1) Preliminares
Só pela cooperação um povo alcança
em plenitude os seus objetivos...
Bonito texto, não? Continua atual, soa bem - cooperação,
etc., etc., plenitude... Foi dito em 1956. Minto, dito não,
ele foi foi tirado de um livro ou dum impresso, daqueles enviados
pela Secretaria da Educação para as professoras
do curso primário, escola singular, naqueles idos.
Nosso orador chegou na Fazenda Velha meio assustado: “Nádia,
estou enrolado, fui sorteado na Reunião do Grêmio
e vou ter que me apresentar, bancar o artista ou fazer um discurso”.
Claro que não tinha a menor idéia do que fazer,
mas é claro também que como não possuía
veia artística a única possibilidade era um discurso.
Nas Reuniões do Grêmio, costumeiramente, havia
alguns colegas que sempre representavam a turma, se apresentavam
voluntários, tinham gosto. Um tinha pretensão
de ser advogado e aproveitava as oportunidades para treinar
a sua oratória, costumava empregar termos difíceis
e empolados. A turma brincava, gozando-o, que ele não
podia ver um banquinho que queria subir. Tinha outro também
voluntário, mas como artista, desinibido, ia lá
no palco tranquilamente e abria o peito cantando músicas
sertanejas de Pedro Raimundo ou Luiz Gonzaga, “Asa branca”,
“Eu tenho uma mula preta”, etc., tudo sem acompanhamento,
só no gogó. E isso acontecia também com
as outras classes, sempre os mesmos alunos, os voluntários,
se apresentando, o que estava tornando as reuniões um
tanto monótonas, por melhor que fossem os participantes,
mas sempre os mesmos no palco, oradores, cantores, instrumentistas,
declamadores, etc.. Enquanto isso o resto, a grande maioria,
se omitia e ficava na moita só assistindo.
Um dia a Diretora, dona Mercês, resolveu agir contra tal
situação, e estabeleceu que doravante ia sortear
todo mês um aluno de cada turma para se apresentar. Queria
gente nova, sangue novo, todo mundo tinha que participar, que
não valia mais o voluntariado, queria evitar aquela mesmice
de sempre os mesmos. Óbvio, não ia proibir os
voluntários, eles podiam continuar, mas não mais
como representantes das turmas.
Então o problema do nosso amigo, tímido e acanhado,
foi sorteado logo na primeira reunião, assim que começou
o novo critério, tinha que se apresentar na próxima,
daí a 15 dias. Estava nervoso, apavorado, não
dava pra isso, não sabia nada, um deserto de idéias,
porquê logo com ele, ter que aparecer e se mostrar, se
expor, tão bom passar despercebido. E veio à Fazenda
Velha se socorrer com a Nádia.
Ela já era conhecida, tábua de salvação
de muitos. Com freqüência estava escrevendo discursos
para alguém, algum homenageado que tinha que agradecer,
algum paraninfo ou padrinho de turma, ou madrinha, alguém
que por algum motivo devia discursar. Ela tinha jeito, craque
num texto, sabia montar as idéias, escrever com clareza
e espontaneidade, usando vocabulário adequado, empregando
quando necessário palavras pomposas e sonoras, apropriadas
para cada ocasião.
Encorajou o apavorado: “calma, calma rapaz, não
se afobe, sempre há solução, vamos botar
a cabeça pra pensar. Sabe que a diferença fundamental
entre os humanos e os outros animais é que nós,
pelo menos a maioria, temos a capacidade de pensar”.
Se dirigiu lá pra dentro, até sua estante de livros
e pegou um folheto. Folheou-o, parou numa página, mostrou
um título: “SÓ PELA COOPERAÇÃO
UM POVO ALCANÇA EM PLENITUDE OS SEUS OBJETIVOS”.
“Acho que está bom, podemos usar esta frase como
base para desenvolver o raciocínio.”, disse.
Depois didaticamente deu umas explicações. Para
escrever alguma coisa, seja um livro, uma história, uma
crônica, um discurso, é necessário antes
de tudo saber o que se deseja, qual o fim, aonde se quer chegar.
Ou seja, tem que pensar antes. Depois faz um roteiro e segue
por ele. Na introdução devemos motivar o interlocutor,
depois no desenvolvimento você expõe as idéias,
tanto as principais como as acessórias e no final faz
o fecho, que é normalmente onde se procura atrair a atenção
e pode consagrar ou não o trabalho.
Na oratória, temos que nos preocupar também com
o ritmo da exposição, para não ficar monótona.
Para isso colocamos algumas palavras chaves em determinados
pontos que devem ser precedidas por pausas e pronunciadas com
mais ênfase. Depois de pronto o texto, temos que ensaiar
e treinar. A idéia não é decorar, aliás,
não pode decorar. Em princípio o discurso vai
ser lido, na verdade com o treino ele termina sendo memorizado,
mas tem que tomar cuidado, decorar nunca.
“Agora vamos pensar...”, continuou.
2) Escolha do tema.
Vejamos um exemplo de cooperação. Hoje em dia
aqui em Calçado do que se fala muito é da construção
do novo estádio do Americano, uma obra notável
de todo o povo calçadense, liderada e coordenada pelo
Sr. Moacir Garcia, novo presidente do clube. Você poderia
render uma homenagem a ele, seria justa e merecida. O homem
tem trabalhado muito em prol da cidade. Há quantos e
quantos anos se falava em Calçado numa nova praça
de esportes e ninguém fazia nada. Além disso,
provavelmente ele estará presente à reunião
como Inspetor de Ensino, boa oportunidade.
3) Programa resumido do texto
a) Idéia central: a virtude da cooperação.
b) Idéias secundárias: elogiar o Colégio
e se referir à situação da Turma que está
encerrando o curso e vai ter que sair de Calçado, ênfase
na esperança e no augúrio para que tudo dê
certo na continuação da vida em outros embates.
c) No fecho: homenagem ao Sr. Moacir.
4) A execução
Em seguida ela pediu um tempo, sentou-se à mesa, e começou
a escrever. Após uns quinze ou vinte minutos levantou
com um rascunho. “Vamos ver, escuta!”. E começou
a ler.
5)
O Discurso
“Digníssima. Diretora do Colégio de Calçado,
Professora Mercês Garcia Vieira!
Ilustríssimo Sr. Inspetor Federal Moacir Teixeira Garcia!
Prezado Professor Aderbal Ferreira Diniz!
Prezado colega Presidente do Grêmio! e
Demais membros da mesa!
Caros Colegas!
Para mim, ou melhor para nós do Terceiro Ano Científico,
aproxima-se o término deste tempo feliz, que reunidos formamos
como que uma família, cujo chefe extremoso, educador e
disciplinador foi o Colégio de Calçado.
Aproxima-se o fim deste curso que constitui o alicerce de toda
nossa vida intelectual, cívica e moral.
Agora, Colegas, com os conhecimentos adquiridos durante esse período,
é necessário que levantemos sobre esta sólida
base o edifício do futuro. Para uma obra gigantesca, não
menos gigantescos devem ser os esforços empregados no seu
empreendimento.
Por isso, avancemos para o futuro. Nada nos deterá, não
recuaremos diante dos obstáculos, porque estamos certos,
levamos uma bagagem de conhecimentos básicos recebidos
sob este teto, onde o ensino é administrado com zelo; a
disciplina é carinhosamente observada; e o respeito à
dignidade é rigorosamente cumprido.
Dessa escola de bom exemplo, que poderá nos faltar para
que possamos transpor os umbrais das Universidades? Nada, ou melhor
quase nada, pois ainda cometemos deslizes quando temos diante
de nós problemas que exigem o emprego da cooperação.
Colegas! Quando falamos de cooperação não
poderemos deixar de mencionar um fato edificante que surpreendeu
a nossa população há tão poucos dias.
Um homem, escondido na sua modéstia, fez sacudir de entusiasmo
a juventude esportiva desta cidade coordenando num esforço
construtivo dinâmico e idealista o mais perfeito exemplo
de cooperação entre os homens para o cumprimento
de uma finalidade.
Na pessoa do Sr. Moacir Teixeira Garcia, nosso ilustre inspetor
de ensino, vamos encontrar o cidadão que por seu elevado
sentimento de civismo e amor ao seu torrão, não
mediu sacrifícios para levantar aí uma bela praça
de esportes.
Queira Deus, possamos nós ser homens dessa envergadura.
Em nome da mocidade esportiva calçadense, quero aproveitar
a oportunidade para apresentar ao Sr. Moacir Garcia os nossos
mais sinceros votos de felicidade e muita simpatia.
Tenho Dito.”
6) O epílogo...
Tudo planejado, tudo executado. Como não podia deixar ser,
a apresentação foi exaustivamente ensaiada, parte
na frente do espelho e o resto em lugares diversos, aonde estivesse.
Toda atenção na leitura, domínio da voz,
dos gestos, dos parágrafos, das pausas, cuidado para não
tremer as mãos.
Acho que podemos afirmar que correu bem, melhor, foi até
muito bem, não houve descontrole, não se notou nenhuma
discrepância, nada explicito. Na verdade houve sim uma ameaça,
mas foi contornada, não chegou a transparecer.
Segundo relatou depois o nosso orador, de acordo com o planejado,
no sexto parágrafo, antes de dizer a palavra “Colegas!”,
tinha que parar e olhar para a platéia, como a dialogar
com ela, estabelecer uma interação, contar até
cinco mentalmente, e reiniciar, com convicção, quase
bradando, “Colegas!”. Fez tudo certo, porém
nesse ponto, ao encarar a platéia, teve uma sensação
esquisita, não reconheceu ninguém, no intervalo
de silêncio só viu cabeças, cabecinhas com
olhos, como num desenho de criança numa folha de papel,
não via os corpos, todas as bolas, todas as cabeças
com olhos pregados nele. Felizmente conseguiu se dominar e fingir
que não via nada.
Foi muito aplaudido, uma surpresa, melhor que a grande maioria
de sempre, muitas palmas, seu Moacir levantou e veio agradecer,
dando-lhe um abraço.
Vila Velha, junho de 2008.
H. Teixeira de Siqueira,
Vila Velha, maio de 2008.


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