Dos encontros com João Adão e Pedro Bosco, com digressão sobre os Gomes da Prata...


Em uma visita a Calçado, estávamos num papo, eu e o João Adão, quando veio a lembrança dos primos, moleques lá do Jacá, nossos parentes do ramo dos Gomes da Prata.

Amigos de infância? Ou ao contrário, inimigos? Pelo certo deveríamos ser amigos, já que éramos vizinhos e parentes próximos. Mas com criança é assim mesmo, diferente e complicado, quando se tem tudo para ser amigos ficam inimigos, dependendo das corriolas, dos grupos rivais, e principalmente do pouco valor que se dava em fazer e preservar amigos, ou do nenhum de se conquistar inimigos.

Quando passavam na estrada, a gente mexia com eles e os provocava gritando insultos, por causa de suas orelhas enormes e cabanas, característica da família. Gritávamos: ““orelhas de abano!”; “capa de cangalha!”; “boi Zebu!”; “boi Uberaba!”; etc.!” E eles revidavam jogando pedras, xingando, fazendo gestos obscenos, igualmente nos insultando, gritando impropérios.

Amigos ou inimigos? Como saber? Com o passar do tempo tudo muda, cinqüenta anos, uma vida, passando uma borracha sobre o que era ruim e salientando o bom que a infância nos recorda, devemos com toda certeza ser amigos hoje em dia. É só nos encontrarmos para ver.

Sempre me fascinaram os Gomes da Prata, gente que no passado, há mais de cem anos, habitava na região. Os Gomes nome de família, da Prata, por causa da Fazenda, “A Fazenda da Prata”, que ficava próximo de Conceição do Muqui. Até há uns tempos atrás, na época do ônibus do Dedé, década de 1950, ainda podia-se observar na chegada do povoado, bem junto da curva, uns restos de ruína da antiga casa grande.

Pelo que sabemos, eles eram valentes e trabalhadores. Também temperamentais e violentos se contrariados. Quase não sobraram notícias deles. Os descendentes na maioria das vezes não usam mais o sobrenome Gomes. As lembranças diluídas no tempo vêm desaparecendo, ninguém hoje sabe nada, nem que existiram. Não é surpresa, o mesmo vem ocorrendo com tantas e tantas outras famílias e pessoas, pois no nosso meio, no geral não temos preocupação com a preservação da memória familiar.

Um dos membros de que se tem notícia, talvez o mais ilustre do clã, que viveu no Século 19, foi seu Manoel Gomes, de apelido seu Neca. Sabemos que tinha pelo menos três filhas: Maria Rosa Gomes de Araújo Dutra, primeira mulher do Cajão Teixeira; Januária Gomes da Silva, casada com seu Pedro Silva; e dona Rosa Gomes Pinto, cujo marido era da família Pinto, Quinca ou Neca Pinto, não se tem certeza. Todas três deixaram muitos descendentes.

Existem algumas notícias ruins e sombrias sobre os Gomes. Certa vez, num papo com um antigo morador de Calçado, seu Ninico Poubel, ainda lúcido aos 90 anos, ele me disse que os Gomes da Prata tinham fama de maus, de judiar com os escravos, uma espécie de bichos-papões. E que os outros fazendeiros, quando algum negro ameaçava sair da linha, logo o ameaçavam “vou te vender para a Fazenda da Prata”, o que fazia com que o relapso num instante ficasse bomzinho. Contou-me também o caso de um assassinato, cometido por um negro foragido, que matou a machadadas um dos membros da família Gomes, tocaiando-o numa moita de bananeira.

Finalmente, lembra-me ainda que disse que entre os Gomes da Prata, segundo corria, havia muitos epiléticos, ou mais precisamente, eles eram uma família de epiléticos. Neste caso tenho dúvidas pois, se foi assim, a doença ficou para trás e se perdeu, não sendo transmitida às novas gerações. Em todos os descendentes conhecidos, que são muitos, só há recordação de um primo que sofria de epilepsia e dava acessos quando era garoto, depois sarou.

Voltando à conversa com o João Adão. Ele ainda morava no Jacá e tinha notícias atualizadas dos primos. Contou que dos três só restava um, o caçula, o Pedro Bosco. Os outros dois, Zezinho e Dengo já tinham falecido. O primeiro mais recentemente, deixando viúva e filhos, e o outro já fazia um bom tempo e não recordava se chegou a casar-se.

O Pedro ainda continuava morando por lá, sozinho, numa pequena propriedade que herdou dos pais e sobrevivia da aposentadoria da previdência rural. Parece que a mulher o abandonou há alguns anos, e os filhos também, que já adultos, não queriam saber dele. Ultimamente andava meio alienado.

“Andava pegando firme numa cachaça”, segundo o João. “Na semana passada mesmo passei por lá, ele estava sentado na porta da casa, fumando um cigarro, tentei entabular conversa mas desisti, mal se sustentava de pé, bêbado, bêbado. Uma pena, pois sóbrio era um bom sujeito. Coitado, sozinho, renda mínima, sobrevivência modesta, mais de 60 anos de idade, sem perspectiva, expectativa de um porvir sem esperança. Qual a solução? Ir levando, ir remando, tocando o barco? E a bebida para complicar.”
Será que complicava mesmo?

“Ou quem sabe até ajudava. Em situações extremas, de vazio e falta de perspectiva, vontade de sumir e de morrer, uma cachacinha até que pode ajudar. Mas é claro, e como ajuda, fugir de si mesmo e desta vidinha miserável e ridícula, até a hora chegar, a do acerto de contas com aquele que está lá em cima nos monitorando. Ou não? Será que tem alguém mesmo nos vigiando? Pode ser que sim, mas difícil crer. Tem que ser muito simplório para acreditar, sem pensar, sem argumentos lógicos, sem contraditório, sem contestação, sem uma discussão mais aprimorada, nessas baboseiras todas que tentam nos impingir. Quem tenta? Ou outros simplórios, como nós mesmos, meio cegos que não sabem analisar o nosso entorno, a nossa vida, ou outros mal intencionados, querendo se aproveitar e levar dividendos às nossas custas, também sem análise mais profunda da situação.”

Botequim, Filosofia de Botequim, barata não? Ou do quê? Se de médico e louco todos temos um pouco, por que não de filósofo?. Concordamos que tem razão quem afirma que a vida às vezes, ou quase sempre, é bem complicada e sem solução, mesmo com ou sem a cachaça.

Que coincidência!

No mesmo dia, mais tarde, quando atravessava a Praça Teófilo Lobo, alguém me acenou e gritou. “Oh rapaiz, você aí, não me conhece mais, ficou rico?” Olhei sem entender, depois reparei melhor, um estranho sentado no banco, branquelo, orelhas grandes e cabanas. Será o Pedro Bosco, será ele mesmo? Bem diferente, que coincidência, há muito não o via, arrisquei: “oi Pedro, é você mesmo, há quanto tempo hem?”

E era...

Estava bem, nos abraçamos e recordamos os velhos tempos, amigos de sempre. Quando tocamos no nome do João Adão, ele foi incisivo: “Por falar dele, queria lhe dizer, tenho preocupação, coitado, ultimamente anda pegando firme numa cachaça. Como mais velho e experiente você poderia lhe dar uns conselhos.”


H. Teixeira de Siqueira
Vila Velha, abril de 2008.



 

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