montariam com
a maior facilidade, eram suficientemente inteligentes e criativos.
Mas será que valia a pena tentar envolvê-los? Gente
de fora, sempre ocupados, não tinham tempo, complicado,
não, tem que se pensar em outra coisa mais simples.
Finalmente a outra coisa...???...
Ia dar trabalho, mas faremos assim. Vamos aproveitar a posição
relativamente próxima do galinheiro e da casa. Da janela
desta podia-se controlar a porta do galinheiro, com uma corda
de uns trinta metros.
Prendia-se a corda na porta do galinheiro, levava-a até
ao fundo, passando por uma ripa e voltando com ela até
à janela da casa. Difícil de explicar, mas fácil
de fazer. Dali, puxando a corda podia fechar o galinheiro, prendendo
quem estivesse lá dentro. Supimpa, montado e testado
o esquema funcionou perfeitamente. O problema é que alguém
teria de ficar acordado, escondido no vão da janela,
com a luz apagada, em silêncio, espreitando, de sentinela
vigiando, de olho na porta do galinheiro. Assim que o animal
entrasse, puxava a corda e ele estaria preso.
Uma suposição, que nos pareceu bem razoável,
é que o bandido deveria agir logo cedo, assim que escurecesse,
sete da noite, oito, nove no máximo. Montou-se a armadilha
e ficamos vigiando. Na primeira noite nada, nem na segunda.
Quando vimos que ele não aparecia, trancamos o galinheiro
e fomos dormir. Na terceira noite ele apareceu, passou correndo
pelo terreiro e entrou no recinto das galinhas. Pronto, o de
plantão puxou a corda e a porta do galinheiro se fechou.
Todo mundo correu para vê-lo de perto, finalmente o danado
estava preso, agora poderíamos acertar as contas. Então
nos aproximamos, fazendo barulho, várias pessoas, os
cachorros excitados acompanhando. Mais uma vez eles não
tinham percebido antecipadamente a presença do estranho.
Na confusão, uma semi-decepção, descobriu-se
que havia um buraco na grade, por onde ele vazou fugindo atabalhoado
morro abaixo, na direção do rio. A Campina atrás,
latindo e embolando com ele, os outros cães atrás
também fazendo barulho e todo mundo acompanhando. No
sufoco, para largar dos cães, trepou no pé de
fruta-pão, e estes ficaram embaixo, acuando, latindo,
querendo subir também. O Oscar já pré-planejado,
trazia uma lanterna tipo “flashlight” numa mão
e o seu revolver na outra, um 32, Shmith Wesson, cromado, cabo
de madrepérola, uma jóia. Meteu a luz no meio
da galhada, dentro da ramagem.
Surpresa! Dentro do foco iluminado apareceu um gambá
enorme, criado, agarrado no galho, imóvel. Os olhos,
contra a escuridão, pareciam duas lâmpadas acesas,
dois faróis amarelos refletindo a luz da lanterna.
Foi quando o Oscar apontou o revolver, um metro de distância,
mais ou menos, e fez fogo. O estampido estrondou no silêncio
da escuridão, impossível errar. O bicho iluminado,
imóvel como estava, imóvel continuou. O Oscar
gritou: “está morto!” Rígido continuou
o animal agarrado no galho, alguém comentou “isto
pode acontecer, deve ser o tal de “rigor mortis”,
quando a morte é muito rápida a criatura fica
estática”. “Jayme!, cutuca ele com um bambu!”.
Quando o Jayme cutucou, o gambá caiu no chão e
saiu correndo, embolado com os cachorros que lhe caíram
em cima. Seguido ainda de alguém atrás com um
porrete, metendo-lhe o cacete.
P.S.:
Uma surpresa, como fomos nos enganar! Depois é que ficamos
sabendo que gambá age é assim mesmo. Quando vê
muita fartura, vai matando todas as galinhas e bebendo o sangue.
H. Teixeira de Siqueira,
Vila Velha, março de 2008.
